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Como pontos de inflexão positivos na opinião pública podem ser a chave para a proteção das florestas tropicais

Não precisamos convencer todo mundo a fazer a coisa certa. Basta convencermos um número suficiente de pessoas para que o sistema mude na direção certa

10 jun 2026 - 08h31
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Muitos sistemas sociais, assim como os da natureza, têm pontos de inflexão, o que significa que não precisamos convencer todo mundo a fazer a coisa certa, mas um número suficiente de pessoas para fazer o sistema mudar na direção certa. Tarcisio Schnaider/Shutterstock
Muitos sistemas sociais, assim como os da natureza, têm pontos de inflexão, o que significa que não precisamos convencer todo mundo a fazer a coisa certa, mas um número suficiente de pessoas para fazer o sistema mudar na direção certa. Tarcisio Schnaider/Shutterstock
Foto: The Conversation

As florestas tropicais do mundo estão à beira do colapso. Mas saber como impedir o desmatamento não é suficiente para impulsionar ações concretas. O desafio consiste em alinhar todas as peças do quebra-cabeça para dar início a uma mudança substancial. Agora, nosso novo estudo sugere que a chave está em persuadir um número suficiente de pessoas para fazer com que o sistema mude na direção certa.

Em meados da década de 1980, a indústria britânica de casacos de peles entrou em colapso em menos de uma década. Lojas de varejo famosas fecharam seus departamentos de peles. A criação de animais para peles foi proibida em 2000. No final da década de 2010, mesmo as casas de moda cuja tradição se baseava no comércio de peles haviam abandonado o uso de peles, citando a opinião dos consumidores.

Essa mudança abrupta não ocorreu em razão de novas tecnologias ou de uma melhor regulamentação. Ela aconteceu devido a uma mudança nas normas sociais, desencadeada pela campanha publicitária cinematográfica Dumb Animals ("Animais Estúpidos", em tradução livre), do fotógrafo de moda britânico David Bailey. Esse curta-metragem mostrava uma modelo na passarela arrastando uma pele ensanguentada e trazia o slogan: "São necessários até 40 animais estúpidos para fazer um casaco de pele. Mas basta um para usá-lo". Antes cobiçados e luxuosos, os casacos de pele rapidamente se tornaram um tabu.

Infelizmente, uma mudança semelhante ainda não ocorreu na forma como as pessoas encaram a destruição das florestas tropicais.

Para desacelerar o desmatamento, os cientistas podem mapear e monitorar florestas a partir do espaço com a precisão de uma única árvore. Esquemas de certificação tornaram as cadeias de suprimentos mais transparentes e deram aos consumidores e reguladores uma base para agir. Garantir a posse da terra aos povos indígenas resulta nas menores taxas de desmatamento do planeta.

Mas, a cada ano, uma área da Amazônia do tamanho de um pequeno país europeu é derrubada ou queimada.

No Sudeste Asiático, as monoculturas de óleo de palma e celulose continuam a dizimar suas florestas tropicais. Na Bacia do Congo e na África Ocidental, a agricultura de pequena escala, a produção de carvão vegetal, o cacau, o café e a mineração estão gradualmente destruindo outra das áreas vitais do planeta para a biodiversidade e o armazenamento de carbono.

As florestas tropicais do mundo estão todas caminhando cada vez mais para uma mortandade catastrófica. Não se trata de uma questão de conhecimento. É um problema de como as sociedades mudam de opinião.

Pontos de inflexão

Quando ocorre uma mudança positiva, é fácil supor que isso aconteceu porque as evidências de que as coisas estão piorando se acumularam, o público foi informado, a opinião mudou, as políticas se adaptaram e, então, o comportamento e o consumo se ajustaram. Cada etapa é gradual e linear. O ponteiro gira lentamente.

Só que não é assim que mudanças importantes acontecem. Veja o caso do fumo em locais públicos, a aceitação do casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a velocidade com que os veículos elétricos estão se tornando comuns. Nada acontece por anos ou décadas, e então tudo acontece de uma vez.

Essa é a natureza dos pontos de inflexão: limites além dos quais um sistema se reorganiza abruptamente e se estabelece em um novo estado que se torna difícil de reverter.

Na Universidade de Exeter, pesquisamos o que faz com que tais mudanças — boas e ruins — aconteçam lentamente e depois de uma só vez, e como podemos desencadear mudanças positivas deliberadamente. Estamos explorando como encontrar pontos de inflexão que possam proteger positivamente as florestas tropicais em nossa próxima Conferência Climática de Exeter.

