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Brasil

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Premiado em Paris, ex-correspondente do Le Monde no Brasil critica clichês sobre a Amazônia

Recém-premiado com o Albert Londres, principal distinção do jornalismo francês, o franco-brasileiro Bruno Meyerfeld encerra sete anos como correspondente do Le Monde no Brasil, defendendo uma visão menos estereotipada do país. Em entrevista à RFI, ele critica clichês sobre a Amazônia, relativiza a ideia do "país do futuro", analisa as contradições do governo Lula e afirma que o Brasil continua sendo um território marcado por conflitos, desigualdades e disputas de projeto.

5 nov 2026 - 15h39
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Resumo
Vencedor do prêmio Albert Londres por reportagens sobre povos indígenas, o jornalista franco-brasileiro Bruno Meyerfeld critica a visão simplista e estereotipada que a Europa mantém sobre o Brasil e a Amazônia. Para o ex-correspondente do Le Monde, a região é um território complexo e diverso, habitado por 30 milhões de pessoas com desafios sociais urgentes, que vão além da dicotomia entre protetores e destruidores, destacando o papel ativo dos indígenas e a necessidade de valorizar a floresta em pé.

O Brasil que Bruno Meyerfeld deixa para trás não é, segundo ele, muito diferente daquele que encontrou em 2019. A conclusão pode soar surpreendente para quem acompanhou um dos períodos mais turbulentos da história recente do país, marcado por pandemia, crises institucionais, queimadas recordes, polarização política, a derrota do bolsonarismo e o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva ao Palácio do Planalto. Mas é justamente a persistência de certas estruturas que chama a atenção do jornalista franco-brasileiro, recém-premiado com o Albert Londres, principal distinção do jornalismo francês, graças a uma série de reportagens sobre os povos indígenas da Amazônia e do Brasil.

O jornalista franco-brasileiro Bruno Meyerfeld com o prêmio Albert Londres, principal distinção do jornalismo francês.
O jornalista franco-brasileiro Bruno Meyerfeld com o prêmio Albert Londres, principal distinção do jornalismo francês.
Foto: © Ksenia Bolchakova / RFI

Quando assumiu a correspondência do vespertino francês, Meyerfeld já conhecia o país muito antes de transformá-lo em objeto cotidiano de reportagem. As viagens da infância, as temporadas com a família materna em Minas Gerais e os vínculos afetivos impediram que reproduzisse uma imagem turística que ainda hoje ocupa grande espaço no imaginário europeu.

"Eu nunca caí nessa imagem de um Brasil que seria um país com horizonte de praia e caipirinha. Para mim sempre foi um país marcado pela escravidão, pelo desmatamento e pela extrema direita também, pela misoginia, que era um país muito complexo." 

Não por acaso, Bruno demonstra irritação diante de uma citação repetida à exaustão, seja por brasileiros ou estrangeiros. "Eu abomino essa frase, que é 'o Brasil não é para principiantes', porque nenhum país é para principiante. A Bélgica é tão complicada como o Brasil. Menor, mas tão complicada", afirma. 

"A minha primeira matéria no Le Monde no Brasil foi justamente a briga diplomática entre o Emmanuel Macron e o Jair Bolsonaro, com a Amazônia como pano de fundo. A minha primeira matéria foi da maior crise diplomática entre os meus dois países", conta Meyerfeld.

A Amazônia que a Europa não enxerga

Se há um tema capaz de sintetizar a cobertura que lhe rendeu o Albert Londres, ele está menos na floresta em si do que na maneira como ela costuma ser observada do outro lado do Atlântico. Meyerfeld acredita que a Amazônia continua sendo apresentada ao público europeu por uma série de imagens simplificadoras que ignoram a diversidade humana, cultural e econômica da região.

"Eu gostaria que o leitor francês parasse de pensar que a Amazônia é só uma selva, que é só floresta. Tem pessoas morando lá. Trinta milhões de pessoas. E todas essas pessoas não são só povos indígenas ou fazendeiros."

A observação tenta desmontar uma narrativa recorrente que reduz a Amazônia a um cenário de disputa entre protetores da floresta e seus destruidores. Na definição do jornalista, trata-se de um território muito mais difícil de enquadrar. "Tem cidades na Amazônia que têm problemas agudos e que têm também as suas riquezas, sua poesia, sua lindeza. É um continente verde. A Amazônia é extremamente diversa e que tem que ser abordada com muita complexidade."

Meyerfed recusa abertamente todos os clichês fáceis sobre a floresta: "Tem vários atores entre o povo indígena e os fazendeiros. A Amazônia tem um litoral, a Amazônia pode ser montanhosa, a Amazônia tem muitas camadas, tem muitos ribeirinhos, tem muitos quilombolas. Não é uma Sibéria tropical."

A mesma crítica se estende à forma como os povos indígenas são retratados no exterior. Ao longo dos anos de reportagem, Meyerfeld passou a enxergar uma mobilização política que dificilmente cabe na imagem de populações isoladas e passivas.

