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Brasil

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Psicanalista Liz Feré analisa como estereótipos moldam poder, linguagem e silenciamentos no Brasil

Como nascem os estereótipos que moldam a forma como vemos o outro e a nós mesmos? No Brasil, país marcado por heranças coloniais e profundas desigualdades sociais, esses rótulos estruturam relações de poder e produzem silenciamentos. É a partir desse ponto que a professora de Ciências da Comunicação Liz Feré recorre à psicanálise e à análise do discurso para investigar como esses mecanismos operam no cotidiano e por que colocá-los em questão pode abrir caminhos mais saudáveis de convivência na sociedade brasileira.

6 mai 2026 - 12h21
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O livro "Estereótipos em cena" (Editora Pedro & João), da pesquisadora franco-brasileira, chega agora à sua segunda edição, revista e ampliada. A obra resulta de uma pesquisa desenvolvida na Universidade Paris 8, onde Feré leciona, e de um pós‑doutorado realizado na Universidade Federal Fluminense. Nesse trabalho, a autora articula linguagem e psicanálise para analisar como os estereótipos se formam, se cristalizam e atravessam as relações sociais, especialmente no contexto brasileiro.

Para Liz Feré, o próprio sentido da palavra ajuda a compreender o problema. "Stereos vem do grego 'rígido', 'sólido', e tipo vem então desse traço. A gente poderia dizer que o estereótipo é um traço rígido de alguma coisa", explica. Com o tempo, o termo passou a designar formas fixas de ver o mundo, os fenômenos e as pessoas. "São representações cristalizadas. A questão do estereótipo é um olhar fixo sobre alguma coisa", resume.

Esses olhares, segundo a pesquisadora, aparecem constantemente na vida cotidiana, sobretudo na linguagem. "Quando a gente diz 'o Brasil é o país do futebol', independentemente de ser verdadeiro ou não, a gente fortalece apenas um traço de uma cultura complexa", exemplifica.

Estereótipo como sintoma social

No livro, Feré propõe pensar os estereótipos como um sintoma narcísico das relações sociais brasileiras, uma noção inspirada na psicanálise, mas deslocada do campo clínico para o social.

"Eu tento resgatar a palavra sintoma da clínica e colocá‑la em um campo mais filosófico, como um mal‑estar disseminado na sociedade em relação à ideia que fazemos de outros grupos", afirma.

Esse funcionamento, explica a autora, contribui para manter coesões rígidas e relações de poder. "Algumas formações discursivas, como os implícitos e os silenciamentos, fazem com que grupos fiquem delimitados em certas posições na sociedade", observa.

Ao reunir análise do discurso e psicanálise, Liz Feré busca ir além da interpretação consciente dos discursos.

"As duas disciplinas têm um objeto comum: a linguagem. Não se trata só da construção de sentido, mas da possibilidade de uma leitura inconsciente desses discursos fixos, que criam lugares e produzem silenciamentos", aponta. Para a pesquisadora, é na linguagem que se afirmam, ou se negam, reconhecimento e respeito.

O que os estereótipos dizem sobre nós

Em sociedades hierarquizadas, como a brasileira ou a francesa, os estereótipos também funcionam como mecanismos de defesa identitária. "Eles ajudam a proteger uma imagem de grupo e a ocultar conteúdos que não são socialmente aceitos", diz Feré, destacando como isso se manifesta de forma evidente nas discussões sobre racismo no Brasil.

"Parece que ser chamado de racista é mais grave do que cometer o ato de racismo. A pessoa diz 'não sou racista', mas o conteúdo não é elaborado e reaparece nos atos falhos, no 'não foi o que eu quis dizer'".

Para a pesquisadora, esses lapsos - que Lacan descreve como atos bem‑sucedidos - revelam conteúdos ainda não trabalhados simbolicamente. "O contato com o outro pode produzir deslocamentos e permitir a construção de outra relação com a diversidade", afirma.

Falar a partir da branquitude

Feré explicita ainda o lugar de onde escreve: o de uma mulher lida como branca no Brasil. Para ela, assumir essa posição é uma escolha ética e política. "A pessoa branca se coloca como universal, e os demais são o outro. Colocar‑me dentro da branquitude é movimentar esse lugar e colocá‑lo em jogo", explica.

A autora relaciona essa posição ao que chama de capital simbólico da branquitude, algo vivido desde a infância. "Eu venho de uma família pobre, mas havia um orgulho de ser branco, de ter olhos claros. Mesmo sem dinheiro, isso fazia com que se passasse por certos lugares quase sem questionamentos", relata. Questionar esse privilégio costuma gerar resistência, acrescenta. "Algumas pessoas têm a sensação de que, ao mover essas ideias, vão perder algo, mesmo que isso não apareça de forma consciente".

Escuta e diálogo 

O livro não oferece respostas prontas, mas aposta na escuta e no diálogo. A proposta, segundo Feré, é abrir espaço para outras vozes questionarem posições rígidas e ampliar o nível de consciência sobre a realidade do outro.

Nesse sentido, "Estereótipos em cena" reúne textos de intelectuais, professores, poetas e artistas que abordam temas como gênero, envelhecimento, periferias e expressões culturais como o rap e o funk: "São vozes que ampliam o debate e ajudam a imaginar outras formas de relação", conclui a autora.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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