Como o desmatamento reorganiza - para pior - a cadeia alimentar dos igarapés da Amazônia
Estudo mostra que a remoção da vegetação ciliar, nas margens dos rios e igarapés, ocorre uma mudança clara na base alimentar desses ecossistemas
Quando falamos em desmatamento na Amazônia, quase sempre pensamos na paisagem terrestre: grandes árvores derrubadas, expansão agropecuária, incêndios e perda de biodiversidade. Mas boa parte dos impactos do desmatamento ocorre fora do campo de visão. Eles acontecem dentro da água.
A Amazônia abriga milhares de igarapés — pequenos cursos d'água que drenam a floresta e alimentam rios maiores. Esses ambientes sustentam alta diversidade de insetos, peixes e microrganismos. Também desempenham papel central na manutenção da qualidade da água e na ciclagem de nutrientes, que é o transporte de matéria orgânica e nutrientes (por exemplo, nitrogênio, fósforo, potássio) da floresta para o meio aquático.
Diferentemente de grandes rios, a maioria dos igarapés amazônicos são fortemente dependentes da floresta ao seu redor. A copa das árvores reduz a entrada de luz solar. Por isso, a produção de algas dentro da água é limitada.
A principal fonte de energia desses ecossistemas vem de fora. Folhas, galhos e outros materiais orgânicos caem na água e formam a base da cadeia alimentar. Esse material é colonizado por microrganismos e consumido por insetos aquáticos. Esses insetos, por sua vez, alimentam predadores, como insetos maiores e peixes. A floresta, portanto, sustenta diretamente a vida dentro do igarapé.
Mas o que acontece quando essa floresta é removida? Foi essa a pergunta que orientou nosso estudo, publicado na revista Freshwater Biology.
Menos floresta, menos alimento
Ao comparar igarapés preservados com igarapés em áreas desmatadas, observamos uma mudança clara na base alimentar do sistema.
A retirada da vegetação ciliar reduz a entrada de folhas e matéria orgânica nos corpos d'água. Com menos recurso disponível, os insetos que dependem da decomposição desse material para sobreviver tornam-se menos abundantes.
Em seu lugar, aumentam organismos associados a ambientes mais abertos e com maior incidência de luz. A cadeia alimentar passa a depender mais de produção primária interna do que de insumos da floresta. Essa mudança pode parecer sutil. Mas ela reorganiza toda a estrutura trófica - que é a organização alimentar de um ecossistema e que define a transferência de energia e nutrientes entre os organismos produtores, consumidores e decompositores.
Com a redução na abundância de insetos associados a matéria orgânica, predadores passam a consumir presas diferentes. A diversidade funcional se altera. A rede alimentar tende a se simplificar. Redes mais simples costumam ser menos resilientes a novas perturbações. Secas mais intensas, aumento de temperatura ou poluição podem gerar impactos mais fortes em sistemas já empobrecidos estruturalmente.
Um problema que continua atual
Os dados mais recentes de uso e cobertura da terra no Brasil mostram que o desmatamento segue transformando paisagens amazônicas. Informações do projeto MapBiomas indicam a expansão de áreas convertidas para agropecuária nas últimas décadas. Enquanto algumas regiões na Amazônia seguem relativamente menos desmatadas, outras áreas já apresentam menos de 30% de sua cobertura florestal original.
Grande parte dessa conversão ocorre próxima a cursos d'água. Embora a legislação brasileira determine a manutenção de faixas de vegetação ao redor de rios e igarapés, a implementação nem sempre é efetiva. Em muitos casos, a vegetação ciliar é reduzida ou eliminada.
Mas essa remoção não é apenas uma alteração visual na paisagem. Nosso estudo mostra que ela compromete processos ecológicos fundamentais. A vegetação ciliar regula a entrada de matéria orgânica, controla a temperatura da água, estabiliza margens e reduz o carreamento de sedimentos. Ela funciona como zona de amortecimento entre atividades humanas e o ecossistema aquático. Ignorar essas funções significa comprometer a toda a integridade do sistema.
Manejo baseado em evidências
Os resultados do nosso estudo comprovam que a conservação de matas ciliares deve ser tratada como prioridade em políticas públicas e estratégias de manejo. Não se trata apenas de cumprir uma exigência legal. Trata-se de manter o funcionamento ecológico dos igarapés. Programas de restauração florestal precisam considerar a largura e a qualidade da vegetação ciliar. A simples presença de uma faixa estreita de árvores pode não ser suficiente para restabelecer processos ecológicos complexos.
Além disso, estratégias de uso do solo devem integrar a dimensão aquática. Muitas vezes, o planejamento territorial foca apenas na produção agrícola ou na cobertura terrestre, sem considerar impactos hidrológicos e ecológicos. Os igarapés conectam paisagens. Eles transportam matéria, energia e organismos. Alterações locais podem se propagar para sistemas maiores.
O que está em jogo
A Amazônia é frequentemente discutida em termos de carbono, clima e biodiversidade terrestre. Esses temas são centrais. Mas os ecossistemas aquáticos também merecem atenção. Mudanças na base da cadeia alimentar podem afetar comunidades de peixes e a disponibilidade de recursos para populações humanas. Podem alterar a decomposição de matéria orgânica e a dinâmica de nutrientes.
São processos menos visíveis, mas essenciais. Proteger a vegetação ciliar é uma medida concreta e baseada em evidências para reduzir impactos do desmatamento sobre sistemas aquáticos.
A floresta não sustenta apenas o que está acima do solo. Ela também alimenta o que corre dentro da água. Reconhecer essa conexão é um passo importante para um manejo mais integrado e sustentável da Amazônia.
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