Muitos sistemas sociais, assim como os da natureza, têm pontos de inflexão. Eles podem resistir à mudança até certo ponto. Então, um empurrãozinho adicional relativamente pequeno — talvez um filme, uma decisão judicial, uma queda no preço de algo, uma massa crítica de novos adeptos — leva o sistema a um novo estado estável que é difícil de reverter.

Isso pode ser promissor, de uma forma que a mudança gradual não é, porque significa que não precisamos convencer todo mundo a fazer a coisa certa. Precisamos apenas convencer um número suficiente de pessoas para fazer o sistema mudar na direção certa.

O que a Amazônia nos ensina

Para as florestas tropicais, o exemplo mais estudado de uma intervenção deliberada para provocar um ponto de inflexão começou em 2006. Após uma denúncia do Greenpeace chamada Eating Up the Amazon ("Comendo a Amazônia", também em tradução livre), os maiores comerciantes de soja do mundo concordaram em não comprar de terras recém-desmatadas na Amazônia. A moratória da soja na região funcionou de forma dramática. O desmatamento direto impulsionado pela soja na Amazônia caiu de cerca de 30% da expansão das culturas para menos de 4%. Isso se tornou uma estratégia clássica para a proteção de florestas tropicais.

imagem de drone da exuberante floresta amazônica, rio correndo entre as árvores, céu azul
imagem de drone da exuberante floresta amazônica, rio correndo entre as árvores, céu azul
Foto: The Conversation
Uma moratória da soja entre os maiores comerciantes de soja do mundo ajudou a proteger a Floresta Amazônica.golaminnovation/Shutterstock

Mas embora a moratória tenha sido um sucesso dentro da Amazônia, a produção de soja se expandiu para outras regiões, incluindo o vizinho Cerrado, a vasta savana tropical do Brasil, impulsionando um rápido desmatamento na área. As comunidades rurais da Amazônia viram pouco da prosperidade que poderia ter feito da preservação da floresta a escolha econômica óbvia. A estrutura de incentivos subjacente — uma economia que ainda paga mais para desmatar terras do que para mantê-las intactas — nunca foi reformulada.

Vinte anos depois, esse frágil acordo está sob séria pressão. Grandes comercializadores de soja sinalizaram sua intenção de se retirar da moratória. E integrantes do Congresso brasileiro estão agindo para acabar com a moratória da soja de forma definitiva.

A pressão não vem de uma queda na preocupação dos consumidores. Cadeias de supermercados europeias, incluindo Lidl, Aldi e Tesco, reafirmaram seus compromissos. Mais de 70 organizações assinaram um manifesto defendendo a moratória.

A pressão vem de um lugar mais difícil de resolver: a China é agora o principal comprador de soja brasileira e não faz parte do acordo. A regulamentação da UE sobre desmatamento foi adiada e enfraquecida. Um novo acordo comercial da UE com o Mercosul (o bloco comercial sul-americano que reúne Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) deve ampliar as exportações brasileiras para a Europa. E o poderoso lobby do agronegócio brasileiro passou duas décadas trabalhando pacientemente para desmantelar a moratória por dentro.

Portanto, um compromisso da cadeia de suprimentos que abranja um mercado, mas não outro, acabará por apresentar brechas. Uma pressão dos consumidores que é real em Berlim, mas ausente em Xangai, acabará sendo contornada. Uma moratória que proteja uma floresta sem torná-la economicamente vantajosa para as pessoas que vivem nela será politicamente vulnerável. Cada mecanismo é apenas uma peça do quebra-cabeça.

Os três "As"

Ao olhar para o sistema como um todo, podemos entender como a preservação da floresta se torna a opção acessível, atraente e socialmente aceitável. Acessibilidade diz respeito às finanças e à cadeia de suprimentos. Atração diz respeito aos benefícios colaterais para todas as partes. Aceitabilidade envolve mudar a pressão cultural e política — sem isso, os outros dois se desgastam.

Podemos estudar, planejar e até mesmo deliberadamente criar pontos de inflexão sociais positivos quando projetamos soluções com uma perspectiva de sistemas como um todo. Para as florestas tropicais, isso inclui novas regras para a cadeia de suprimentos, liderança indígena e o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (Tropical Forest Forever Facility) (um novo fundo de investimento de bilhões de dólares para as florestas tropicais).

Um esforço conjunto e coordenado em todos os três aspectos transformará a proteção da floresta em pé na opção mais acessível, socialmente aceitável e atraente.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Tom Powell já recebeu financiamento da Fundação A.G. Leventis para pesquisas sobre desmatamento e restauração de florestas tropicais e colabora com a WWF-UK.

Steven R. Smith não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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