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A ameaça do surto de coronavírus a economia global

O que isso pode impactar no Agro brasileiro?

6 fev 2020
11h07
atualizado em 7/2/2020 às 09h09
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O surto de coronavírus, que se espalha rapidamente pela China e já chega a outros países, tem abalado os mercados globais, enquanto investidores e governantes avaliam os riscos que a doença representa para a economia mundial.

Desde o primeiro alerta de coronavírus, em 31 de dezembro até hoje quinta-feira (06), o coronavírus já havia matado 564 pessoas na China e infectado 28.060 casos confirmados. A epidemia levou a OMS - Organização Mundial de Saúde a declarar emergência de saúde mundial.

As bolsas de valores dos maiores centros financeiros registraram quedas. A diretora de previsões globais da empresa Economist Intelligence Unit, Agathe Demarais disse a Deutsche Welle, emissora internacional da Alemanha que os mercados permanecerão altamente voláteis enquanto sentirem que têm apenas uma imagem incompleta do que está acontecendo e do que acontecerá a seguir.

A China, que é o epicentro do surto, é a segunda maior economia do mundo e tem um papel fundamental nas cadeias de suprimentos globais. Por isso, qualquer coisa que mexe com o país asiático tem potencial para afetar a economia mundial.

Até agora, o surto causou interrupções limitadas na cadeia de suprimentos, várias companhias aéreas suspenderam voos, lojas varejistas foram fechadas em várias cidades chinesas. O diretor- da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse em Genebra que proibições de viagens são desnecessárias. "Não há motivo para medidas que interfiram desnecessariamente com viagens e comércio internacional", afirmou Ghebreyesus. "Pedimos a todos os países que implementem decisões consistentes e baseadas em evidências."

Houve também interrupção na produção de automóveis e existe uma grande preocupação com outros segmentos do negócio mundial, como o Agronegócio.

Agronegócio

Diante da emergência, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) informou que de forma geral, o coronavírus também pode causar infecções em animais. Porém as investigações ainda estão em andamento para identificar e estabelecer as espécies com potencial de ser um reservatório dessa doença. Até o momento, com base nas informações disponíveis, não há relatos do vírus em qualquer espécie animal e que OIE - Organização Mundial de Saúde Animal não fez nenhuma restrição de comercialização de produtos e de animais. 

As autoridades chinesas também proibiram indefinidamente o comércio de animais silvestres em mercados, supermercados, restaurantes e em plataformas de comércio eletrônico, já que a possível fonte do vírus foi um mercado de animais silvestres e peixes.

Recomendações

O Departamento de Saúde Animal da Secretaria de Defesa Agropecuária esclarece que a recomendação geral é que animais doentes nunca devem ser abatidos para consumo. Já animais mortos devem ser enterrados ou eliminados  com segurança. O contato com carcaças e fluidos deve ser realizado apenas com uso adequado de roupas protetoras.

Ao visitar mercados ou feiras de venda de animais vivos, carnes, peixes ou produtos de origem animal fresco, recomendam-se medidas gerais de higiene e prevenção, como lavagem das mãos. Após tocar animais e produtos de origem animal, deve-se também evitar contato das mãos com olhos, nariz ou boca. Recomenda-se ainda evitar contato com animais doentes ou produtos animais deteriorados.

O Mapa orienta também que o consumo de produtos animais não inspecionados, crus ou malcozidos, deve ser evitado. Qualquer suspeita de doença exótica ou emergente, bem como mudança no perfil epidemiológico de doenças animais, deve ser relatada imediatamente ao Serviço Veterinário Oficial, estruturado no Mapa e nos estados que são também responsáveis pela defesa sanitária animal.

Opinião

Andrea Cordeiro, analista, consultora Agro e membro de várias associações ligadas ao Agronegócio no país, diz que será necessário avaliar a evolução da doença nas próximas semanas. Embora, a analista não acredite em uma situação fora de controle, quando perguntada sobre uma suposta evolução do problema ou algo improvável que causaria impacto na importação e exportação, comentou que o pior cenário poderia ser o fechamento temporário de portos marítimos pelo governo chinês.

Na opinião da analista, isso resultaria em um complicador, pois mercadorias que hoje não estão chegando aos seus destinos via transporte terrestre, devido a bloqueios em regiões de quarentena. Ou seja, com o fechamento dos portos um volume maior de mercadoria estrangeira não poderia desembarcar no país. Em seu entendimento esse seria o ápice do agravamento.

O mercado financeiro vive um momento turbulento e os investidores, na dúvida, diminuem sua exposição financeira em ativos como ações e commodities e alocam recursos em ativos mais seguros como dólar.

Mas, o que isso pode impactar no mercado do agro brasileiro?

A crise entre China e EUA continua e, agora com o coronavírus, o impacto negativo na economia é maior. A porta-voz do ministério chinês das Relações Exteriores, Hua Chunying, disse a repórteres que os Estados Unidos "fabricaram e espalharam pânico", contrariando assim recomendações da OMS. O pânico, segundo a China, seria causado pelo fato de os EUA retirarem seus cidadãos do país asiático e restringir viagens, em vez de oferecer auxílio significativo.

Nesta quinta-feira, a China oficializou a redução da tarifa da soja de origem norte americana. Em Setembro, a alíquota que era de 25%, com a escalada da tensão passou para 30% e, agora com a decisão chinesa a redução foi de dois pontos percentuais na tarifação. Esta ação está dentro do que havia sido estipulado pelo acordo da fase 1, opina Cordeiro.   

Não foi só a soja que apresentou redução de alíquota. O pacote inclui 1717 produtos de origem americana. O impacto é de algo em torno de 75 bilhões de dólares de importação. Com a decisão de reduzir parcialmente as tarifas de importação, o mercado interpreta que a China está cumprindo cláusula do acordo da fase 1 e passa aguardar que os EUA anunciem sua contraparte, analisa Andrea Cordeiro.  

A situação agora é de expectativa. O governo chinês já se disse pressionado pelo governo norte americano e qualquer impasse oriundo da continuidade da ausência de compras chinesas de origem dos Estados Unidos pode agravar os ânimos do presidente Trump que em ano eleitoral pode querer defender os interesses do país. A decisão chinesa hoje também pode ser vista como uma forma de ampliar a confiança do mercado em meio o surto do coranavírus que afetou tanto as empresas e a decisão de muitos investidores.

"De uma forma geral, esta situação para o Brasil reflete de forma positiva em relação às carnes e as commodities agrícolas", relata Cordeiro.

Relação comercial Brasil X China

Em reunião com o embaixador chinês Yang Wanming, a ministra Tereza Cristina disse que a relação comercial entre os dois países é tranquila. "O Brasil é um grande parceiro da China na área de produtos agrícolas", disse a ministra após a reunião.A ministra destacou que a China abriu o mercado para o melão brasileiro e está sob análise a exportação de uva brasileira para os chineses.

Segundo a ministra, no que diz respeito ao setor agropecuário, não há restrição ao intercâmbio comercial entre os dois países devido ao surto de coronavírus. O Brasil exporta para a China, principalmente, soja e carnes bovina, suína e de frango.

O embaixador afirmou que a relação comercial entre os dois países no setor agropecuário é duradoura e será cada dia mais estreita. "O governo chinês se dedica a manter essa relação de longo prazo e estável com o governo brasileiro. Os produtos agrícolas brasileiros são bem-vindos. Não acredito que a relação sino-brasileira será prejudicada (pelo surto)", disse.

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