Script = https://s1.trrsf.com/update-1790713512/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Brasil

Publicidade

Por que a doença de Newcastle voltou a preocupar a avicultura no Brasil e no mundo

5 nov 2026 - 11h36
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
A confirmação de quatro focos da doença de Newcastle em granjas de perus no Oeste de Santa Catarina levou 37 países a restringirem compras da avicultura brasileira e gerou emergência zoossanitária regional. Cerca de 80 mil aves foram sacrificadas para conter o vírus, cuja cepa se assemelha à de pombos. O risco para humanos é baixo e não afeta o consumo de carne e ovos. O cenário reflete uma alta global da doença, exigindo reforço em biossegurança e vacinação para conter impactos econômicos.

Focos em granjas de Santa Catarina levaram 37 países a restringir compras do Brasil. Notificações globais bateram recorde em 2025, com a Europa à frente.Entre 18 de outubro e 3 de novembro, foram confirmados quatro focos da doença de Newcastle em granjas comerciais de perus no Oeste de Santa Catarina. É a segunda vez em pouco mais de dois anos que a enfermidade atinge a avicultura comercial no Brasil, depois de quase duas décadas sem registros no país.

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) declarou emergência zoossanitária por 60 dias em quatro municípios: Nova Itaberaba, Coronel Freitas, Nova Erechim e Águas Frias. O ministério e a Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc) montaram uma força-tarefa na região. Em cerca de cinco dias, as equipes vistoriaram mais de 2,7 mil propriedades.

Os quatro focos têm o mesmo perfil: perus de corte, não vacinados (padrão para aves de corte), ligados à mesma empresa integradora, e nenhuma ave com sintomas. O vírus foi detectado na vigilância ativa, as coletas de rotina feitas pelo serviço veterinário oficial. O primeiro caso foi confirmado em 18 de outubro, em Nova Itaberaba. Depois vieram Coronel Freitas, em 24 de outubro, e Nova Erechim, que teve dois focos, em 26 de outubro e 3 de novembro.

A presidente da Cidasc, a médica veterinária Celles Regina de Matos, afirma que o momento é de atenção, não de alarme. "Nós terminamos as coletas bem antes de o laboratório conseguir terminar as análises."

Segundo ela, todos os casos saíram da primeira rodada de amostras e estão dentro da mesma zona de vigilância. Ou seja, refletem infecções que já existiam quando as coletas foram feitas, e não novas transmissões.

Das 93 granjas comerciais amostradas na zona, só três deram positivo além do foco inicial. Uma ainda aguarda resultado, e as demais foram negativas. No restante do estado, segundo Matos, o monitoramento não encontrou novos casos até agora.

A cada foco, o protocolo se repete. A granja é interditada, a movimentação de aves é suspensa e são traçados raios de três e de dez quilômetros ao redor da propriedade. Dentro desses raios, veterinários examinam as aves e coletam amostras em criações comerciais e de subsistência. Mesmo sem doença aparente, os plantéis infectados são sacrificados: cerca de 80 mil perus nas quatro granjas.

A doença de Newcastle é de notificação obrigatória no Brasil e integra a lista da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), por causa do impacto que pode ter na produção e no comércio. Qualquer suspeita precisa ser comunicada imediatamente ao serviço veterinário oficial.

Risco para humanos é baixo

O potencial zoonótico existe, mas a transmissão para pessoas é rara e costuma atingir só quem é exposto a grandes quantidades de vírus. Quem come carne de aves ou ovos não corre risco, de acordo com o Mapa.

Os poucos casos de infecção humana registrados na literatura científica não passaram, em geral, de conjuntivite, que desaparece em dias, sem tratamento. A médica veterinária Helena Lage, professora da USP e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, faz questão de não ser alarmista, mas lembra que há relatos de infecções letais em pacientes imunocomprometidos.

"Não são muitos, são três ou quatro relatos no mundo", diz. "Não é um vírus considerado de ameaça pandêmica", frisa.

Prejuízos econômicos são a maior preocupação

Para as aves, por outro lado, a doença pode ser devastadora. Causada por cepas virulentas do paramixovírus aviário tipo 1 (APMV-1), provoca corrimento no nariz e nos olhos, crista e barbela inchadas e arroxeadas, diarreia, torcicolo e paralisia das pernas. Nas formas mais graves, há hemorragias internas, morte súbita e mortalidade de até 100% das aves não vacinadas.

Impedir que a doença "invada" um país é, por isso, crucial, e o comércio é uma das portas. Apesar de a carne não oferecer risco a quem come, o vírus permanece presente em todas as partes da carcaça e pode sobreviver meses em carne refrigerada, segundo o Centro de Segurança Alimentar e Saúde Pública da Universidade Estadual de Iowa, nos EUA. Daí os embargos que costumam seguir a confirmação de um foco.

Até o fim de outubro, 37 destinos restringiram as compras do Brasil, segundo o Mapa. Só dois barraram o país inteiro: Uruguai e Malásia. Oito limitaram o veto a Santa Catarina, entre eles China e México, e os outros 27, de Japão e Arábia Saudita à União Europeia, restringiram apenas os quatro municípios em emergência.

"O problema da Newcastle é, principalmente, uma questão econômica", diz o médico veterinário Adriano Carrasco, da Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná (Unicentro). O efeito com os embargos é em cascata: atinge quem vende ração, medicamento e serviços às granjas.

O Brasil é o maior exportador de carne de frango do mundo, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Em 2025, embarcou 5,3 milhões de toneladas para 153 países. Santa Catarina é o segundo maior exportador do país (23,28% do total), atrás apenas do vizinho Paraná.

À DW, a associação disse que ainda não há estimativa de impactos e que a reação dos mercados, ao regionalizar as restrições, "diminuiu significativamente os eventuais impactos nas exportações".

Casos parecem ter relação com pombos

Segundo a presidente da Cidasc, a análise genética do vírus encontrado nos perus apontou 97,35% de semelhança com uma variante que circula entre pombos, o chamado "paramixovírus de pombo" (PPMV-1).

As variantes associadas a pombos pertencem em geral ao genótipo VI, um dos cerca de 20 grupos em que o vírus é dividido, e circulam no mundo todo entre essas aves, que adoecem, segundo Lage. No Brasil, o vírus já foi encontrado em pombos de vários estados, e circula no país ao menos desde 2014.

Lage, que estuda o vírus há anos, pede cautela. Para saber com precisão a que grupo ele pertence, é preciso comparar um trecho longo do código genético, e o Mapa, ao qual está ligado o laboratório de referência, não informou que trecho usou. Sem isso, não dá para confirmar se foram mesmo os pombos que levaram o vírus aos galpões.

Como exatamente o vírus chegou aos perus também segue em investigação, diz Matos. A avicultura brasileira segue uma legislação rígida, ancorada no tripé vacinação (obrigatória para aves de vida longa, como matrizes e poedeiras), vigilância e biossegurança - isto é, o conjunto de rotinas que impede o vírus de entrar nos galpões, como telas íntegras, troca de calçados e roupas na entrada, água tratada, ração e cama de aviário protegidas do contato com aves silvestres, por exemplo.

Mas falhas podem ocorrer, destacam os especialistas. Além disso, trata-se de um vírus traiçoeiro. "Ele é transmitido por via respiratória. É difícil impedir que aves silvestres voem nas proximidades das entradas de ar, e uma pena ou uma partícula pode ser carregada pelo vento", comenta Luizinho Caron, da Embrapa Suínos e Aves.

No mundo, as notificações crescem

Descoberta na década de 1950, a doença perdeu os holofotes na virada do milênio, ofuscada pela gripe aviária e contida pelas vacinas. Mas voltou a aparecer em países livres dela há décadas. Em 2025, a OMSA registrou 30 eventos em 15 países, o maior número desde 2005, quando passou a centralizar os dados em seu sistema. Em 2026, até o início de novembro, foram 18 eventos em 9 países.

A Europa puxa a conta, e a Polônia sozinha contabilizou 14 eventos em 2025. Desde 2023, uma linhagem agressiva do vírus, o genótipo VII, entrou na Europa pelo Leste várias vezes e de forma independente, segundo boletins do Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais do Reino Unido (Defra). A doença se espalhou primeiro pela Polônia, depois chegou à Alemanha, à Espanha e à Hungria.

"A Polônia teve um primeiro foco em 2023. Erradicou, mas o vírus voltou em 2024, e desde então eles não se livraram do vírus. Não da doença, mas do vírus. Então ele realmente teve a chance de estabelecer uma espécie de endemicidade. No fim, provavelmente é uma questão de acaso que, por contato, o vírus se espalhe para outras regiões", conta Christian Grund, do Instituto Friedrich Loeffler (FLI), referência alemã em saúde animal.

Apesar de parecer um fenômeno global, as crises não são idênticas. As cepas envolvidas são diferentes, assim como as formas de entrada e os cenários de cada país. É por isso que os especialistas não veem motivo para pânico: não parece se tratar de uma nova era da doença, mas de um vírus que nunca deixou de circular e volta a aparecer onde a vigilância aperta ou a vacinação pode ter afrouxado.

Difícil de erradicar

"Não dá para falarmos de erradicação de uma doença como essa, porque há muitas espécies silvestres envolvidas no ciclo", destaca Adriano Carrasco. São mais de 250 espécies que podem ser infectadas.

E o mapa da doença é desigual. Ela segue endêmica em boa parte da Ásia e da África, onde muitos países nunca alcançaram o selo de livre da doença.

Se a erradicação está fora do horizonte, o controle é a palavra da vez. Para os especialistas, dois pontos são centrais. O primeiro é reforçar a vigilância, para detectar rápido e isolar os focos. "Só quando você sabe onde o vírus está é que pode pensar em como combatê-lo", diz Grund.

O segundo é reforçar a estratégia de vacinação. "Há vacinas que são muito eficazes para o controle desse vírus. Estabelecendo o programa correto, fazendo a vacinação especialmente nas regiões onde há focos, é um vírus muito tranquilo de ser controlado", acrescenta Lage.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
Compartilhar
TAGS

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra