Como caso Epstein levou Andrew à desgraça de 1999 até hoje
Expulso da monarquia britânica, filho da rainha Elizabeth teria integrado rede de crimes sexuais. Com escândalos consecutivos ao longo de anos, ele se tornou o primeiro detido da família nesta semana.O ex-príncipe Andrew Mountbatten Windsor está no centro do caso Epstein, tendo se tornado na quinta-feira (19/02) o primeiro membro da família real britânica a ser preso na modernidade.
Na esteira de anos de acusações de crimes sexuais, a pressão sobre o irmão do Rei Charles 3° se aprofundou no início deste mês, quando veio à tona que ele teria fornecido ao magnata americano Jeffrey Epstein documentos sensíveis do governo britânico.
Mas as primeiras revelações sobre o suposto abuso de menores cometido por Andrew, que é o terceiro filho da Rainha Elizabeth, emergiram há pouco mais de uma década. Desde então, o seu envolvimento com a rede de tráfico e abuso sexual dirigida por Epstein foi tema do noticiário global diversas vezes.
A progressiva perda de prestígio e títulos culminaria na sua expulsão da família real. Hoje, Andrew enfrenta suspeitas de ter mentido publicamente nos últimos anos, se envolvido em crimes sexuais contra menores ao longo de anos e de ter se engajado em má conduta em cargo público.
Ele nega as acusações, e uma investigação policial está em curso. Abaixo uma cronologia dos principais fatos conhecidos sobre os laços de Andrew com Epstein e a suposta rede de tráfico sexual que operou impunemente ao longo de vários anos.
1999 e 2000: estreitando laços
Andrew teria conhecido Epstein em 1999 por meio de Ghislaine Maxwell, filha de Robert Maxwell, um magnata de mídia cuja vida foi recheada de controvérsias. Maxwell e Epstein eram um casal à época.
Eles desfrutavam de uma vida luxuosa, na qual ela supostamente aliciava menores de idade para a rede de tráfico e abuso sexual comandada pelo parceiro. Tanto Epstein quanto outros membros desta rede teriam mantido relações sexuais com as vítimas.
Atribuída àquele ano, uma foto de Epstein e Maxwell na residência de Balmoral, na Escócia, foi apresentada à Justiça dos Estados Unidos. O casal teria sido convidado para se hospedar no imóvel por Andrew.
Além disso, Epstein e Maxwell teriam frequentado pelo menos uma festa no Castelo de Windsor no ano 2000. A anfitriã oficial era a rainha Elizabeth, e Andrew teria organizado um fim de semana de comemorações para o aniversário de Maxwell.
2000 a 2001: acusações de abuso sexual
Foi também em 2000 que Maxwell teria conhecido Virginia Giuffre, que completava o 17º aniversário naquele ano. Ela denunciaria mais tarde ter sido aliciada por Maxwell, sob o pretexto de uma oportunidade de trabalho como massagista para Epstein.
Segundo Giuffre, Maxwell se aproximou dela no resort de Mar-a-Lago, na Flórida, de propriedade do atual presidente dos EUA, Donald Trump. A jovem então trabalhava no local sob o seu sobrenome de nascença, Roberts. Também Trump é citado nas investigações em curso hoje.
Uma vez apresentada a Epstein, ela teria sido coagida a manter relações sexuais com ele e seus conhecidos. Uma foto atribuída a este período mostra uma jovem Giuffre ao lado de Andrew e Maxwell.
Por anos, Giuffre relatou ter sido mantida como "escrava sexual" de Epstein, viajando com ele ao redor do mundo para encontros sexuais com terceiros em troca de pagamentos.
Andrew teria sido um dos envolvidos, entre políticos, empresários e outras figuras poderosas. De acordo com ela, os abusos por Andrew aconteceram três vezes em 2001, antes do seu aniversário de 18 anos, em Londres e Nova York.
