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Recuo do mar em Caraguatatuba não está associado a tsunami

Pesquisador do Serviço Geológico do Brasil explica que fenômeno na praia do Camaroeiro é efeito da maré de sizígia

27 jul 2021 14h46
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Foto: recuo intenso do mar em Caraguatatuba (SP), por João Rapacci

Moradores de Caraguatatuba, município costeiro do litoral norte de São Paulo, foram surpreendidos neste domingo, 25 de julho, pelo nível excepcionalmente baixo do mar. O recuo de dezenas de metros chegou a ser relacionado a um tsunami, o que gerou grande preocupação.

De fato, uma intensa recessão do mar precede a ocorrência de um maremoto. No entanto, para tranquilidade dos moradores, a origem do recuo está ligada a um fenômeno bem menos perigoso.

Segundo o pesquisador em geociências do Serviço Geológico do Brasil, o oceanógrafo Vadim Harlamov, o recuo forte do mar poderia ser prenúncio de um tsunami, mas dada a geologia do Atlântico e do nosso litoral, tsunamis são altamente improváveis no Brasil.

"Quando muito, nossos sensores percebem "ecos" de tsunamis que aconteceram do outro lado do mundo e chegam aqui na forma de uma onda ligeiramente diferente, que não conseguiríamos distinguir das demais, muito menos perceber o recuo do mar", explicou.

Mas se as chances de tsunami no Brasil são semelhantes a ganhar sozinho na loteria, afinal qual a causa do fenômeno incomum que fez muita gente, ao ver o mar recuando tão rápido, abandonar a praia e buscar refúgio na serra de Caraguatatuba? A resposta simples: maré, ventos e uma praia muito plana.

Harlamov explica que o recuo é efeito da maré astronômica mais intensa, chamada "maré de sizígia", que ocorre duas vezes ao mês, na lua nova e cheia. Ou seja, o mar recua mais, porém sobe mais ao longo do dia, ao contrário da época de lua crescente e minguante, quando essa variação é bem menor.

"Numa praia plana, como é o caso da Praia do Camaroeiro, esse efeito é muito mais perceptível. Porém, a maré de sizígia ocorre duas vezes ao mês e a declividade da praia essencialmente é a mesma, a não ser para um observador muito atento e que a tenha observado por muito tempo", comenta.

O que aconteceu de diferente agora foi a chegada de uma frente fria, com vento soprando forte de norte-nordeste.

"No mar, quando o vento sopra, a corrente que ele gera vai para o lado esquerdo no Hemisfério Sul, fenômeno conhecido como deriva de Ekman. Coincidentemente, a orientação da linha de costa do litoral de São Paulo é na direção nordeste-sudoeste. Com o vento soprando paralelo ao litoral, as correntes fluem para o oceano aberto, retirando água da costa. Em alguns lugares, a água removida pelo vento soprando ao longo da costa acaba sendo substituída por outra, que vem do fundo e é mais fria", detalha o pesquisador.

Ele lembra ainda que evento semelhante ocorre em Cabo Frio (RJ). Em agosto de 2017, com a aproximação de uma frente fria, foram relatados recuos do mar de até 50 m, desde a costa uruguaia, incluindo Montevidéu. Já os tsunamis são provocados por sismos e erupções vulcânicas e ocorrem com maior frequência no Oceano Pacífico. As ondas podem atingir uma altura de trinta metros.

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