Script = https://s1.trrsf.com/update-1770314720/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Por que governo Lula está de olho nas eleições que podem tirar 'irmão' de Bolsonaro do poder na Europa?

Para auxiliares de Lula, eleição que coloca em jogo cargo de Viktor Orbán na Hungria vai medir força da direita global e capacidade de influência de Trump

10 abr 2026 - 17h43
Compartilhar
Bolsonaro e Orbán são próximos politicamente. Orbán aparece atrás nas pesquisas eleitorais para disputa que acontece no domingo
Bolsonaro e Orbán são próximos politicamente. Orbán aparece atrás nas pesquisas eleitorais para disputa que acontece no domingo
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acompanha com atenção a eleição parlamentar na Hungria, que acontece no domingo (12/4).

O país é governado pelo político de direita Viktor Orbán, líder europeu que recebeu o apoio explícito do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump e que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) chamou de "irmão" durante visita a Budapeste em 2022.

Orbán está no poder desde 2010 e, além do apoio de Trump e Bolsonaro, também é visto como um aliado do líder russo Vladimir Putin.

Na leitura de integrantes do governo brasileiro, as eleições na Hungria viraram uma espécie de teste triplo. Primeiro, para medir a força do que classificam como extrema-direita europeia após 16 anos de governo no país.

Segundo, para avaliar a capacidade de mobilização de uma extrema-direita global tida como cada vez mais articulada e da qual, segundo assessores de Lula, tanto Orbán quanto Bolsonaro fariam parte.

Em terceiro lugar, para observar até onde o atual governo americano liderado por Trump está disposto e consegue influenciar eleições em países estrangeiros.

Um auxiliar do presidente Lula disse à BBC News Brasil em caráter reservado que o cenário observado na Hungria pode dar pistas sobre como (ou se) os Estados Unidos poderão atuar durante as eleições brasileiras, em outubro deste ano.

A maioria das pesquisas de opinião põe o partido de oposição Tisza e seu líder, Peter Magyar, muito à frente do Fidesz de Orbán — a mais recente com 58% contra 35%.

Em meio à possibilidade de derrota de Orbán, Trump enviou, nesta semana, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, à capital húngara, Budapeste, para participar de um comício em uma clara demonstração de apoio à candidatura do aliado.

"Eu amo a Hungria e amo Viktor. Eu digo a vocês que ele é um homem fantástico", disse Trump por telefone durante um comício da campanha de Órban na terça-feira (7/4). "Sou um grande fã de Viktor e estou com ele até o fim", completou Trump.

Para um auxiliar de Lula ouvido em caráter reservado pela BBC News Brasil, a ida de Vance para Budapeste não foi um ato meramente protocolar e mostra a preocupação de Trump com o resultado da eleição de um aliado importante na Europa.

Orbán ficou conhecido por adotar políticas de maior restrição à imigração, promoveu reformas no Poder Judiciário húngaro e vem defendendo posições críticas à influência da União Europeia em assuntos domésticos do seu país.

A organização não-governamental Human Rights Watch alega em seu relatório sobre o país, divulgado em 2025, que o governo Orbán estaria promovendo um "ataque" às instituições democráticas do país, entre elas a integrantes da imprensa.

O relatório também critica a utilização de decretos para desrespeitar decisões judiciais e restringir o direito dos professores à greve.

O governo Orbán, por outro lado, rebate as acusações afirmando que o primeiro-ministro seria uma espécie de "guerreiro da liberdade" atuando em defesa da soberania de seu país.

Proximidade com Bolsonaro

No campo doméstico, uma eventual derrota de Orbán é interpretada pelo governo como a derrota de um antigo aliado de Jair Bolsonaro, que cumpre pena de 27 anos de prisão por crimes como tentativa de golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito.

Bolsonaro segue sendo a principal liderança da direita no Brasil, mesmo enquanto cumpre sua pena - em regime de prisão domiciliar temporária em razão de problemas de saúde.

A proximidade política entre Bolsonaro e Orbán ficou evidente em 2022, quando o brasileiro foi à Hungria fazer uma visita de Estado ao primeiro-ministro.

Durante o encontro, os dois trocaram elogios e Bolsonaro chegou a chamá-lo de "irmão".

