COLUNA | O círculo vicioso da burocracia e do jeitinho brasileiro (ou vice-versa)
No fim, quem sabe, vamos seguir engolindo nossa própria cauda até que não sobre mais nenhum pedaço a ser devorado
Lembro bem de quando um professor do Ensino Médio disse que o Brasil é "um país com a necessidade da burocracia desnecessária". Essa frase nunca saiu da minha cabeça, mas só fui entendê-la anos depois. E a compreensão da verdade por detrás dela é por culpa do famoso "jeitinho brasileiro": essa nossa cultura reforça a necessidade de burocracia, mas a burocracia também reforça a cultura do jeitinho, tal como o ouroboros que engole a própria cauda.
O brasileiro médio é, por padrão, um povo desconfiado de seus semelhantes. E essa incerteza não é à toa, pois ela existe em diversas instâncias da vida social: na segurança pública, no Judiciário, na política, no comércio e até mesmo nas relações pessoais. Então, se estiver tudo preto no branco, com várias etapas de "verificação", parece que a chance de alguém passar a perna ou levar uma vantagem indevida reduz bastante.
A grande questão é que, quando o excesso de burocracia acaba se tornando a regra do jogo, existe uma parcela (considerável) de pessoas que vai querer burlar o que seria o "caminho natural". E nem sempre essas pessoas possuem má-fé, veja bem, mas, mesmo assim, acabam sendo empurradas para esse tipo de comportamento. Daí se formam os contatos, os estratagemas e tudo aquilo que conhecemos como o nosso "jeitinho".
Mas aí é que mora outro problema. Chega um ponto em que a burocracia é tamanha que se torna quase kafkiana. Isto é: nos pegamos presos em práticas irracionais dentro de uma lógica racional. E será que, seguindo esse pensamento, ao se tirar a burocracia (ou um pouco dela), o jeitinho brasileiro acaba sendo deixado de lado? Para ser honesto, não tenho uma resposta para isso, mas não sou muito otimista. A moral que molda a lei, e não o contrário.
No fim, quem sabe, vamos seguir engolindo nossa própria cauda até que não sobre mais nenhum pedaço a ser devorado.