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Como os terremotos reordenaram a relação EUA-Venezuela

3 jul 2026 - 09h41
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Catástrofe altera rumo da estratégia com a qual governo Trump aspirava guiar o futuro político do país e torna mais difícil uma transição de poder organizada e gradual.Os terremotos de 24 de junho de 2026 alteraram as prioridades da relação entre os Estados Unidos e a Venezuela. O que até poucos dias era uma estratégia centrada na estabilização política e econômica do país, ficou em segundo plano devido à emergência humanitária causada pelos sismos.

Terremotos interromperam planos dos EUA para a recuperação da economia venezuelana
Terremotos interromperam planos dos EUA para a recuperação da economia venezuelana
Foto: DW / Deutsche Welle

Já havia dúvidas antes de 24 de junho sobre o plano do governo do presidente Donald Trump, que consistia em três fases: estabilização, recuperação e transição. Após a catástrofe, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, admitiu que a estratégia sofreu um revés. Por sua vez, o encarregado de negócios dos EUA na Venezuela, John Barrett, defendeu que o plano ainda está em vigor, embora "pareça um pouco diferente".

Mudança obrigatória de agenda

"Os terremotos interromperam esse plano ao gerarem uma das piores catástrofes naturais que a Venezuela sofreu em mais de um século", diz Carolina Jiménez Sandoval, presidente do Escritório de Washington para Assuntos Latino-Americanos (Wola), à DW. Para ela, os terremotos rompem o caminho traçado por Washington e tornam muito mais difícil uma transição política organizada e gradual.

Phil Gunson, analista sênior para a região andina do International Crisis Group, concorda que o plano está, por enquanto, suspenso. "Todos os esforços do governo e da sociedade civil devem ser focados numa reconstrução que obviamente levará anos", disse Gunson à DW. Ele lembrou que, antes dos terremotos, o plano também não avançava sem contratempos: "Havia dúvidas, críticas, atrasos, muita falta de informação sobre os progressos, principalmente em questões políticas".

Estados Unidos e o "51º estado"

Por outro lado, a tragédia também reabre a questão do grau de influência que Washington exerce sobre a Venezuela, num contexto em que Donald Trump chegou a insinuar que o país poderia tornar-se o 51º estado dos Estados Unidos.

"Não sabemos até que ponto isto é uma piada", disse Gunson. "Mas se for esse o caso, a maior responsabilidade recai sobre os EUA em matéria de resgate e reconstrução". Na sua relação com a Venezuela, Washington é quem escolhe os interlocutores e horários, segundo o especialista.

Phil Gunson lembrou ainda que, antes da catástrofe, a líder política exilada Dinorah Figuera, presidente da Assembleia Nacional Venezuelana [liderada pela oposição e que reivindica legitimidade em paralelo ao Parlamento controlado pelo governo] eleita em 2015, viajou por iniciativa dos Estados Unidos para se encontrar com Delcy Rodríguez e discutir as condições de futuras eleições. "As discussões são determinadas por Washington: o que fazer, quando negociar e quem se senta para negociar", enfatizou Gunson.

A Casa Branca apoiou desde o início o governo interino de Rodríguez, mas esse apoio pode se tornar problemático à medida que se intensificam as críticas dos cidadãos sobre a resposta controversa do Executivo aos terremotos. "A rejeição dos venezuelanos pode se traduzir numa maior exigência subsequente de mudança política. Isso ecoará em Washington", alertou Jiménez Sandoval.

Problemas econômicos se agravam

Na frente econômica, o desafio é enorme. Os terremotos exacerbaram uma crise humanitária que já dura mais de uma década. A esse cenário somam-se os enormes custos da reconstrução.

Washington prometeu cerca de 300 milhões de dólares (R$ 1,5 bilhão) para esforços de ajuda emergencial, um valor insuficiente, dada a magnitude das necessidades. "O dinheiro oferecido pelos Estados Unidos está muito aquém das necessidades econômicas que existiam antes do desastre", afirmou Gunson, destacando que a Venezuela já vivenciava o que especialistas classificam como uma "emergência humanitária complexa" antes dos terremotos, com serviços públicos em colapso, infraestrutura deteriorada e grave escassez de serviços de saúde e de alimentos.

Nos últimos seis meses, e após a detenção do ex-presidente Nicolás Maduro pelos EUA, a Venezuela aumentou suas vendas de petróleo. Gunson, no entanto, enfatizou que Washington controla essas transações e deposita os recursos em uma conta administrada pelo governo dos EUA, que decide quanto dinheiro enviar para a Venezuela e quando. "Não se sabe quanto há nessa conta ou quanto dinheiro foi enviado", explicou ele à DW, observando que os democratas no Congresso americano vêm exigindo transparência há meses, sem obter resposta. Além disso, surge a questão de quanto desse dinheiro realmente chega ao povo venezuelano.

Por fim, Gunson menciona o regime de sanções imposto à Venezuela pelos Estados Unidos, que ele descreve como "quase o mais forte do mundo", e questiona por que essas medidas não estão sendo suspensas.

O inconveniente retorno de Corina Machado

O terremoto também interrompeu os planos da figura mais proeminente da oposição venezuelana, María Corina Machado. Em mensagem de vídeo, ela expressou o desejo de retornar ao país para estar com a população afetada, mas afirmou que o governo a impede de fazê-lo, mantendo o espaço aéreo fechado.

Sobre esse assunto, Washington foi clara em sua resposta: o governo Trump declarou que seu foco está totalmente na reação humanitária e acredita que introduzir questões políticas neste momento seria contraproducente.

Gunson também questionou o momento escolhido pela líder da oposição. Ele disse que a relação entre Machado e Washington está "seriamente prejudicada, com culpa de ambos os lados", e admite ter dúvidas sobre a sensatez de seu retorno à Venezuela neste momento, dada a discrepância entre os objetivos de Machado e o que os Estados Unidos consideram prioritário.

"Este não é o momento de introduzir um elemento de discórdia em uma situação já trágica", argumenta Gunson, acrescentando que Machado "faria melhor em mobilizar e coordenar ajuda externa do que permanecer na Venezuela", um país cujo governo a considera uma terrorista e onde o bem-estar da população deveria ser a única prioridade.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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