Com 12 bilhões de anos, cometa interestelar é mais antigo que o Sistema Solar
Um processo chamado "combustão de fundo quente", que converte carbono-12 (o isótopo mais comum do elemento) em carbono-13 ajudou os cientistas a determinar a idade do 3I/ATLAS
Há cerca de um ano, em 1º de julho de 2025, astrônomos observaram um novo e fascinante objeto se movendo pelo Sistema Solar. Detectado pelo Asteroid Terrestrial-impact Last Alert System ("Sistema de Alerta de Último Momento sobre Impactos de Asteroides na Terra") (ATLAS, na sigla em inglês), o objeto foi rapidamente reconhecido como algo especial.
Passando pelo Sistema Solar a uma velocidade recorde, o cometa, conhecido como 3I/ATLAS, é apenas o terceiro objeto interestelar já detectado. Formado em torno de outra estrela, foi um visitante fugaz que agora está saindo do Sistema Solar a mais de 60 quilômetros por segundo, para nunca mais voltar.
A descoberta ganhou destaque em todo o mundo - com alegações bizarras de que poderia ser uma nave alienígena, desviando a atenção das verdadeiras maravilhas do objeto.
Em um novo artigo publicado na revista científica Nature, uma equipe de cientistas liderada por Martin Cordiner, do Centro de Vôos Espaciais Goddard da Nasa, lançou nova luz sobre a origem do cometa. Seus resultados revelam que se trata de um verdadeiro fóssil galáctico, muito mais antigo que o Sistema Solar.
O 3I/ATLAS foi um visitante passageiro em nosso Sistema Solar.D. RankinO que são objetos interestelares?
Sistemas planetários são lugares caóticos. Além dos planetas que conhecemos e amamos, eles contêm um grande número de objetos menores - detritos deixados para trás pela formação desses sistemas.
Grande parte desses detritos se move em órbitas caóticas e instáveis. Como resultado, o Sistema Solar está continuamente lançando pequenos corpos para o espaço interestelar. Cometas e asteroides são atraídos pela influência gravitacional dos planetas e, frequentemente, ejetados. Eles passam a vagar pela galáxia, flutuando pelo espaço entre as estrelas.
Há muito se acredita que se os sistemas planetários são comuns no Cosmos, esses sistemas se comportariam como o nosso. Consequentemente, o espaço entre as estrelas deveria estar repleto de uma vasta população de objetos rochosos e gelados - os detritos de sistemas tanto antigos quanto novos.
A esmagadora maioria dos objetos interestelares nunca chegará perto de outra estrela. Mas, com tantos objetos lá fora, é inevitável que alguns passem pelo interior do Sistema Solar, aproximando-se o suficiente para que possamos observá-los e estudá-los.
Os três objetos interestelares encontrados até agora - 1I/'Oumuamua, 2I/Borisov e 3I/ATLAS - são os primeiros exemplares dessa população que conseguimos detectar. Esses objetos vêm passando por aqui desde o nascimento do Sistema Solar. Mas foi apenas na última década que nossa tecnologia avançou a ponto de podermos observá-los.
O 3I/ATLAS foi detectado em 1º de julho de 2025 pelo telescópio de levantamento ATLAS, financiado pela Nasa, no Chile.ATLAS/Universidade do Havaí/NASAUm cometa antigo em alta velocidade
Os astrônomos rapidamente determinaram que o 3I/ATLAS se movia a uma velocidade incrível. Em seu ponto mais próximo do Sol, ele viajava a mais de 68 km por segundo. Mesmo antes de sentir a atração gravitacional do Sol, já se movia a mais de 58 km/s.
Essa foi a primeira indicação de que o cometa poderia ser algo especial.
Com base apenas em sua órbita ao redor da nossa galáxia, os astrônomos logo perceberam que o 3I/ATLAS era potencialmente mais antigo que o Sistema Solar. Muito provavelmente, ele havia sido ejetado de uma estrela que se movia no "disco espesso" da Via Láctea, uma população de estrelas antigas que se formaram muito antes do Sol.
Mas seria possível confirmar essa hipótese?
A química de um objeto nascido ao redor de outra estrela
O novo artigo na revista Nature baseia-se em observações do 3I/ATLAS realizadas com o Telescópio Espacial James Webb e o Atacama Compact Array, analisando o cometa em comprimentos de onda infravermelhos e de micro-ondas.
Essas observações permitiram aos cientistas estudar os gases emitidos pelo cometa ao passar próximo ao Sol. Elas revelaram que as moléculas de carbono emitidas pelo cometa continham muito menos carbono-13 (um isótopo pesado do carbono) do que o observado em objetos semelhantes no Sistema Solar. Isótopos são diferentes formas do mesmo elemento, com números idênticos de elétrons e prótons, mas números diferentes de nêutrons.
Isso sugere que o cometa deve ser extremamente antigo. Por quê? A resposta se resume à maneira como o material em nossa galáxia é processado no interior das estrelas.
Quase todo o carbono da Via Láctea é produzido por estrelas mais maciças que o Sol. Quando essas estrelas morrem, o carbono que elas produzem por meio da fusão nuclear é devolvido ao Cosmos para ser incorporado à próxima geração de estrelas e planetas.
Mas há uma reviravolta. À medida que as estrelas criam carbono em seus interiores, elas também convertem o carbono-12 (o isótopo mais comum) em carbono-13, por meio de um processo chamado "combustão de fundo quente". Com o passar do tempo, a fração de todo o carbono da galáxia que é carbono-13 está aumentando.
Para conter uma abundância tão baixa de carbono-13, o 3I/ATLAS deve ter se formado em uma época em que havia menos carbono-13 em comparação com o carbono-12 - há cerca de 12 bilhões de anos, durante os estágios mais iniciais da história da nossa galáxia.
O Telescópio Espacial James Webb da Nasa observou o cometa interestelar 3I/ATLAS em comprimentos de onda infravermelhos.NASA/Telescópio Espacial James WebbO melhor ainda está por vir
Cada um dos três visitantes interestelares que vimos até agora tem sido único. Mas e quanto ao futuro?
O Observatório Vera Rubin, localizado no topo de uma montanha no norte do Chile, tem a maior câmera já construída acoplada a um telescópio que funciona, na prática, como uma lente grande-angular incrivelmente rápida.
Isso o torna uma instalação ideal para detectar objetos interestelares à medida que eles atravessam o Sistema Solar. Os astrônomos preveem que o observatório poderá detectar dezenas de objetos interestelares na próxima década.
Ele detectará objetos que, de outra forma, passaríamos despercebidos, e os detectará mais cedo do que seria possível de outra maneira.
Ao detectar mais desses objetos, começaremos a poder observá-los como uma população, em vez de indivíduos, o que lançará luz sobre a história da formação de estrelas e planetas em nossa galáxia.
Jonti Horner não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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