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'Prejudicou operação': PF reclama de sanção dos EUA que associou brasileiro foragido ao PCC

Polícia Federal prende Stella Stefanie, sancionada pelos EUA por suposto elo com o PCC. Victor Shimada, também sancionado, está foragido. Segundo a PF, a lavagem de dinheiro proveniente do tráfico internacional de drogas movimentou R$ 10 bilhões.

3 jul 2026 - 10h49
(atualizado às 16h08)
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Investigações preliminares identificaram movimentações superiores a R$ 10 bilhões, segundo a PF
Investigações preliminares identificaram movimentações superiores a R$ 10 bilhões, segundo a PF
Foto: Polícia Federal / BBC News Brasil

A Polícia Federal deflagrou na manhã desta sexta-feira (3/7) a Operação Exchange, que apura lavagem de dinheiro proveniente do tráfico internacional de drogas.

Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira estão entre os 11 alvos de prisão temporária da PF. A BBC News Brasil apurou que Stella Stefanie foi presa e Shimada está foragido.

Na quarta-feira (1/7), ambos foram sancionados pelo governo de Donald Trump por suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Além deles, as empresas de Shimada também foram sancionadas.

A Justiça autorizou a realização da operação no dia 2 de junho, mas houve dificuldade em localizar todos os alvos. Ainda assim, segundo a PF, a sanção americana causou prejuízo à operação, que teve de ser adiantada.

A avaliação é que a decisão americana prejudicou a investigação brasileira, porque soou como um alerta aos investigados.

"Não houvesse essa designação, o desfecho seria outro… não localizamos (Shimada). Houve um prejuízo à investigação", respondeu o diretor da PF, Andrei Rodrigues, questionado pela BBC News Brasil durante um café com jornalistas na sede da PF, em Brasília.

As apurações da PF indicam que os investigados utilizavam um sistema estruturado para a movimentação de recursos, por meio de transferências ilícitas de criptomoedas, operações bancárias de alto valor, repasses entre pessoas físicas e jurídicas e outras atividades financeiras.

Investigações preliminares identificaram movimentações superiores a R$ 10 bilhões, de acordo com a PF.

Shimada foi condenado pela Justiça Federal no ano passado por lavagem de dinheiro e furto qualificado mediante fraude eletrônica.

Ele foi investigado pelo Ministério Público e pela Polícia Civil de São Paulo em um inquérito que apurou irregularidades no contrato de patrocínio entre o Corinthians e a casa de apostas VaideBet.

As investigações levaram à denúncia oferecida à Justiça no ano passado contra Augusto Melo, ex-presidente do Corinthians, expulso do quadro associativo do clube por suposta tentativa de golpe com o patrocínio da VaideBet ao time.

Melo sempre negou as acusações.

Na época, Victor Shimada foi incluído na denúncia e chegou a ser detido provisoriamente por lavagem de dinheiro e furto qualificado. Segundo o Ministério Público de São Paulo, ele teria lavado R$ 35 milhões por meio de diversas contas em forma de criptomoeda.

No inquérito policial, os investigadores destacaram a rotina de voos de Shimada, que comprava bilhetes para diferentes destinos no mesmo dia da viagem.

Além disso, os investigadores destacam que, durante a apuração, foi constatado que Shimada possuía dois veículos, um Audi Q8 e um Porsche Taycan, valendo R$ 465 mil e R$ 593 mil, respectivamente. E que, em 2017, ele era dono de "dois veículos de baixo valor de mercado": um Fiat Palio e um Ford Del Rey, "indicando uma ascensão social acentuada entre os anos de 2017 e 2020".

A BBC News Brasil entrou em contato com a defesa de Shimada, que afirmou, por meio de nota, que tomou conhecimento, há instantes, da operação realizada pela Polícia Federal. "Neste momento, entretanto, ainda não dispomos de acesso às decisões judiciais nem aos elementos que fundamentaram as medidas adotadas."

A defesa também afirmou que "nesse contexto, qualquer manifestação sobre os fatos ou sobre o objeto da investigação seria precipitada. Tão logo tenha acesso aos autos e às informações oficiais, a defesa realizará a análise técnica do caso e adotará as medidas jurídicas que entender cabíveis."

A defesa de Stella Stefanie não foi localizada.

