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Brasil

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'Tudo é política': pesquisadora analisa o papel dos influenciadores na campanha eleitoral brasileira

A comunicação política nas redes sociais mudou de forma significativa desde a campanha presidencial de 2022 no Brasil. Para a pesquisadora franco-brasileira Nina Rolin, fundadora do canal Leaks Media e doutoranda em semiologia na Universidade Paris-Cité, que pesquisa a influência das narrativas de sucesso produzidas por criadores de conteúdo na França e no Brasil, a extrema direita brasileira passou por um reposicionamento estratégico para ampliar seu alcance eleitoral e conquistar novos públicos.

20 out 2026 - 06h32
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Resumo
A pesquisadora Nina Rolin analisa como os influenciadores e os memes ganharam protagonismo na política brasileira ao mobilizarem milhões de seguidores e assumirem posições no debate eleitoral. Ela destaca a estratégia da extrema-direita em suavizar sua imagem com cultura popular e humor, fenômeno similar ao da França, e defende que criadores de conteúdo e marcas têm papel crucial no debate público, reforçando a ideia de que a internet politizou o cotidiano e que hoje tudo virou política.

Nina Rolin analisa a influência dos criadores de conteúdo, a força dos memes e as semelhanças entre as estratégias digitais observadas hoje no Brasil e na França. Segundo a pesquisadora, uma das mudanças mais visíveis no bolsonarismo foi a transformação de sua comunicação digital.

"Em 2022, o patriotismo e a bandeira brasileira eram marcas muito associadas a Jair Bolsonaro. Hoje, esses símbolos já não pertencem a um único campo político", observa.

Para ela, a extrema direita também busca abandonar esse rótulo e se apresentar como uma simples "direita liberal". "Há uma estratégia para suavizar a imagem e reduzir a rejeição associada à extrema direita", afirma.

Nina também observa uma aproximação com elementos da cultura popular antes criticados pelos setores conservadores. "Eu vi alguns deputados usando o funk, que Jair Bolsonaro criticava", aponta. Essa estratégia, diz ela, busca se aproximar de setores do eleitorado popular, inclusive de pessoas tradicionalmente identificadas com o Partido dos Trabalhadores (PT).

Influenciadores ganham protagonismo

Na avaliação da pesquisadora, os influenciadores digitais se tornaram atores relevantes na disputa política por ocuparem diariamente o espaço informativo e de entretenimento consumido por milhões de brasileiros.

"Eles não são 100% responsáveis pela campanha, mas, na minha opinião, desempenham uma parte muito importante, ao mostrar ao povo que deve votar e também dando esclarecimentos sobre o que está acontecendo", afirma Nina. Ela ressalta que muitos desses influenciadores reúnem audiências de "10 milhões, 20 milhões, 30 milhões de seguidores" e fazem parte do cotidiano de milhões de brasileiros.

Segundo a pesquisadora, muitos influenciadores famosos, que no primeiro turno não haviam deixado claro seu posicionamento político, passaram a assumir publicamente suas preferências durante a campanha do segundo turno.

"Eu estou do lado do Lula, eu voto 13, eu sou do lado do Flávio Bolsonaro, mesmo se isso representar perder seguidores e contratos", destaca. Para Nina, "o principal para as pessoas na internet é saber quem estamos apoiando". E acrescenta: "Uma pessoa que está a favor da democracia ou não?".

A normalização da extrema direita

Nina vê semelhanças entre as estratégias digitais da extrema direita na França e no Brasil. Segundo ela, esse campo político aposta cada vez mais em conteúdos leves e próximos da cultura das redes sociais.

"O Jordan Bardella e a Marine Le Pen, por exemplo, fazem vídeos mais de humor. 'Estamos rindo, está tudo bem'. O Bardella é bonito e se aproveita do 'privilégio da beleza', como se fala aqui na França. Existe uma comunicação mais direta", afirma.

A política dos memes

Para Nina, os memes e as imagens virais se tornaram ferramentas importantes da comunicação política. Ela cita como exemplo o caso do "Gostoso da Paulista", cuja repercussão ultrapassou as fronteiras do Brasil.

"É muito interessante que o mundo inteiro falou dele: ingleses, franceses, espanhóis. Teve até gente na Índia querendo saber quem era. As pessoas estão se questionando sobre o corpo de um homem, mas também estão falando de política, do porquê de ele estar ali e do que aquilo representa. Então, isso é importante."

"Tudo é política"

Questionada sobre os possíveis ensinamentos que a campanha brasileira pode oferecer para a eleição presidencial francesa de 2027, Nina Rolin afirma que os influenciadores digitais brasileiros podem servir de exemplo para os franceses.

"Aqui na França, eles já estão sendo obrigados a se posicionar sobre as manifestações dos estudantes e a ter uma posição clara sobre certos assuntos. Podemos aprender com o Brasil que é preciso se politizar, uma vez que tudo é política". Ela acrescenta que influenciadores, artistas e marcas também têm responsabilidade no debate público. "Hoje em dia, a gente não pode mais viver, fazer vídeo na internet, mostrar meritocracia, sem falar de política."

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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