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Com 10 anos de mercado, o Nissan Kicks segura a onda contra chineses? Veja o veredito

SUV veterano enfrenta concorrentes novatos mais tecnológicos, mas mantém qualidades que continuam relevantes no uso diário

9 out 2026 - 10h46
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Resumo
Ao completar dez anos no Brasil, o Nissan Kicks mantém sua relevância por ser um SUV compacto prático, confortável e seguro para o uso diário, com boa dirigibilidade e consumo eficiente. No entanto, o modelo perdeu espaço no ranking de vendas para concorrentes consolidados e novas marcas chinesas mais tecnológicas. Custando entre R$ 159.990 e R$ 189.990, ele já não lidera em preço ou equipamentos, mas continua sendo uma opção racional para quem busca previsibilidade e facilidade ao dirigir.

O mundo do jornalismo automotivo oferece experiências, digamos, interessantes. Eu, que atuo há 15 anos na área de comunicação, mas apenas alguns meses no mundo dos carros, ainda vivo o brilho nos olhos de poder dirigir exemplares que meu bolso não me permitiria contemplar.

Na mesma toada, te digo que o jornalismo automotivo também pode, como qualquer profissão, cair no marasmo. Nossa função aqui não é dirigir pelo puro prazer, mas pensar em você, sim, você mesmo, que me lê agora. Para isso, o pensamento não gira em torno do quão "legal" o carro possa ser, mas o quão útil, prático e viável e... emocional o veículo é. E, às vezes, essa emoção não vem do volante, mas do banco do passageiro.

Como anda o Nissan Kicks?

Em agosto de 2026 o Kicks completou 10 anos no Brasil com quase 450 mil unidades vendidas por aqui. No mundo, a história é ainda maior. Desde o lançamento, mais de 1,8 milhão de unidades já foram produzidas para mais de 70 países.

Com o perdão do trocadilho, não dá pra dizer que ele foi apenas um chute de sorte. Lançado com toda pompa e circunstância durante as Olimpíadas do Rio 2016, o veículo era a grande aposta da Nissan e se mostrou muito eficiente durante anos. Mas não dá pra dizer que vivemos no mesmo Brasil.

Se antes um SUV compacto era novidade, hoje temos uma enxurrada de modelos dessa categoria no mercado. Entre eles estão alguns elétricos chineses que vêm ganhando cada vez mais destaque e os corações brasileiros. O segmento é o principal alvo das novas montadoras.

Ainda assim, o Kicks guarda sua relevância por ser um veículo do jeito que deve ser: prático e útil. Algumas firulas? Sim. Alguns alarmes escandalosos e incômodos? Também. O que não tira dele o título de "carro que dá vontade de dirigir".

A frase foi dita pelo meu companheiro, que está em processo para tirar a habilitação, e vou deixar que ele explique seus porquês: "É um carro que se encaixa no que espero: é confortável e me passa a sensação de segurança. Sinto que nele parece ser gostoso dirigir, ao mesmo tempo que ele é firme, prático, objetivo."

Firmeza adequada

Comecemos justamente pela parte que mais despertou essa vontade de dirigir.

O Kicks não tenta parecer um carro esportivo. A direção é leve, mas não passa aquela sensação de que o carro está solto demais. Há uma firmeza que aparece principalmente em velocidades mais altas e nas mudanças de faixa.

A suspensão também ajuda. Ela filtra bem as irregularidades do asfalto sem transformar o carro em uma espécie de barco. É confortável, mas não molenga. Essa combinação faz diferença porque transmite uma sensação de controle sem exigir intimidade imediata com o carro.

Os sistemas de auxílio à condução também entram nessa conta. Câmeras, sensores e alertas ajudam nas manobras e no trânsito mais apertado. Alguns deles, é verdade, têm - entusiasmo - demais. O Kicks parece acreditar que qualquer aproximação de um objeto é motivo suficiente para um pequeno escândalo.

Mas é melhor um carro que avisa demais do que descobrir em cima da hora que havia alguma coisa ali.

Prático

A central multimídia não tenta reinventar a roda. Ela cumpre seu papel, permite acessar as funções necessárias e, principalmente, não exige um curso intensivo para descobrir onde está cada coisa.

Contudo, deixo uma reclamação para o tribunal de minúsculas causas: não tem entrada USB padrão, apenas USB-C. Não chega a ser um pênalti, mas eu não consegui carregar o meu celular sem ter que comprar mais um cabo.

As câmeras também são daqueles itens que parecem dispensáveis até você precisar delas. Em uma vaga apertada, em uma garagem desconhecida ou simplesmente naquele momento em que você não quer descobrir pelo barulho se calculou corretamente a distância do meio-fio, elas ajudam bastante.

O espaço interno segue a mesma lógica. Não é um carro feito para impressionar com números absurdos, mas entrega o que se espera de um SUV compacto para uso cotidiano. Eu com 1,65m e meu parceiro com 1,70m, não tivemos problemas - nem no banco de condução, nem no passageiro e nem nos bancos traseiros. Pessoas mais altas, porém, podem ficar com aquele joelho desconfortável em longas viagens atrás.

Objetivo

O Kicks também não precisa fazer malabarismo para convencer pelo consumo. Fiz 13 km/l com ele andando em rodovias e 10 km/l na cidade.

No modo de condução "Eco", o carro gasta menos e entrega menos, como esperado. Durante os sete dias de convivência, o carro mostrou que sua proposta continua bastante racional para quem procura um SUV para o dia a dia.

Kicks leva um chute dos concorrentes?

Desculpa, o trocadilho é tão horrível quanto inevitável.

Segundo a Fenabrave, a liderança no segmento de SUVs compactos é do Hyundai Creta, com mais de 34 mil vendas até o momento, mirando apenas o varejo. A vice-liderança está nas mãos, ou nas rodas, do Chevrolet Tracker, com mais de 28 mil vendas. Quem completa o pódio é o Volkswagen T-Cross.

O Kicks aparece bem mais atrás. No acumulado de janeiro a agosto de 2026, foram 22.473 unidades emplacadas, colocando o modelo em 17º lugar no ranking geral de SUVs. Em agosto, foram 2.676 unidades.

Vender menos não significa necessariamente ser um carro ruim. Mas os números mostram que o Kicks está enfrentando uma disputa bem diferente daquela de quando chegou ao Brasil.

Há alguns anos, oferecer um SUV compacto com bom espaço, conforto e uma lista razoável de equipamentos já era suficiente para chamar atenção. Hoje, há uma quantidade enorme de opções e, principalmente, marcas novas colocando cada vez mais tecnologia nos carros.

E aí chegamos ao preço. A linha 2027 do Kicks parte de R$ 159.990 e chega a R$ 189.990 na versão Platinum. A Nissan reduziu os preços em até R$ 10 mil, mas o valor ainda coloca o modelo em uma faixa bastante disputada.

É muito dinheiro. E, nessa faixa, quem está com a grana na mão começa a comparar tudo, o que pode não ser tão favorável pro avaliado aqui.

Há ainda outro detalhe. A Nissan mantém o Kait, baseado na geração anterior batizada de Kicks Play, convivendo com o novo Kicks. Não deixa de serem dois SUVs compactos disputando espaço dentro da própria marca.

Tudo isso ajuda a explicar por que um carro que me pareceu tão agradável não aparece entre os grandes protagonistas do segmento.

O Kicks não é o SUV que vai necessariamente ganhar a disputa pela quantidade de equipamentos ou pelo preço mais agressivo. Também não é aquele carro que chega com uma tecnologia capaz de fazer você esquecer tudo o que dirigiu antes.

Mas ele é confortável. É previsível. É fácil de conduzir. Tem bons sistemas de auxílio e entrega uma experiência que, depois de alguns dias, me fez entender a frase que ouvi no primeiro dia: "Esse carro me fez ter vontade de dirigir."

E, antes que você me xingue nos comentários, saiba que não, não estou dizendo que o Kicks é um bom carro para quem acabou de tirar a CNH. Na verdade, não acredito que um veículo de mais de R$ 100 mil seja uma boa pedida para quem ainda vai aprender a enfrentar as intempéries do trânsito e ter que arcar com os custos dos quase inevitáveis raladinhos do dia a dia.

Se esse for o seu caso, direi à você o que disse ao meu companheiro: "melhor não, meu amor.".

Estadão
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