Victor Shimada já havia sido condenado no Brasil por lavagem de dinheiro em ação que não faz relação entre ele e o PCC.
Victor Shimada já havia sido condenado no Brasil por lavagem de dinheiro em ação que não faz relação entre ele e o PCC.
Foto: Polícia Civil de São Paulo / BBC News Brasil

Suposto elo com o PCC

Todas as empresas sancionadas pelos EUA na quarta-feira pertencem a Victor Shimada: Victory Trading Intermediacão De Negocios Cobrancas E Tecnologia Ltda; Pixwave Solucoes De Pagamentos Ltda; Wave Construcoes Inteligentes Ltda; Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda (de Portugal).

O Departamento do Tesouro americano afirmou em nota que Shimada atuava "como elo central" entre operadores do PCC na Flórida e traficantes internacionais de drogas. E que ele teria lavado mais de US$ 30 milhões em recursos ilícitos gerados em diversas cidades dos Estados Unidos, utilizando criptomoedas para remeter valores ao Brasil em nome do PCC.

Segundo a nota, a rede de lavagem de dinheiro do PCC alvo da ação operava principalmente na Flórida e em São Paulo.

O Tesouro americano afirma que uma das empresas de Shimada, a Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda., "foi utilizada para lavar dinheiro desviado de um clube de futebol brasileiro em um esquema de fraude publicitária."

Já Stella é apontada como "parente próxima e associada" de Shimada pelo governo americano. Em seu nome, consta apenas uma empresa: a GP8 Pay.

Segundo o Tesouro, Stella teria trabalhado como secretária de Shimada e atuado como intermediária na coleta "de grandes quantias em dinheiro vivo, prestando serviços logísticos fundamentais para as operações de lavagem de dinheiro conduzidas pela rede."

Na investigação realizada pelo MP e pela Polícia Civil, a fintech de Stella, a GP8 Pay, havia sido apontada pelos policiais brasileiros como sendo 98% de propriedade de Shimada.

Ela não aparece nas investigações brasileiras, que também não fazem relação com o PCC.

O promotor do Ministério Público de São Paulo (MPSP) Lincoln Gakiya, que investiga o PCC há décadas, afirmou à BBC News Brasil desconhecer essa suposta relação dos sancionados com a facção criminosa.

"Desconheço que esse casal ou essas empresas tenham envolvimento com o PCC, mas não tenho conhecimento das investigações que o FBI e o DOJ [Departamento de Justiça dos EUA] fizeram a partir de alvos ligados ao PCC em Miami. Aqui ele respondeu por outros crimes, inclusive pelo caso da VaideBet e do Augusto do Corinthians. Mas não consta que Victor ou a a Stella sejam ligados ao PCC."

Victor Shimada seria o elo central entre operações do PCC e traficantes de drogas na Flórida, segundo o Tesouro americano
Victor Shimada seria o elo central entre operações do PCC e traficantes de drogas na Flórida, segundo o Tesouro americano
Foto: Polícia Civil de São Paulo / BBC News Brasil

O que acontece com os sancionados pelo governo Trump?

As sanções bloqueiam todos os bens e interesses em bens das pessoas e empresas que estejam nos Estados Unidos ou sob posse ou controle de cidadãos ou empresas americanas.

Além disso, quaisquer entidades pertencentes, direta ou indiretamente, em 50% ou mais, individualmente ou em conjunto, a uma ou mais pessoas bloqueadas também ficam sujeitas a bloqueio.

As regulamentações americanas geralmente proíbem qualquer transação realizada por cidadãos ou empresas dos EUA — ou dentro do território americano — que envolva bens ou interesses pertencentes a pessoas sancionadas.

O Tesouro americano afirma que violações às sanções dos Estados Unidos podem resultar em penalidades civis ou criminais para pessoas físicas e jurídicas, tanto americanas quanto estrangeiras.

Pessoas nos Estados Unidos ou no exterior que forneçam informações sobre violações de sanções ao programa de denúncias da Rede de Combate a Crimes Financeiros (FinCEN, na sigla em inglês) podem ser elegíveis a recompensas financeiras caso as informações resultem em ações de fiscalização bem-sucedidas com multas superiores a US$ 1 milhão.

No fim de maio, os Estados Unidos classificaram o PCC e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, medida que, para alguns analistas, pode trazer consequências para empresas de diversos segmentos.

Pouco depois, o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS, na sigla em inglês) afirmou que prendeu o brasileiro Felipe Linares de Oliveira Dell Aquilla e o apontou como comandante tanto do Primeiro Comando da Capital (PCC) quanto do Comando Vermelho (CV).

No entanto, investigadores da Polícia Federal (PF) que atuam no combate ao crime organizado disseram à BBC News Brasil, em caráter reservado, que a indicação de que Dell Aquila teria exercido cargos de liderança no PCC e no CV é considerada inusitada.

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