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Por que eleição brasileira é teste para estratégia de Trump na América Latina

A eleição presidencial brasileira é vista por analistas como um teste crucial para a estratégia de Donald Trump na América Latina. Uma vitória de Flávio Bolsonaro consolidaria a influência regional do republicano, enquanto uma vitória de Lula criaria uma "dor de cabeça no curto prazo" para Washington. Entenda o que está em jogo.

3 out 2026 - 11h10
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Resumo
A eleição entre Lula e Flávio Bolsonaro é vista como teste vital para a estratégia de Donald Trump na América Latina. Enquanto o avanço da direita na região fortalece a influência de Washington sob a chamada "Doutrina Donroe", focada em hegemonia e segurança, o pleito no Brasil é considerado o maior prêmio dessa disputa. O triunfo de Bolsonaro consolidaria o alinhamento com a Casa Branca, ao passo que a vitória de Lula desafiaria os planos norte-americanos e reforçaria a liderança da esquerda regional.
'O Brasil será meu': projeção em São Paulo ironiza interesse de Trump na eleição presidencial.
'O Brasil será meu': projeção em São Paulo ironiza interesse de Trump na eleição presidencial.
Foto: REUTERS/Amanda Perobelli / BBC News Brasil

Em um momento em que os Estados Unidos vêm buscando ampliar sua influência sobre a América Latina, a eleição presidencial brasileira é vista por muitos analistas como um teste crucial para a estratégia do governo de Donald Trump na região.

A disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que busca a reeleição e um quarto mandato, e o senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, ocorre em meio a uma guinada à direita em vários países latino-americanos.

Uma vitória de Bolsonaro representaria a consolidação desse movimento e da influência regional de Trump, com o triunfo da direita e de um aliado político do republicano no maior país da região.

"Seria a peça fundamental da chamada 'onda laranja' (em referência ao presidente americano) de líderes alinhados a Trump que vêm ganhando força e se espalhando pela América Latina", diz à BBC News Brasil o analista político Brian Winter, editor-chefe da revista Americas Quarterly.

"O Brasil é o maior prêmio. É pessoalmente importante para Trump. Ele tem uma relação com a família Bolsonaro que remonta a muitos anos", afirma Winter.

Vitória de Lula criaria "dor de cabeça no curto prazo" para Trump, segundo analistas.
Vitória de Lula criaria "dor de cabeça no curto prazo" para Trump, segundo analistas.
Foto: REUTERS/Elizabeth Frantz / BBC News Brasil

O analista observa que, por outro lado, uma vitória de Lula solidificaria o legado do petista como figura histórica da esquerda em todo o Sul Global. Também criaria uma "dor de cabeça no curto prazo" para Trump, diante da relação marcada por "altos e baixos".

"Acho que a Casa Branca provavelmente reagiria com decepção caso Lula vença. E então buscaria algum tipo de entendimento pragmático com Lula", diz Winter.

Na quinta-feira (1/10), três dias antes do primeiro turno, Trump afirmou em conversa com jornalistas que está acompanhando "de perto" o pleito no Brasil.

"O Brasil é um país muito importante. É um ótimo país. As pessoas do Brasil são fantásticas. É uma eleição muito importante", afirmou o presidente americano, sem mencionar nenhum dos candidatos.

Na sexta (2/10), questionado se iria apoiar Bolsonaro, Trump voltou a dizer simplesmente que está acompanhando a eleição de perto.

As declarações foram feitas em meio ao receio do governo brasileiro de que Trump tente interferir na eleição brasileira.

Também na sexta, os Estados Unidos e a Austrália anunciaram o fechamento de suas embaixadas e consulados no Brasil. Sem detalhar os motivos, o governo americano disse que "tem como máxima prioridade a segurança e a proteção dos cidadãos americanos."