"Tem que sair dessa visão que a gente tem dos povos indígenas na França como uma população homogênea e de coitados. Os povos indígenas têm essa riqueza, essa diversidade. São centenas de línguas, são centenas de povos."

Mais do que isso, enfatiza, trata-se de grupos que participam ativamente das disputas contemporâneas sobre território, identidade e poder. "É também um povo que está se mobilizando para os seus direitos, com várias contradições, atritos, conflitos internos, como qualquer povo se mobilizando", sublinha.

Ao comentar a defesa feita por Lula, segundo a qual os recursos provenientes do petróleo poderiam financiar a transição energética, o jornalista procura recolocar a questão dentro das condições concretas de vida observadas em suas viagens. "É um assunto complexo. O que você pode sacrificar do meio ambiente para ajudar um povo que, no Brasil, ainda tem muita necessidade?", questiona. Em seguida, recorda uma experiência que o marcou na Amazônia. "O único lugar do Brasil onde eu vi pessoas passando fome, mesmo passando dias sem comer, foi em Marajó."

Para ele, qualquer solução sustentável depende da criação de uma nova lógica econômica para a floresta. "A Amazônia não morre do ódio à natureza do pessoal que mora na Amazônia. Ela morre porque, hoje, a floresta que a gente chama 'em pé' tem menos valor do que a 'floresta cortada'", argumenta. 

"O Brasil é um lugar de luta"

Ao explicar o Brasil para os leitores franceses, Meyerfeld afirma ter convivido permanentemente com uma espécie de oscilação entre encantamento e medo. "O Brasil é um país que faz o francês sonhar. É um país de sonho e de pesadelo", contrabalança. Na prática, isso significa lidar com imagens igualmente simplificadoras. "O Brasil é associado com praia, alegria, festa, carnaval, violência, droga, desmatamento e escravidão. Tem sempre essa dualidade", observa o jornalista.

A observação vale também para as redações. Com humor, ele lembra que às vezes parecia não haver meio-termo possível na forma como os estrangeiros imaginavam o país. "No próprio Le Monde, a redação não sabia se precisava me mandar uma roupa de praia ou um capacete para ir para a favela", lembra.

Ao longo desse período, Meyerfeld entrevistou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em diferentes momentos de sua trajetória política: "Entrevistei o Lula na cadeia, candidato e presidente". O aspecto que mais o impressionou, nos encontros com o presidente brasileiro, não foi necessariamente ideológico, mas humano.

"Primeira coisa: qualquer pessoa abordando o Lula, seja o Trump, seja eu, ou qualquer político, acha o Lula extremamente simpático", diz. Sua última entrevista com o presidente terminou tomando um rumo inesperado. "Ele não queria que a entrevista começasse. Ele queria realmente bater um papo". O assunto acabou fugindo completamente da pauta institucional. "A gente conversou com o Lula sobre temas como o amor. É muito incomum conversar sobre amor com um presidente da República...", lembra Meyerfeld.

A simpatia pessoal, porém, não elimina as ambiguidades políticas. "Fora da personagem, da pessoa, na verdade, tem um presidente que tem um balanço contraditório. Eu escrevi inúmeras matérias críticas ao presidente Lula, mas reconhecendo também a figura histórica que ele é".

A disposição do jornalista para desafiar narrativas consolidadas reaparece quando fala sobre Stefan Zweig e Brasil, País do Futuro, obra que permanece influente tanto na França quanto no Brasil. Longe da reverência habitual, Meyerfeld formula uma crítica direta. "O Stefan Zweig fez muito mal para a visão que o pessoal na Europa tem do Brasil". Segundo ele, a idealização de um país naturalmente harmonioso teria alimentado uma leitura equivocada da sociedade brasileira.

"O Brasil é um lugar de luta, é um lugar de resistência, mas não é um lugar de passividade cordial."

Apesar de todas as críticas e contradições que enumera ao longo da entrevista, Meyerfeld não fala de declínio quando pensa o futuro brasileiro. Ao contrário. Enquanto observa uma França marcada por dúvidas sobre o próprio papel no mundo, ele enxerga um país que continua acumulando atributos estratégicos difíceis de ignorar. "Eu acho que o Brasil, no futuro, só pode ter um espaço maior nos negócios internacionais, na geopolítica, pelo peso demográfico, pela questão ambiental, pela diversidade do povo". Mas faz uma ressalva importante: "São também questões que refletem escolhas".

Quando perguntado sobre o significado de deixar um país que passou sete anos tentando compreender, sua resposta vem sem rodeios. "Não termina. Não tem um dia em que eu não carregue o Brasil comigo. Não tem dia sem saudade. Eu não tento fugir dessa saudade. Eu acho que é a tristeza mais gostosa. É a presença dos ausentes", finaliza Meyerfeld.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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