Relatório dos EUA não fala em 'base militar secreta' chinesa em Salvador; saiba o que diz documento
TEXTO DIVULGADO PELO CONGRESSO AMERICANO AFIRMA QUE CHINESES TEM ACESSO A INSTALAÇÃO DE EMPRESA BRASILEIRA EM TUCANO, NO SERTÃO BAIANO; PARLAMENTARES QUESTIONARAM FORNECIMENTO DE DADOS PARA FINS MILITARES
Postagens nas redes sociais têm distorcido o conteúdo de um relatório produzido por um comitê do Congresso dos Estados Unidos sobre a influência da China na América Latina. De acordo com o documento, o país asiático tem acesso a 11 instalações espaciais na região que colocariam em risco os interesses americanos. Duas delas estariam no Brasil.
Nas redes, se espalhou o boato de que uma dessas instalações seria uma "base militar secreta" chinesa funcionando em Salvador, o que colocaria o Brasil como possível alvo militar do presidente dos EUA, Donald Trump. Mas o relatório dos congressistas estadunidenses não menciona a capital baiana.
Segundo o texto, a China tem acesso a uma instalação chamada Base Terrestre de Tucano. O espaço é fruto de uma parceria entre a startup brasileira Alya Nanosatellites e a empresa chinesa Beijing Tianlian Space Technology.
O relatório afirma que a localização exata da base não é conhecida, embora se saiba que ela fique na cidade de Tucano, a cerca de 270 quilômetros de Salvador. O site da empresa Alya informa que a base fica na rodovia BR-116.
O documento chama as instalações espaciais de "Rota da Seda Espacial da China na América Latina". Para os autores do relatório, embora todas sejam "ostensivamente anunciadas como instalações científicas civis", elas fornecem à China dados com precisão milimétrica.
Essas informações seriam "essenciais para melhorar a precisão e a confiabilidade dos sistemas de mísseis balísticos de longo alcance" do Exército chinês.
A empresa brasileira Alya Space de fato desenvolve um projeto espacial de lançamento de satélites para "geração de imagens de alta resolução e dados analíticos aplicados a áreas como agricultura sustentável, resiliência climática, energia e gestão ambiental".
Mas a startup negou que sua atuação esteja ligada a "atividades secretas de vigilância estratégica ou aplicações militares" (leia mais abaixo).
O que diz o relatório do Congresso dos EUA?
O relatório citado em publicações que viralizaram nas redes sociais foi elaborado pelo Comitê Seleto sobre a Competição Estratégica entre os Estados Unidos e o Partido Comunista Chinês. O documento foi divulgado em 26 de fevereiro.
Segundo o texto, a China teria acesso a 11 instalações espaciais na América Latina - no Brasil, Argentina, Bolívia, Chile e Venezuela - que garantiriam ao país asiático o acesso a dados de alta precisão por imagens de satélite.
O presidente do comitê responsável pelo relatório, o republicano John Moolenaar, disse que "grande parte da vida cotidiana americana depende de satélites". Por isso, as operações espaciais da China são motivo de séria preocupação.
"A China está investindo em operações espaciais na América Latina apenas para promover sua agenda e minar a presença dos Estados Unidos no espaço", disse.
Nas redes, postagens falam em uma base secreta chinesa em Salvador, mas o relatório americano não menciona a cidade. O texto fala sobre a existência de uma Base Terrestre de Tucano, de localização exata desconhecida.
A base é fruto de uma parceria entre uma startup brasileira da área espacial e uma empresa chinesa. O acordo permite a troca de dados entre ambas. Para os deputados, isso facilitaria o acesso da China a imagens de alta precisão, possibilitando o uso militar.
O relatório afirma que essa possibilidade de uso militar é reforçada pelo fato de a empresa Alya Nanosatellites ter assinado um memorando com um departamento da Força Aérea Brasileira (FAB).