Trump com líderes aliados na Cúpula Escudo das Américas, em Doral, na Flórida, em março. Da esquerda para a direita: Luis Abinader (República Dominicana), Rodrigo Paz Pereira (Bolívia), Nayib Bukele (El Salvador), Javier Milei (Argentina), José Raúl Mulino (Panamá), Mohamed Irfaan Ali (Guiana) e Nasry Asfura (Honduras).
Trump com líderes aliados na Cúpula Escudo das Américas, em Doral, na Flórida, em março. Da esquerda para a direita: Luis Abinader (República Dominicana), Rodrigo Paz Pereira (Bolívia), Nayib Bukele (El Salvador), Javier Milei (Argentina), José Raúl Mulino (Panamá), Mohamed Irfaan Ali (Guiana) e Nasry Asfura (Honduras).
Foto: Roberto Schmidt/Getty Images / BBC News Brasil

Doutrina 'Donroe'

Desde o início de seu segundo mandato, em janeiro do ano passado, o presidente americano declarou abertamente apoio a diversos candidatos de direita ao redor do mundo e, especificamente, na América Latina.

Entre os exemplos recentes estão Abelardo De La Espriella, eleito em junho na Colômbia, e Nasry Asfura, vencedor no pleito do ano passado em Honduras.

Na Argentina, a coalizão do presidente Javier Milei (que tomou posse em 2023, antes do retorno de Trump à Casa Branca) conquistou uma grande vitória nas eleições legislativas do ano passado após Trump sugerir que o auxílio financeiro ao país dependia do resultado nas urnas.

As manifestações públicas de apoio por parte de Trump ocorreram em meio a uma onda recente de vitórias da direita na América Latina.

Bolívia, Chile, Costa Rica, Equador e Peru também estão entre os países da região cujas eleições presidenciais recentes foram vencidas por candidatos conservadores.

Oscilações à direita ou à esquerda são consideradas comuns e ocorrem periodicamente na América Latina.

Entre os exemplos estão a chamada "Maré Rosa", como ficou conhecida a guinada à esquerda no início dos anos 2000, e as próprias vitórias de candidatos esquerdistas em vários países, entre eles o Brasil, no início da década atual.

Além disso, o movimento atual também é impulsionado pelo sentimento anti-incumbência.

"Acho que é uma questão menos ideológica e mais das pessoas insatisfeitas com os atuais mandatários", diz à BBC News Brasil o especialista em relações Brasil-EUA Carlos Gustavo Poggio, professor de Relações Internacionais da universidade Berea College, no Estado americano do Kentucky.

No entanto, analistas ressaltam que a atual onda de vitórias da direita ocorre em um contexto de maior pressão dos Estados Unidos sobre a América Latina.

As medidas do governo Trump na região vão desde tarifas, como as impostas sobre produtos brasileiros, até a captura do presidente da Venezuela, o líder chavista Nicolás Maduro, em janeiro deste ano.

Poggio observa que a visão de política externa defendida por Trump e por seu secretário de Estado, Marco Rubio, é "uma visão de hegemonia nas Américas".

"Acho que Rubio é a principal pessoa (no governo Trump) que está tentando colocar a América Latina na agenda", complementa o cientista político Edgar Franco-Vivanco, especialista em política latino-americana e professor da Universidade de Michigan.

A interpretação do atual governo americano da Doutrina Monroe, de 1823, que defendia a predominância americana no continente, ficou conhecida como "Doutrina Donroe", em referência ao primeiro nome de Donald Trump. O atual governo defende "restaurar a proeminência americana no hemisfério ocidental".

Apoiadores de Flávio Bolsonaro seguram inflável de Donald Trump durante comício de 7 de Setembro em São Paulo.
Apoiadores de Flávio Bolsonaro seguram inflável de Donald Trump durante comício de 7 de Setembro em São Paulo.
Foto: REUTERS/Alexandre Meneghini / BBC News Brasil

Segurança

Uma questão central nesse cenário é a da segurança pública, que é prioridade tanto para os eleitores de vários países na América Latina quanto para a estratégia de Trump no continente.

Franco-Vivanco diz à BBC News Brasil que muitos eleitores latino-americanos estão decepcionados com as falhas de governos de esquerda em controlar a violência e agora querem tentar algo diferente. Isso abre uma vantagem para candidatos de direita.

"Pelo menos em eleições, a direita é muito boa em dizer que vai fazer algo sobre o problema", observa.

