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População de Cuiabá enfrenta dificuldades respiratórias

Entre as pessoas mais afetadas pelo clima da cidade estão crianças, idosos e pacientes com doenças respiratórias crônica

12 set 2020
05h13
atualizado às 09h18
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Umidade relativa do ar abaixo dos 15%, altas temperaturas e fumaça resultante das queimadas no Pantanal formam o cotidiano da população da capital de Mato Grosso, Cuiabá, nas últimas semanas. Como resultado disso, unidades de saúde convivem com a procura por atendimentos para casos de dificuldades respiratórias. Porém, em meio à pandemia do novo coronavírus e as ações de prevenção à circulação da doença, a inalação em unidades de saúde, uma prática habitual neste período do ano, está proibida. Na capital, já são mais de 20 mil casos confirmados de covid-19, com 841 mortes.

Cuiabá está sofrendo com as queimadas e tempo seco
Cuiabá está sofrendo com as queimadas e tempo seco
Foto: Francisco Alves/FotoArena / Estadão

Entre as pessoas mais afetadas pelo clima "desértico" de Cuiabá estão crianças, idosos e pacientes com doenças respiratórias crônicas, como asma, bronquite e rinite. A comerciante Suzane Leite, de 37 anos, é uma das pessoas que procurou por uma unidade de saúde da capital com dificuldades respiratórias e teve que voltar para casa sem atendimento.

Ela mora no bairro Jardim Imperial, classificado como uma das regiões de maior contaminação de covid-19 em Cuiabá. "Desde pequena, minha mãe levava eu e meus irmãos ao posto de saúde para fazer inalação nesta época de seca. Este ano foi a primeira vez que não pude fazer, porque a prioridade é para quem está com suspeita do coronavírus", diz.

A pneumologista Ayrdes Pivetta explica que dificuldades respiratórias comuns a estes grupos não podem ser confundidas com a falta de ar resultante do agravamento da contaminação pela covid-19. Segunda ela, pessoas sem qualquer doença pré-existente não tendem a sofrer dificuldades, apesar da baixa umidade do ar e as ondas de fumaça na região.

"Para quem já tem alguma doença respiratória, este período tende a piorar o quadro clínico. No entanto, estas pessoas, em geral, já fazem uso de medicação apropriada, inaladores e broncodilatadores. O problema é que, hoje em dia, as pessoas estão confundindo qualquer mal estar ou fadiga como sintoma do coronavírus e procurando as unidades de saúde", pontua.

De acordo com o secretário adjunto de Assistência em Saúde e secretário adjunto interino de Planejamento e Operações da Secretaria de Saúde de Cuiabá, Luiz Gustavo Raboni Palma, a capital vive uma situação atípica em 2020. Em anos anteriores, com o crescimento das ondas de fumaça e queda na umidade do ar a partir de julho, era comum a prática de inalação em unidades de saúde para casos de dificuldades respiratórias. No entanto, por recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS), a ação está proibida como medida de redução do risco de contaminação do vírus.

"O aerossol resultante da inalação pode pulverizar o vírus nos inaladores, colocando em risco tanto a população atendida, quanto os profissionais de saúde e pessoas próximas. Por isso, a prática não vem sendo realizada. A orientação das unidades básicas de saúde é para que a população faça sua hidratação em casa, seja com toalhas molhadas, umidificadores e soros fisiológicos. Estamos nos adaptando a este cenário delicado e atípico", salienta.

A estimativa da Secretaria de Saúde de Cuiabá é que a alta na procura por este tipo de atendimento esteja em torno de 40% nos últimos dias. "Hoje a população é dividida em pacientes assintomáticos, portadores de doenças respiratórios e os casos de covid-19. As unidades de saúde básica não foram projetadas para um isolamento, por isso, a priorização de inaladores aos contaminados pelo vírus", complementa o secretário municipal.

Queimadas. Em Mato Grosso, o número de focos de incêndio é o maior em 10 anos, com mais de 25 mil notificações, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Uma das instituições responsáveis pelo trabalho de combate e contenção do fogo, o Corpo de Bombeiros, conta com um quadro de 1,4 mil agentes efetivos em 22 bases distribuídas pelo estado, que possui 141 municípios. Do total de bombeiros, pelo menos 150 estão no Pantanal, considerado o ponto mais crítico na região. Até o momento, já são quase 600 mil hectares queimados.

Coordenadora de Comunicação da entidade, a tenente-coronel Sheila Sebalhos, diz que apesar da antecipação do período proibitivo das queimadas, em julho, a situação em Mato Grosso é grave. Como reflexo disso, foi necessário o pedido de reforços a outras instituições para o atendimento dos casos de incêndios florestais. A ação é coordenada pelo Comitê Temporário Integrado Multiagências de Coordenação Operacional (Ciman).

"Desde julho, já temos 46 unidades de instrumentos temporários de respostas a incêndios florestais em Mato Grosso, que funcionam nas cidades onde não há bases do Corpo de Bombeiros. A ideia é ampliar a capacidade de resposta para evitar a intensificação do fogo nestas regiões", explica.

Outro ponto crítico relacionado às queimadas são as rodovias que percorrem Mato Grosso. Uma das maiores, a BR-163, que liga Itiquira a Sinop, é administrada pela Concessionária Rota do Oeste, que desde julho executa o plano de prevenção e combate a incêndios nas áreas próximas à rodovia, com atendimentos rápidos a focos iniciais de incêndio ao longo dos 850,9 km da via. O trabalho é realizado por meio de veículos de inspeção de tráfego, todos com abafadores e caminhões pipa posicionados de forma estratégica para agir nos pequenos focos.

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