Esse memorando permite o treinamento de militares em órbita simulada. Segundo o texto americano, isso proporciona à China "um canal para observar e influenciar a doutrina espacial militar brasileira, ao mesmo tempo em que estabelece uma presença permanente em uma região vital para a segurança nacional dos EUA".
Em nota, o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) da FAB confirmou que houve, entre 2020 e 2022, um Memorando de Entendimento entre a instituição e a Alya Satélite e Produção de Fotografias Aéreas Ltda. Mas não houve acordo para renovação do memorando.
Segundo a FAB, a intenção era "firmar uma parceria para atividades de calibração radiométrica de sensores ópticos de imageamento".
Além da Base Terrestre de Tucano, o texto menciona o Laboratório Conjunto de Tecnologia de Radioastronomia China-Brasil, que abrigará um telescópio ainda em construção na Serra do Urubu, no município de Aguiar (PB).
A China tem uma base militar em Salvador?
Não há registros de que a China tenha uma base militar operando em Salvador. O relatório americano afirma que há uma base em Tucano, no sertão da Bahia.
O site oficial da empresa Alya Space, dona do projeto citado no relatório, está atualmente em construção. Mas uma versão anterior da página, de 15 de janeiro de 2025, informava que a startup tinha quatro bases terrestres no Brasil.
Uma delas fica em Cuiabá (MT), uma em Sorocaba (SP), uma em Paço do Lumiar (MA) e uma justamente em Tucano (BA). O site listava o endereço na cidade baiana como Rodovia Santos Dumont - BR-116.
Procurada pela reportagem, a CEO da Alya Space, a empresária Aila Raquel Cruz Ribeiro, negou que a atuação da empresa envolva "atividades secretas de vigilância estratégica ou aplicações militares".
Em nota, ela disse que "a Alya Space opera sob princípios estritamente civis, comerciais e alinhados às legislações nacionais e internacionais aplicáveis".
De acordo com a ferramenta CruzaGrafos, da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), a empresa tem duas atividades econômicas registradas: "Atividades de produção de fotografias aéreas e submarinas" e "Outras atividades de telecomunicações".
Outra alegação presente em publicações que viralizaram nas redes é a de que o atual governo teria firmado uma parceria militar com Pequim. No entanto, o relatório americano não diz que as iniciativas são da gestão atual. A parceria entre a Alya e a empresa chinesa, por exemplo, teria sido feita em 2020, antes do atual governo tomar posse.
Qual a atividade desenvolvida pela empresa brasileira?
Em nota, a Alya Space informou que a empresa foi fundada em Salvador no final de 2019. O objeto era o "desenvolvimento de soluções espaciais sustentáveis voltadas ao monitoramento ambiental, análise territorial e apoio à tomada de decisão estratégica por meio do uso responsável da tecnologia espacial".
Segundo a CEO da empresa, a Alya está desenvolvendo uma constelação de satélites e tem licenças para o lançamento de 216 satélites em órbita baixa da Terra. Esses equipamentos estão destinados à geração de imagens de alta resolução e dados analíticos aplicados a áreas como agricultura sustentável, resiliência climática, energia e gestão ambiental.
Por enquanto, as atividades se concentram em pesquisa e desenvolvimento e não há previsão de atividade comercial até 2027.
O Verifica questionou se a empresa chinesa Beijing Tianlian Space Technology, citada no relatório do Congresso dos EUA, é de fato uma parceira da Alya Space, mas não obteve resposta.
Há uma publicação de 2020 no site do Fórum de Cooperação Econômica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, conhecido como Fórum Macau, sobre a parceria entre as duas empresas para a instalação de uma estação terrestre na Bahia.
Outra publicação da CEO da empresa brasileira no LinkedIn dá conta da assinatura de um contrato em 2023 entre a Ayla Space e outra empresa, a Hong Kong Aerospace Technology Group Limited. Esse acordo versava sobre a fabricação e o lançamento de 108 satélites da constelação Alya-1. A previsão de lançamento dos primeiros satélites era para 2024.