"Prezado Orbán, trato como irmão, dada a afinidade que temos na defesa dos nossos povos", disse Bolsonaro à época.

Em março de 2024, em meio às investigações da Polícia Federal contra Bolsonaro, o ex-presidente dormiu durante duas noites na Embaixada da Hungria, em Brasília.

O episódio foi revelado pelo jornal The New York Times. Mais tarde, em 2025, o caso foi citado pelo ministro do STF, Alexandre de Moraes, como uma das justificativas para negar um pedido de prisão domiciliar feito pela defesa de Bolsonaro.

O caso foi apontado como um indício de que Bolsonaro poderia tentar pedir asilo em uma embaixada estrangeira para fugir de um eventual pedido de prisão das autoridades brasileiras.

Os advogados de Bolsonaro, no entanto, rebateram as suposições de que a passagem do ex-presidente pela embaixada tivesse o intuito de obter uma fuga.

"Não há, portanto, razões mínimas e nem mesmo cenário jurídico a justificar que se suponha algum tipo de movimento voltado a obter asilo em uma embaixada estrangeira ou que indiquem uma intenção de evadir-se das autoridades legais ou obstruir, de qualquer forma, a aplicação da lei penal", disse a defesa em documento enviado ao STF naquela ocasião.

A proximidade entre os dois continuou ao longo dos anos.

Em julho de 2025, antes do julgamento de Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF), Orbán saiu em defesa do ex-presidente.

"Continue lutando, @jairbolsonaro! Ordens de mordaça, proibições em redes sociais e julgamentos motivados politicamente são ferramentas do medo, não da justiça. Você pode colocar uma tornozeleira eletrônica em um homem, mas não na vontade de uma nação!", disse Orbán em uma publicação no X (antigo Twitter).

Possibilidade de interferência

Um auxiliar do presidente Lula ouvido em caráter reservado disse que o Brasil não descarta, totalmente, a possibilidade de que o governo americano ou uma ala dele possa tentar interferir nas eleições presidenciais deste ano.

Ele afirma que, no ano passado, o governo americano tentou, por meio do tarifaço, influenciar o processo judicial envolvendo Jair Bolsonaro. A avaliação é de que a aproximação recente entre Lula e Trump conseguiu frear alas do governo americano mais próximas à família Bolsonaro.

Ele citou como exemplo uma declaração do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que aparece como principal pré-candidato da direita à Presidência, durante um evento nos Estados Unidos no final de março deste ano em que ele pediu "pressão" internacional sobre as eleições no Brasil.

"Apliquem pressão diplomática para que nossas instituições funcionem adequadamente. Em vez de a administração (Joe) Biden interferir em nossas eleições para instalar um socialista que odeia a América, aplicar pressão diplomática por eleições livres e justas baseadas em valores de origem americana — essa é uma boa mudança de política externa para a região, não é?", disse o pré-candidato e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Essa fonte disse, porém, que se as relações entre Lula e Trump se mantiverem cordiais nos próximos meses, a possibilidade de uma interferência com a chancela da Casa Branca diminuem.

Ele relembrou, contudo, que uma possível interferência norte-americana em eleições na América Latina durante a gestão Trump não seria novidade.

No ano passado, o governo Trump deu aval a um empréstimo de US$ 20 bilhões à Argentina às vésperas das eleições parlamentares do país que garantiram uma vitória do partido do presidente Javier Milei.

Também em 2025, o presidente Trump apoiou o candidato de direita Nasry Asfura à presidência de Honduras, que acabou vencendo as eleições contra a então presidente de esquerda Xiomara Castro.

O presidente americano chegou a dizer que suspenderia a ajuda financeira dos Estados Unidos a Honduras caso Asfura não fosse eleito.

Nesta semana, o coordenador político da campanha à reeleição de Lula, o ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Wellington Dias, disse que o governo não iria tolerar interferência externa nas eleições presidenciais deste ano.

"Não vamos tolerar interferência de ninguém. O Brasil não se mete, do ponto de vista eleitoral, com nenhum país. Podemos até ter simpatia por este ou aquele candidato, mas não nos metemos. O Brasil exige respeito dos outros países porque isso é soberania", disse.

BBC News Brasil BBC News Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização escrita da BBC News Brasil.
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra