Brasileiros nos países bálticos: como é viver à sombra da Rússia
Na Estônia, Letônia e Lituânia, brasileiros convivem com testes de sirenes, abrigos e planos de emergência enquanto governos reforçam a preparação civil diante de potenciais ações militares da Rússia.De repente, a tranquilidade cotidiana é interrompida pelo som das sirenes. Celulares recebem alertas enquanto o sistema nacional de emergência é testado. Em uma situação real de guerra, a orientação é buscar abrigo e aguardar instruções. Por sorte, era apenas um treinamento em Tallinn, capital da Estônia, país que faz fronteira com a Rússia e que, ao lado dos demais países Bálticos - a Lituânia e a Letônia - reforçou a preparação de civis desde o início do conflito na Ucrânia.
"É uma sensação muito ruim. Mesmo sabendo que é apenas um teste, quando a sirene começa a tocar, você sente um desconforto muito grande. Depois que acaba, fica pensando que, se existe todo esse sistema de testes, existe um motivo para ele existir", conta Camila Conti, 31 anos, que mora na região há cerca de dois anos.
A brasileira cria conteúdos nas redes sociais sobre o país, que incluem como é viver num país que está no flanco mais exposto da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e que permanece em alerta contra ações militares da Rússia. "Muita gente pergunta se é perigoso morar aqui, se a gente tem medo, se existe risco de guerra. Curiosamente, essa não é uma pergunta que aparece tanto nos comentários, mas sim no privado. Acho que [os seguidores] têm um certo receio de perguntar publicamente", conta.
Invasão da Ucrânia reacende preocupações
A curiosidade ecoa na história recente da região. A Rússia lançou sua invasão em larga escala da Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022, mas encontrou forte resistência ucraniana e fracassou em tomar Kiev. Mais de quatro anos depois, contudo, a guerra continua, e estimativas apontam para mais de meio milhão de militares russos e ucranianos mortos, além de milhares de civis, transformando o cenário de segurança europeu, sobretudo em países nas proximidades da Rússia.
Por isso, os três países bálticos aceleraram os gastos militares diante do que consideram uma ameaça. Em 2026, a Estônia prevê destinar 5,4% do Produto Interno Bruto (PIB) à defesa, enquanto a Letônia deve gastar cerca de 4,7%. A Lituânia também está entre os países da Otan que já ultrapassaram a marca de 5%. O movimento ocorre após a aliança militar liderada pelos Estados Unidos estabelecer uma nova meta de 5% do PIB para defesa e segurança até 2035. A dado de comparação, o Brasil gasta cerca de 1% de tudo o que produz com a Defesa.
De acordo com Günther Richter Mros, professor de relações internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a invasão russa na Ucrânia reforçou uma memória histórica que já existia, dado que os países Bálticos estiveram sob influência russa durante décadas.
"Estônia, Letônia e Lituânia recuperaram a independência apenas em 1991, depois de décadas sob domínio soviético, e ingressaram na Otan em 2004 justamente buscando uma garantia contra essa vulnerabilidade. A invasão da Ucrânia mostrou que guerras territoriais e disputas por zonas de influência não haviam desaparecido da Europa. Por isso, a defesa militar e a preparação da sociedade passaram a ser vistas como partes de uma mesma política de segurança", diz.
De acordo com o especialista, apesar de o risco ser considerado real, não há uma visão de que uma invasão seja iminente. Mesmo assim, como a preparação da população também é uma forma de dissuasão, os governos locais investem nesse tipo de treinamento.
"Quanto mais resiliente for uma sociedade, menores são as possibilidades de um adversário produzir rapidamente desorganização e medo. As sirenes não significam necessariamente que esses países esperem uma guerra amanhã, mas sim que querem estar preparados para que uma crise não os paralise", afirma.
Comunidade brasileira nos Bálticos
O clima hostil no inverno e as diferenças culturais parecem afastar mais os brasileiros do que a ameaça russa - apesar de a comunidade brasileira manter presença nos Bálticos. De acordo com dados do Ministério das Relações Exteriores, cerca de 1,2 mil brasileiros vivem atualmente nos três países bálticos. A maior comunidade está na Estônia, com aproximadamente 900 brasileiros, seguida pela Letônia, com 200, e pela Lituânia, com 153.
Para Ana Meis, que mora na cidade de Palanga, no litoral da Lituânia, a proximidade com a Rússia nunca foi um fator para que ela desistisse da ideia de morar no país, mesmo que nas últimas semanas alguns alertas tenham sido disparados.
"Me preocupo, como qualquer pessoa que acompanha as notícias. Mas convivendo com os lituanos, não percebo um medo constante no dia a dia. A vida segue normalmente, e isso também nos transmite tranquilidade. Achei positivo existirem sistemas de alerta e protocolos de emergência porque ajudam a população a estar preparada caso algum dia seja necessário", diz.
