Conheça o projeto Ciência em Movimento, que promove inclusão científica na Serra da Capivara, no Piauí
Reunião da SBPC apresentará projeto de popularização e divulgação da ciência numa das regiões com maior concentração de arte rupestre do mundo
No dia 26 de julho começa a acontecer, no campus da Universidade Federal Fluminense (UFF), a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Com o tema "Ciência para todos: soberania, desenvolvimento e inclusão", a reunião vai até o dia 1º de agosto promovendo conferências, mesas-redondas, atividades culturais, exposições e cursos destinados a estudantes e professores do ensino básico, técnico e superior, além de pesquisadores, profissionais e do público geral. Tudo, como sempre, com inscrições gratuitas. A equipe do The Conversation está de olho nos preparativos para o evento, e pediu a alguns pesquisadores que farão palestras por lá para adiantar o tema de suas apresentações em artigos aqui no site. No primeiro deles, a diretora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí (IFPI), Lucimara Lais Zachow, relata a experiência do projeto de divulgação científica que ajuda a liderar na Serra da Capivara, uma das regiões com maior concentração de arte rupestre do mundo:
O projeto MUV - Ciência em Movimento nasceu em 2023, como um evento pontual alusivo à Semana Nacional de Ciência e Tecnologia. Logo após sua primeira edição, esse status foi permanentemente alterado: o MUV não seria mais apenas um evento, e sim um projeto contínuo de popularização e divulgação da ciência. O projeto chega em 2026 à sua quarta edição com uma capilaridade muito além do esperado quando começou.
Berço do Homem Americano
Idealizado pelo Instituto Federal do Piauí - Campus de São Raimundo Nonato, o MUV já nasce em terreno cientificamente fértil: o Território Serra da Capivara, situado no interior do estado do Piauí. Também conhecido como Berço do Homem Americano, esse território tornou-se mundialmente reconhecido como um dos locais com maior concentração de arte rupestre do mundo, graças às pesquisas e esforços da arqueóloga franco-brasileira Niède Guidon.
Em suas pesquisas, a doutora Niède também conseguiu comprovar que foi em solo piauiense, há mais de 100 mil anos, que o homem chegou à América pela primeira vez, o que causou uma verdadeira revolução na história mundial.
Foi também graças ao empenho de Niède Guidon que em 1979 criou-se o Parque Nacional da Serra da Capivara, com aproximadamente 130 mil hectares, englobando os municípios de São Raimundo Nonato, Brejo do Piauí, Coronel José Dias e João Costa. Alguns anos mais tarde, em 1991, foi reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO, por preservar vestígios da mais remota presença do homem na América do Sul.
Até o ano de 2018, foram registrados mais de mil sítios com pinturas e gravuras rupestres pré-históricas, indicando uma das maiores concentrações de sítios pré-históricos do mundo por quilômetro quadrado. Tal característica atrai mais de 40 mil visitantes anualmente, de diversas regiões do país e do mundo.
Apesar de toda essa riqueza histórica, a região do Território Serra da Capivara possui 16 dos 18 municípios que a compõem com Índices de Desenvolvimento Humano de Municípios (IDHM) abaixo de 0,60, valor considerado baixo, ao se analisar parâmetros como educação, renda e longevidade de sua população.
Além disso, não havia, nesta região, iniciativas continuadas de popularização da ciência e divulgação científica. Com isso, o MUV tem, desde seu início, a missão de desenvolver a educação científica na região. Sabe-se que é através da democratização do acesso à ciência que se constitui um vetor estratégico de desenvolvimento socioeconômico, ao promover inovação, qualificação de pessoas, fortalecimento das capacidades locais e geração de soluções para os desafios dos territórios.
O modelo de atuação do MUV foi organizado em eixos complementares e interdependentes.
Comunicação científica
O primeiro compreende grandes ações públicas de comunicação científica. O principal evento deste eixo é a Exposição de C&T, em uma praça pública e tradicionalmente utilizada para eventos em São Raimundo Nonato. Na última edição, estiveram presentes mais de 50 expositores, entre universidades, empresas parceiras, cooperativas locais, organizações não governamentais e secretarias do município.
