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Sob pressão, Bolsonaro envia Exército para combater fogo na Amazônia

À noite, na TV, presidente defendeu 1º decreto de Garantia da Lei e da Ordem ambiental, com adesão de Acre, Pará, Rondônia e Roraima. Também afirmou que crítica internacional é ataque à soberania e queimadas não são pretexto para sanções

23 ago 2019
17h53
atualizado às 23h41
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BRASÍLIA - Pressionado por líderes de países europeus, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) anunciou nesta sexta-feira, 23, medidas para combater as queimadas na região amazônica com a ajuda das Forças Armadas. À noite, em pronunciamento na TV, defendeu tolerância zero para crimes ambientais, mas manteve a retórica de que as críticas são ataques à soberania nacional. O presidente disse que os incêndios florestais não podem ser pretexto para sanções internacionais.

A declaração foi uma resposta a ameaças de França e Irlanda de bloquear o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Os países devem discutir a crise ambiental brasileira em reunião do G-7 que ocorre no balneário francês de Biarritz a partir de hoje. Contra a ofensiva, Bolsonaro recebeu apoio nesta sexta de Japão, Espanha e, sobretudo, do presidente americano Donald Trump.

No segundo dia de reuniões com a força-tarefa que o governo montou para contornar a crise ambiental, Bolsonaro autorizou que militares atuem no combate ao fogo e contra o desmatamento ilegal, a pedido dos governadores. A operação se dará por meio de uma Garantia da Lei e da Ordem (GLO), usada em situações excepcionais, como na crise de segurança do Rio. A primeira ação ocorreu nesta sexta, com o envio de duas aeronaves modelo C-130 Hércules, da Força Aérea Brasileira, a Porto Velho, em Rondônia. Eles serão usados para despejar produtos que ajudem a apagar o fogo.

O Ministério da Defesa aguarda a liberação de R$ 20 milhões que estavam contingenciados no Orçamento deste ano para ampliar a ajuda. No pronunciamento que fez em rede nacional de rádio e TV, Bolsonaro justificou a medida com a necessidade de se reforçar a fiscalização na região. "Este é um governo de tolerância zero com criminalidade. E nesta área não será diferente", disse o presidente.

Apesar das medidas, o governo reforçou nesta sexta o discurso de que os focos de incêndio na Amazônia estão dentro da normalidade. Até esta sexta, Roraima, Rondônia Acre e Pará formalizaram o pedido de GLO ao Palácio do Planalto. Uma reunião com os governadores dos nove Estados da Amazônia Legal está agendada para terça-feira. Bolsonaro avalia visitar a região.

Segundo governadores da região, o Planalto não informou quantos militares devem ir à Amazônia. O ministro Jorge Oliveira disse que o número será determinado pela Defesa após levantamento in loco. Segundo ele, o ministro da Justiça, Sérgio Moro, colocou também a Força Nacional à disposição.

Na reunião desta sexta, Bolsonaro ainda fez questão de prestigiar o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e seu "perfil combativo". "Queria ver se fosse aqui a Marina Silva (governo Lula) ou o Zequinha Sarney (Temer) para resolver este pepino", disse, rindo.

O Estado apurou que os militares defendem a visão do governo sobre a Amazônia - sobretudo como defesa da soberania. Fazem apenas uma ressalva ao ocupante do Planalto: faltou habilidade. "Ele deu munição ao inimigo com suas declarações", afirmou um general. "O que está acontecendo na Amazônia (as queimadas) não é muito diferente do que acontece todos os anos. Talvez um pouco pior", disse outro oficial da ativa.

Nesta sexta também aumentaram as críticas internas ao presidente. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) cobrou ações urgentes e afirmou que "não é hora de desvarios e descalabros em juízos e falas", como apontou em vídeo seu presidente, d. Walmor Oliveira de Azevedo.

Durante pronunciamento no rádio e TV foram registrados "panelaços" em várias cidades. Os relatos de São Paulo incluíram Moema, Bela Vista, Cerqueira César, Pompeia, Pinheiros, Panambi, Jardim São Paulo, Parelheiros, Vila Madalena, Vila Mariana, Perdizes e Santa Cecília. No Rio, houve "panelaços" em Tijuca, Flamengo, Botafogo, Copacabana, Humaitá, Icaraí, Ipanema e Leblon.

Em ambos os Estados, na Bahia e em Brasília foram realizados protestos. Em São Paulo, o ato na Avenida Paulista ocupou dois quarteirões, com concentração no Masp. Entre os coros estavam "Fora Salles" e "Bolsonaro sai, a Amazônia fica". Também ocorreram manifestações em Paris, Londres, Berlim e Amsterdã.

Governador do Pará diz que incêndios são fruto de desmate pontual; Roraima nega ter queimadas

O governador de Roraima, Antonio Denarium (PSL), negou nesta sexta-feira, 23, que o Estado tenha queimadas, embora o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) tenha apontado a região como uma das que têm maior índice de focos de fogo do País. Já o governador do Pará, Helder Barbalho (MDB), afirmou que incêndios no Estado "são frutos do desmatamento pontual, provavelmente pela atividade criminosa". Ele, correligionário do presidente Jair Bolsonaro, declarou fazer alertas desde o começo do ano sobre perda florestal na região. Nesta sexta, o Acre decretou estado de emergência.

"Roraima está sob controle e não possuímos nenhum foco de queimadas", disse Denarium, em nota, ao Estadão/Broadcast Político. O governador destacou que a Amazônia é um patrimônio "de todos", e que o Brasil e os Estados precisam de apoio do governo federal para a formação de brigadas de combate a incêndios florestais.

"O Estado sozinho não tem recursos pra fazer o combate a incêndios na floresta Amazônica. Porém, eu, Antonio Denarium, estou de acordo com as ações do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.Para resolvermos o problema das queimadas, precisamos resolver um problema estrutural da Amazônia, que é a regularização fundiária e a regularização ambiental", defendeu o chefe do Executivo de Roraima. "Tem de ser feito zoneamento ecológico econômico de toda a Amazônia para que todos os focos de incêndio sejam identificados, assim como os responsáveis, e que cada um seja punido pelos crimes ambientais", acrescentou o governador de Roraima.

"Tudo ganha proporção mais elevada, com diminuição das chuvas, que acaba retratando a realidade de focos de desmatamento", afirmou Barbalho. Segundo o governador, há um foco de queimada permanente no Estado, que fica dentro da Floresta de Carajás, uma unidade de preservação. Ele disse que está em contato com a mineradora Vale, que administra a região, para combater o fogo.

Barbalho disse que o governo do Estado não tem recursos para agir sozinho no combate ao desmate e incêndios. Helder evitou entrar conflito com declarações de Bolsonaro sobre a suposta autoria das ONGs em relação aos incêndios. Disse que é hora de unir forças para resolver a crise. Também não descartou decretar estado de alerta./ TANIA MONTEIRO, MATEUS VARGAS, PATRIK CAMPOREZ, FELIPE FRAZÃO, JULIA LINDNER, MARCELO GODOY e TULIO KRUSE

Estadão
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