Caso Orelha: agressões a animais podem ser sinal de alerta para situações de violência doméstica e social
O que leva alguém a agredir um ser dócil, sociável, que não representava ameaça, e que simplesmente existia? Grupos interdisciplinares de pesquisa estudam conexão entre casos de violência contra animais e com agressões domésticas e interpessoais
O terrível caso do espancamento e morte do cão comunitário Orelha chocou o país e ganhou repercussão internacional. Por mais de dez anos, Orelha interagiu e era espontaneamente cuidado por moradores e frequentadores da Praia Brava, em Florianópolis, Santa Catarina. Orelha precisou ser eutanasiado em consequência da gravidade dos ferimentos que sofreu. De acordo com investigações ainda em andamento, quatro adolescentes estariam envolvidos neste ato de violência brutal.
Sem entrar em detalhes sobre as especificidades deste ato cruel em particular, a comunidade de amantes e protetores de animas se pergunta: afinal, o que leva alguém a agredir um ser dócil, sociável, que não representava ameaça, que simplesmente existia e circulava pela cidade?
Como uma pesquisadora que vem estudando o vínculo entre humanos e animais por mais de uma década, casos como esse sempre me fazem parar e refletir. Não apenas no ato em si, mas também sobre o que nossa reação coletiva revela sobre empatia e o lugar que os animais ocupam nas nossas vidas. Também me fazem pensar nas conexões que existem entre violência contra animais e a violência contra pessoas, as quais já são amplamente documentadas na literatura.
Associações entre violência contra animais e outras formas de violência
Um número expressivo de pesquisas sugere que é importante ficar atento diante de casos de agressão contra animais pois eles podem sinalizar a presença de outras formas de violência, incluindo violência interpessoal e doméstica. Por exemplo, muitas mulheres e crianças que são vítimas de violência relatam que o animal de estimação da família também sofre agressões ou é usado para coagir e ameaçar as vítimas envolvidas nesses episódios.
Um grupo internacional de pesquisa e prática chamado National Link Coalition trabalha justamente essa conexão entre violência contra animais e violência interpessoal. Ele envolve profissionais que trabalham com saúde animal e humana, e argumenta que precisamos de uma maior articulação entre os profissionais que atuam no cuidado com animais e os que estudam e previnem a violência humana.
Visto por essa lente, quando profissionais como psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais e veterinários atuam juntos é possível intervir precocemente e prevenir ou mitigar o impacto de diversas formas de violência.
Nesse cenário, se um veterinário percebe que um animal apresenta sinais de ter sido agredido, o caso seria notificado. E possivelmente outros profissionais - como assistentes sociais - poderiam ser acionados para garantir que outras formas de violência na casa possam ser identificadas e prevenidas, caso necessário. Sem uma integração entre esses profissionais, no entanto, essa prevenção torna-se impossível.
A violência contra animais é um fenômeno complexo e multifacetado
A literatura também chama a atenção para uma possível associação entre traços de psicopatia e comportamentos como machucar ou torturar animais como cães e gatos. No entanto, isso não é determinístico. Portanto, não se pode dizer que todo individuo envolvido em violência contra animais apresenta traços de psicopatia.
A violência contra animais é um fenômeno complexo e multifacetado, atravessado por diversos fatores. Embora limitações empáticas seja um dos fatores, este não é o único. Experiências de vida iniciais relacionadas a animais de estimação, contextos sociais e culturais mais amplos que normalizam e legitimam prejudicar animais, e processos de normalização da violência, entre outros, contribuem para a ocorrência dessas situações.
Quanto há exposição à violência contra animais durante a infância ou adolescência há maior probabilidade de comportamentos prejudiciais contra animais ou violência interpessoal na vida adulta. Além disso, sintomas como ansiedade e depressão podem se manifestar naqueles expostos a tais formas de violência.
Quando o indivíduo que prejudica o animal tem um significado emocional na vida de uma criança ou adolescente, testemunhar esses episódios de violência pode adquirir um impacto emocional maior, moldando como as normas relacionais e comportamentais são internalizadas.
Assim, a exposição ao maus-tratos de animais nos primeiros anos de vida pode aumentar a probabilidade do individuo normalizar esses comportamentos e internalizar os padrões emocionais subjacentes à situação (por exemplo, raiva, medo, insegurança). Quando isso acontece, os indivíduos envolvidos na agressão geralmente mostram pouca percepção das consequências de suas ações.
Outros autores enfatizam que a violência contra os animais também pode ser entendida como um comportamento social e relacional. Com essa perspectiva, esses comportamentos são normalizados ao longo do tempo em práticas de violência não apenas contra animais, mas também contra grupos humanos marginalizados. Em outras palavras, essas práticas não são meros atos individuais. Na verdade, refletem dinâmicas socio-relacionais mais amplas de dominação.
Por que nos indignamos tanto?
Os animais, principalmente animais domésticos, tendem a ativar reações empáticas intensas. Isso se deve parcialmente a percepção de que são seres vulneráveis com os quais compartilhamos várias características. Muitas pessoas reconhecem a capacidade de sentir e pensar dos animais, aumentando a sensação de conexão emocional e empatia. Esse reconhecimento intensifica reações empáticas e o desejo de protegê-los.
Além disso, para um número crescente de pessoas, longe de serem simples animais, estamos falando de membros da família. Um levantamento recente com tutores nos Estados Unidos revelou que para 97% deles os pets são membros da família. Esses números são semelhantes em outras partes do mundo. Nesse cenário, uma hipótese é que atos de crueldade contra um animal doméstico possivelmente ativam um senso de ameaça muito próximo.
É como se esse tipo de violência ativasse a percepção de que algo precioso e familiar foi brutalmente ferido ou destruído. Isso, na minha perspectiva, pode gerar uma percepção de ameaça a algo extremamente valioso em nossas vidas.
Por que nossa indignação muitas vezes não vira ação?
Por outro lado, vivemos em uma sociedade onde relações entre humanos são privilegiadas e em muitos lugares do mundo os animais domésticos ainda são vistos como posse. Além disso, existe uma distância entre indignação e ações coletivas organizadas. Às vezes, até existem ações, mas elas são isoladas ou envolvem disputas de poder.
O resultado é que na maioria dessas situações o sentimento de revolta não se transforma em movimentos efetivos que contribuam para mudanças estruturais.
Além disso, para algumas pessoas, esses casos são tão chocantes que até ler sobre o assunto é um gatilho muito forte. Portanto, passa a ser um tópico evitado, não por frieza emocional, mas pela dificuldade de lidar com a dor de olhar para esses casos de perto.
Somado a isso, mudanças estruturais levam tempo mesmo com pressão social. Particularmente quando existem obstáculos práticos, como falta de perícia veterinária acessível e padronizada. Assim, infelizmente, em muitos desses casos a indignação não se transforma em mudanças significativas.
Do impacto à ação
Várias pesquisas, como destacado acima, mostram uma ligação forte entre abuso animal e outras formas de violência. Embora esse seja um argumento importante para revermos a forma como lidamos institucionalmente com casos de violência animal, esse não é o único motivo para a mobilização. Independente de como esse tipo de violência nos atinja diretamente, o animal merece proteção por si mesmo.
Que mais que uma indignação momentânea, a morte brutal de Orelha seja uma alerta que se traduza em mudanças concretas na legislação de proteção aos animais, na atuação coordenada de profissionais da saúde humana e animal e na forma como os animais são percebidos na nossa sociedade.
Renata Roma não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.