Durante as exposições, os visitantes têm a oportunidade de conhecer iniciativas desenvolvidas pelos expositores e conhecer os projetos e cursos conduzidos nas universidades públicas do município. Além disso, há a participação de artistas locais, que abrilhantam o evento com músicas regionais e autorais, conectando arte, cultura e ciências em um mesmo espaço.
Formação científica
O segundo eixo corresponde à formação científica de estudantes e professores da educação básica, além de toda a comunidade em geral, por meio da realização de oficinas, cursos, capacitações, mentorias e ações voltadas ao fortalecimento das feiras escolares de ciências e da aprendizagem baseada em investigação.
Considerando as quatro edições do MUV - Ciência em Movimento, foram oferecidas mais de 200 oficinas, de diversas temáticas, além de uma série de palestras e mesas redondas. Com isso, mais de mil vagas de formação complementar foram ofertadas à toda a comunidade.
Iniciação científica e pesquisa escolar
O terceiro eixo contempla a promoção da iniciação científica e da pesquisa escolar, tendo como principal instrumento a Mostra MUV - Feira Municipal de Ciências, que integra escolas públicas da região em um processo contínuo de desenvolvimento de projetos científicos.
Pensada para ser apenas um feira de ciências institucional, já no seu segundo ano de execução a MOSTRA MUV passou a ser de nível municipal, envolvendo diversas escolas do município. Uma das primeiras ações da MOSTRA MUV foi fomentar as feiras de ciências de escolas públicas do município, através de um edital de apoio lançado pelo MUV.
Com isso, as escolas realizaram — algumas pela primeira vez — suas próprias feiras de ciências, com o objetivo de incentivar os alunos a desenvolverem projetos científicos e selecionarem os melhores trabalhos para participarem da MOSTRA MUV.
Na edição de 2025, a MOSTRA MUV contou com a participação de mais de 50 projetos de instituições diferentes de nosso município. Além dos apresentadores, nos dois dias de apresentação foram recebidos mais de mil visitantes, de diversos municípios da região, demonstrando a capilaridade do projeto.
Democratização do acesso à ciência
O quarto eixo dedica-se à inclusão e à democratização do acesso à ciência, destacando-se o projeto Meninas na Tecnologia, voltado à formação de meninas, especialmente estudantes quilombolas e pertencentes a grupos socialmente vulnerabilizados, nas áreas de Ciências Exatas, Engenharias e Computação.
Esse projeto conta com apoio multiinstitucional, através de parceria com a UFPA, UFSC e Fiocruz, através da qual foi possível oferecer 20 bolsas de iniciação científica júnior a alunas da educação básica de São Raimundo Nonato.
Em 2025 o projeto Meninas na Tecnologia contava com 30 participantes, divididas em equipes de no máximo três integrantes. Em fevereiro de 2026 o projeto passou a contar com mais de 50 alunas envolvidas, além de 8 professores orientadores. A essas equipes foram oferecidas oficinas, palestras e aulas de robótica, programação, eletrônica básica, entre outros.
O projeto MUV - Ciência em Movimento também promove a interiorização da divulgação científica ao integrar diferentes municípios da microrregião da Serra da Capivara em uma rede colaborativa de educação científica, envolvendo instituições como IFPI, UNIVASF, UESPI, SBPC, FUMDHAM, ICMBio, EMBRAPA, FAPEPI e secretarias municipais e estadual de educação.
Destaca-se que todo o trabalho desenvolvido pelo MUV teve, além dos parceiros institucionais, o financiamento de Chamadas Públicas, provenientes de órgãos como Ministérios de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico(CNPq), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Ministério da Educação (MEC) e o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), Fundação de Amparo a Pesquisa do estado do Piauí (FAPEPI) e Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Como resultado, foram fortalecidas as ações de comunicação pública da ciência, a valorização dos saberes locais, a aproximação entre pesquisadores e sociedade e o desenvolvimento de projetos voltados à solução de problemas ambientais, sociais e econômicos do território.
Lucimara Lais Zachow não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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