2010 a 2015: primeiras evidências
Na mira das autoridades americanas desde 2005 pelos supostos crimes sexuais, Epstein foi preso pela primeira vez já nos anos 2000, antes de fechar acordos para sair da prisão.
Em 2010, depois que Epstein havia confessado o crime de prostituição de menores, Andrew o visitou em Nova York. Eles foram flagrados caminhando juntos no Central Park.
Há indícios de que Andrew chegou ainda a convidar Epstein em 2010 para visitá-lo no Palácio de Buckingham, sede da família britânica. A proposta teria sido feita um mês depois de Epstein apresentar Andrew a uma mulher russa de 26 anos, que o britânico disse que "adoraria" encontrar.
Questionado mais tarde sobre a amizade, Andrew diria que não sabia dos crimes de Epstein e que o via "não mais do que uma ou duas vezes por ano".
Em 2011, Giuffre afirmaria em depoimento que Andrew "sabia da verdade" sobre os abusos contra menores de idade, pedindo que ele fosse intimado para prestar depoimento.
Neste mesmo ano, vazou a antiga fotografia de Andrew ao lado de Giuffre, atribuída ao início dos anos 2000, na qual ele tem o braço ao redor da sua cintura. Após o vazamento, Andrew escreveu um email para Epstein dizendo que "nós estamos juntos nessa", conforme viria à tona em 2025.
Documentos anexados em 30 de dezembro de 2014 a um processo judicial correndo no estado da Flórida, nos EUA, fizeram emergir as afirmações de Giuffre contra Andrew. Em poucos dias, o Palácio de Buckingham negaria as alegações, quebrando a sua convenção de não comentar acusações contra membros da família real.
2019: retirada da vida pública
O envolvimento de Andrew no escândalo voltaria à tona quando Epstein foi preso sob a acusação tráfico sexual de menores e conspiração para cometer o mesmo crime. Um mês depois, em agosto, o magnata morreu na prisão, supostamente por suicídio.
Em setembro, Giuffre daria a sua primeira entrevista televisionada, para a rede NBC. Ela chamou Andrew de "abusador" e "participante" na rede de exploração sexual de Epstein.
"A primeira vez, em Londres, eu era tão jovem. Ghislaine me acordou de manhã e disse: 'Você vai conhecer um príncipe hoje.' Eu não sabia àquela altura que eu seria traficada para aquele príncipe. Ele (Andrew) nega que tenha acontecido. E ele vai continuar negando. Mas ele sabe a verdade. E eu sei a verdade", disse Giuffre à NBC.
Sob pressão, o então príncipe deu uma entrevista incomum para a BBC. Ele negou ter tido contato sexual com Giuffre, afirmando não se lembrar de tê-la jamais conhecido.
Negando que tivesse uma profunda amizade com Epstein, o então príncipe disse ter se hospedado em várias das suas residências. "Em nenhum momento do tempo limitado que passei com ele eu vi, testemunhei ou suspeitei de qualquer comportamento que levaria à sua prisão e condenação", ele afirmou.
O príncipe disse ainda que o encontro no Central Park de 2010 foi o seu último contato com Epstein. Um vazamento quase dez anos depois, entretanto, indicaria que a afirmação era inverídica.
A entrevista de 2019 se provaria um tiro pela culatra para Andrew, fazendo aumentarem as críticas pela sua relação com Epstein. O então príncipe se afastaria dos deveres reais, ou seja, deixaria de representar publicamente a monarquia, mesmo sem formalmente perder o título.
Ele justificou a decisão afirmando que o caso Epstein havia se tornado uma grande perturbação para a família real. O seu afastamento teve a "aprovação" da rainha Elizabeth, sua mãe, segundo comunicado oficial.
2021 e 2022: briga na Justiça
Giuffre moveria em 2021 um processo judicial contra Andrew nos Estados Unidos. O então príncipe fracassaria numa tentativa de arquivá-lo em janeiro do ano seguinte.