Além dos testes de sirene, governos da região recomendam que moradores mantenham mantimentos e itens essenciais para enfrentar os primeiros dias de uma eventual emergência. O brasileiro Iago Bresciani, 30 anos, no entanto, afirma não ter nada preparado para um possível confronto.
Segundo ele, quando decidiu ir à Estônia, os pais ficaram preocupados dado a localização do país, mas que prefere não se preocupar à toa. "Não tenho mochila de emergência. Acho que viver com medo é pior. Se acontecer alguma coisa, aconteceu. Talvez seja bom estar preparado, mas o meu lema é aproveitar a vida. Imagine viver com medo porque há três ou quatro anos dizem que podem invadir a Estônia", diz.
Ele afirma que mesmo em cidades na fronteira com a Rússia, o clima é tranquilo. "Fui à [cidade de] Narva esses dias. É uma cidade na fronteira, onde você consegue ver a Rússia do outro lado. Minha mulher é de lá e o pai dela ainda mora na cidade. Fomos visitá-lo e as pessoas vivem normalmente. Inclusive, achei o pessoal de lá até mais simpático, mais sorridente e amigável", conta.
A preparação, no entanto, não impede que a rotina siga normalmente, conta Camila Conti. "Tenho uma vida completamente normal. Saio, encontro amigos, trabalho, viajo. Não vejo os estonianos vivendo com medo, mas existe uma diferença entre não sentir medo e saber que há um plano B. Muita gente tem uma mochila pronta, com documentos, comida e itens básicos. Eu ainda não tenho a minha, mas às vezes penso por onde sairia da Estônia se acontecesse alguma coisa", afirma.
De Riga, capital da Letônia, o brasileiro Felipe Gabriel Xavier conta que mora há dez anos no país, desde que foi jogar futebol, mas acabou se tornando nacionalmente conhecido. Por isso, Xavier acabou por conseguir o passaporte letão e, apesar de deixar claro que não há riscos iminentes e que a vida segue normal, defenderia o país em caso de invasão.
"Claro que [estamos] sempre alerta, mas não é o que eu fico o dia inteiro pensando nisso. Sei lá, ter comida reserva, bunkers já preparados, essas coisas, eu não tenho. Mas como o parlamento votou e me deu o passaporte, eu fiz um juramento, caso tenha guerra eu iria proteger a Letônia. Então eu acho que caso aconteça algo, aconteça o pior, eu iria proteger a Letônia na guerra, porque eu fiz um juramento", conta.
Aumento de ações
Enquanto a rotina segue sem grandes alterações para os brasileiros ouvidos pela DW, os governos bálticos ampliam os investimentos em preparação civil para diferentes cenários de crise.
Na Lituânia, a preparação se traduz principalmente em abrigos e sistemas de alerta. O país conta hoje com 6.618 abrigos, capazes de receber cerca de 1,6 milhão de pessoas, ou 58% da população, o dobro de 2023. O governo também investe mais de 30 milhões de euros na modernização desses espaços e está instalando 275 novas sirenes, além de integrar outras 600 a um sistema centralizado de alerta.
"Vivemos um momento em que as crises deixaram de ser exceções e estão se tornando a nova realidade em toda a Europa. Nossa resiliência, portanto, não pode ser uma reação, mas um estado permanente. Precisamos nos preparar para uma ampla variedade de cenários", afirmou o governo lituano à DW Brasil.
Na Letônia, a estratégia também busca envolver diretamente a população. Desde 2024, a Defesa Nacional é disciplina obrigatória no ensino médio e profissionalizante, enquanto o serviço militar obrigatório foi restabelecido. O país implementou ainda um sistema capaz de enviar alertas de emergência diretamente aos celulares e orienta os moradores a terem condições de se manter de forma autônoma durante as primeiras 72 horas de uma grande crise.
"A preparação [deve ocorrer] por meio do conhecimento, e não do medo", afirmou o Ministério da Defesa letão à DW Brasil. Segundo o governo, em uma crise de grandes proporções, os serviços de emergência precisarão priorizar a infraestrutura crítica e a segurança nacional, razão pela qual a população deve estar preparada para cuidar de si própria nos primeiros três dias.
Já na Estônia, o governo também vem ampliando a preparação civil. O país mantém o EE-ALARM, sistema nacional que combina sirenes, alertas por aplicativos, SMS e mensagens nos canais da emissora pública. Grandes testes nacionais são realizados três ou quatro vezes por ano. Em junho, durante o exercício ILVES 2026, cerca de 130 órgãos públicos, empresas e organizações civis treinaram respostas a situações de crise, incluindo procedimentos de abrigo. O exercício envolveu 111 abrigos públicos espalhados pelo país. O governo estoniano não respondeu ao pedido de posicionamento da DW Brasil.
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