Carne brasileira pode não conseguir atender exigências da UE sobre antimicrobianos
Setor exportador alerta que adaptação às exigências europeias exige 30 meses; veto ao Brasil passa a valer em setembro e frigoríficos já operam no vermelho
A carne brasileira enfrenta um cenário de extrema gravidade regulatória. A partir de 3 de setembro, o bloco europeu proibirá a entrada de produtos de origem animal vindos do Brasil. Diante desse cenário, o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, alertou que os produtores nacionais dificilmente conseguirão cumprir as novas exigências sanitárias a tempo.
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A crise começou no início de junho. Na ocasião, a União Europeia retirou o território brasileiro da lista de nações aptas a comprovar o controle rígido de antimicrobianos na produção de proteína animal. A restrição atinge diretamente as vendas de carne bovina, aves, pescados, cavalos, tripas e mel.
O gargalo dos 30 meses e o impasse no campo
A princípio, a indústria brasileira esbarra em uma barreira temporal. Como o ciclo completo de criação do gado de corte demanda tempo, os pecuaristas precisam de pelo menos dois anos e meio para adaptar todo o manejo dos animais aos novos padrões internacionais.
De acordo com o representante máximo da Abiec:
"Eu acho que o Ministério da Agricultura está dialogando com todos os elos da cadeia, tanto com a indústria quanto com os pecuaristas, para se chegar a uma boa decisão que ainda não temos, mas a gente está acompanhando para que a gente chegue nessa boa decisão."
Enquanto o Ministério da Agricultura tenta reverter a situação, concorrentes diretos do Mercosul, como Argentina, Paraguai e Uruguai, permanecem com sinal verde para abastecer de carne o mercado europeu. A Comissão Europeia sustenta que o governo brasileiro falhou ao não enviar os relatórios técnicos que comprovam a ausência de substâncias proibidas na alimentação e tratamento do rebanho.
Duplo impacto: O cerco da China e o sufoco dos frigoríficos
Somado ao veto europeu, o agronegócio brasileiro enfrenta medidas de proteção adotadas por Pequim. Desde 1º de janeiro de 2026, a China aplica cotas rígidas e impõe tarifas pesadas de até 55% sobre o volume de carne que excede as 1,1 milhão de toneladas anuais.
A combinação desses dois fatores travou o escoamento da produção nacional. Algumas indústrias já concederam férias coletivas para evitar estoques parados. Diante desse cenário desafiador, a sustentabilidade financeira das empresas nacionais está severamente comprometida. Conforme explica o dirigente do setor:
"Não temos a mesma demanda global de carne. O principal mercado do Brasil é o interno, mas a exportação complementa e faz esse mix que faz com que a gente não precise fazer uma elevação aguda dos preços internos. Esse mix que trazia essa garantia de remuneração do mercado externo com a China, isso não existe. E estamos vendo muitas indústrias com dificuldade. Hoje a maioria das indústrias estão trabalhando no vermelho."
O bolso do consumidor: Como ficam os preços no supermercado?
Em um primeiro momento, a tendência indica que os preços da carne para o consumidor brasileiro devem permanecer estáveis. Isso ocorre porque o excesso de produto que deixa de ir para o exterior acaba inundando as gôndolas locais.
Em contrapartida, esse alívio temporário não deve durar muito tempo. Posteriormente, a forte pressão financeira sobre as indústrias e a necessidade de recuperação das margens de lucro dos frigoríficos tendem a forçar um reajuste de preços para cima no mercado doméstico.
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