Um dia mais tarde, a rainha Elizabeth retiraria do filho uma série de posições militares e o título de Sua Alteza Real, que ele obtivera de nascença. Um grupo de 150 veteranos militares havia solicitado à rainha que tomasse a decisão, descrevendo indignação e raiva numa carta aberta.
Os dias e semanas posteriores, as primeiras de 2022, seriam marcadas por uma série de desenvolvimentos ligados ao processo judicial contra Andrew.
Os advogados do príncipe, cada vez mais isolado, questionaram as memórias de Giuffre e conseguiram fechar um acordo com a acusação. Andrew reconheceu que ela fora vítima de abuso sexual e se comprometeu a fazer uma doação para caridade.
Maxwell seria condenada, também em 2022, por recrutar e traficar menores de idade para abuso sexual pela rede de Epstein. Ela cumpre sentença de 20 anos de prisão por tráfico sexual no estado do Texas, nos EUA.
2025 e 2026: expulsão e detenção
A pressão sobre Andrew chegaria ao ápice no segundo semestre de 2025.
Primeiro, em agosto, uma biografia publicada sobre ele no Reino Unido afirmaria que ele conheceu Epstein pelo menos uma década antes de 1999 - ano em que Andrew relatara ter sido apresentado ao magnata americano.
O livro reportava ainda que conteúdo comprometedor sobre ele havia parado nas mãos de serviços de inteligência estrangeiros.
Depois, em setembro, um e-mail vazado pela imprensa britânica apontava que, ao contrário do que Andrew dissera em 2019, ele manteve contato com Epstein depois de 2010.
Após a divulgação da foto de Andrew com Giuffre, o britânico teria escrito ao americano: "Eu estou igualmente preocupado por você! Não se preocupe comigo! Parece que estamos nisso juntos e teremos que superar isso. Caso contrário, mantenha contato e vamos jogar mais um pouco em breve!!!!"
O novo capítulo do escândalo seria o bastante para que o rei Charles 3º retirasse do irmão as últimas prerrogativas reais, incluindo o título de membro da realeza. Ele foi também expulso da sua residência real, numa tentativa de evitar novos danos à reputação da família.
"Ele foi formalmente notificado de que deve renunciar ao contrato de aluguel e se mudará para outra acomodação privada", informou a Casa Real Britânica.
Já destituído do cargo de príncipe, Andrew receberia o golpe de misericórdia em dezembro de 2025, quando o Departamento de Justiça dos EUA divulgou os arquivos ligados ao caso Epstein. Foram revelados novos indícios de crimes sexuais por Andrew, incluindo três fotos dele de quatro, com o corpo sobre uma mulher de aparência jovem deitada no chão.
A papelada indicou ainda que ele pode ter repassado documentos confidenciais a Epstein. Os relatórios teriam como tema o Vietnã, Singapura e outros lugares que ele havia visitado em viagens oficiais como representante especial do governo para Comércio e Investimento.
Em 2025, morreu ainda Giuffre. Segundo a sua família, ela tirou a própria vida na sua casa na Austrália. Um livro póstumo de memórias foi publicado em seu nome.
No seu aniversário de 66 anos, em fevereiro de 2026, Andrew ficou detido por cerca de 11 horas, sob suspeita de má conduta em cargo público.
Ele foi liberado sob investigação, segundo a polícia. Houve buscas na sua casa atual e no seu antigo endereço real.
O rei Charles 3° disse ter recebido a notícia "com profunda preocupação" e que as autoridades contariam com "apoio e a cooperação total e incondicional" da família.
Personalidades e famosos de todo o mundo estão nos documentos do caso Epstein. Embora os autos do inquérito sobre o caso tenham sido divulgados, ainda não é possível avaliar o grau de envolvimento de cada um dos nomes mencionados nos arquivos sobre o escândalo de abuso sexual e se outros crimes ainda virão à tona.
ht/md (ots)