Entre os líderes de direita eleitos nos últimos anos com a promessa de combater a violência está Nayib Bukele, presidente de El Salvador, que reduziu a criminalidade em seu país, mas é criticado por supostos abusos de direitos humanos.

Muitos dos políticos de direita na América Latina alinhados a Trump estão abertos a maior cooperação com os Estados Unidos na área de segurança, inclusive com operações militares conjuntas.

O governo americano vem promovendo uma nova "guerra às drogas" na região e criou recentemente o chamado Escudo das Américas, iniciativa com o objetivo de ampliar a cooperação, a segurança e o combate ao narcotráfico, da qual o Brasil não faz parte.

A expectativa é a de que, sob um eventual governo Bolsonaro, o Brasil passasse a integrar o grupo.

O governo Trump também designou cartéis e facções criminosas da região como grupos terroristas. Foram incluídos nessa lista os grupos brasileiros Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), apesar da oposição do governo Lula.

"Na agenda política americana, sempre que se falava em América Latina, entrava a questão de migração, segurança, drogas. Mas, ao mesmo tempo, nunca foi prioridade na política externa americana", destaca Poggio.

"O governo Trump parece que está colocando a América Latina como prioridade. Nesse sentido, as coisas podem tomar um novo rumo, porque você tem uma administração que está prometendo, e que já fez, operações militares no continente", observa.

"A questão de colocar cartéis como organizações terroristas, a justificativa disso é utilizar ferramentas militares", afirma Poggio.

Manifestantes protestam no Rio de Janeiro contra o anúncio de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros impostas pelo governo Trump, em 10 de julho de 2025.
Manifestantes protestam no Rio de Janeiro contra o anúncio de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros impostas pelo governo Trump, em 10 de julho de 2025.
Foto: REUTERS/Pilar Olivares / BBC News Brasil

Tarifas e sanções

Diferentemente de vários pleitos em outros países da região, Trump até o momento não declarou apoio abertamente a nenhum dos candidatos no Brasil.

"Com certeza, o governo Trump prefere que Bolsonaro vença esta eleição, porque é um aliado mais próximo e há maior afinidade política entre eles. No entanto, não houve (até agora) apoio direto", salienta Franco-Vivanco.

No entanto, mesmo sem apoio declarado, há receio de tentativa de interferência. No ano passado, os Estados Unidos adotaram medidas contra o Brasil descritas como uma resposta "à caças às bruxas" sofrida pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

Entre as medidas estavam tarifas contra produtos brasileiros e sanções contra autoridades do país, entre elas o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Recentemente, o jornal Estado de S. Paulo revelou que, nas negociações na época, uma das demandas do governo Trump era a de que o Brasil permitisse a participação de "dissidentes políticos" no pleito deste ano. O lado brasileiro rejeitou os termos, lembrando que não há dissidentes no país, que é uma democracia.

No fim do ano passado, houve alívio das tarifas e sanções. Mas neste ano os Estados Unidos voltaram a impor novas tarifas contra produtos brasileiros, e autoridades de ambos os países tiveram vistos negados ou revogados.

Depois de uma visita de Lula a Washington, seu adversário, Flávio Bolsonaro, também foi recebido por Trump na Casa Branca. O anúncio da classificação do PCC e do CV como organizações terroristas, defendida por Bolsonaro, veio logo após essa visita.

Diante das ações do governo Trump desde o ano passado, a resposta de Lula foi a defesa da soberania, e pesquisas e analistas indicam que as medidas podem ter beneficiado o presidente brasileiro mais do que seu adversário.

"Qualquer declaração mais forte de Trump, o tiro pode sair pela culatra", resume Poggio, lembrando que, em diversos casos anteriores, o presidente americano declarou apoio a determinado candidato e acabou beneficiando o adversário.

Analistas avaliam que o governo americano prefere uma vitória do senador Flávio Bolsonaro na eleição brasileira.
Analistas avaliam que o governo americano prefere uma vitória do senador Flávio Bolsonaro na eleição brasileira.
Foto: Reuters/Adriano Machado / BBC News Brasil
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