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Política

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Zohran Mamdani, prefeito de Nova York: "Se você não estiver disposto a lutar, nunca vai vencer"

O prefeito de Nova York fala sobre o futuro do Partido Democrata, o que aprendeu nos primeiros seis meses à frente da prefeitura, sua relação com o presidente Trump, o casamento de Taylor Swift e muito mais

4 ago 2026 - 13h43
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Zohran Mamdani e eu temos uma rivalidade séria. Ele é implacável. Seus ataques vêm de todos os lados, quando menos espero. Carisma, boa aparência, raciocínio rápido — apenas algumas das características que o tornaram o prefeito mais jovem de Nova York em uma geração, além de uma figura política nacional com poder para chacoalhar o Congresso e negociar de igual para igual com o presidente — são armas em suas mãos habilidosas. E agora sinto isso na pele por um motivo muito simples: sou um orgulhoso torcedor do Chelsea Football Club.

Prefeito de Nova York, Zohran Mamdani
Prefeito de Nova York, Zohran Mamdani
Foto: Bryan Bedder/Getty Images for The Coca Cola Company / Rolling Stone Brasil

"O que te levou a torcer para o Chelsea? Você é fã da Clearlake Capital?", ele me pergunta antes mesmo de as câmeras começarem a gravar, no histórico saguão da Gracie Mansion, para a Rolling Stone Interview. Ele está tirando sarro do fato de que meu time pertence a uma gigantesca empresa americana de private equity, que gastou US$ 1,5 bilhão em novos jogadores apenas para terminar esta temporada na décima colocação da Premier League inglesa. O prefeito torce para o Arsenal, rival londrino que terminou em primeiro lugar. Ele também demonstra igual indignação com meu apoio à seleção da Inglaterra na Copa do Mundo. "Cara, por quêêêê?" pergunta, fazendo uma careta.

Eu sabia que essas opiniões seriam polêmicas, mas não estava preparado para a violência verbal que provocariam. Protesto, alfineto o antigo patrocínio do Arsenal pela Emirates Airlines, companhia aérea de Dubai, e culpo minhas preferências futebolísticas pelo fato de meu pai ser inglês. Nada funciona. As covinhas no rosto de Mamdani parecem apontadas para mim como o cano duplo de uma espingarda. Ele sorri. Sorri sem parar.

Essa dinâmica se repete várias vezes ao longo da entrevista, sempre que o assunto é esporte. Começo a entender como o ex-governador Andrew Cuomo deve ter se sentido naquele debate de junho do ano passado, sendo impiedosamente atacado por um socialista democrático sorridente vestindo um terno de corte impecável. Se Zohran Mamdani quer derrubar você, a lâmina dele está sempre afiada.

Desde sua vitória decisiva sobre Andrew Cuomo, em novembro do ano passado, o nome de Mamdani está na boca de todos. Para a direita, ele é o bicho-papão que personifica seus maiores temores: um homem muçulmano de origem sul-asiática que defende uma redistribuição radical de riqueza e que, segundo seus críticos, implantaria a Sharia em toda a cidade. Para a esquerda, Mamdani é o salvador bem-humorado da disfunção crônica de Nova York e o catalisador de mudanças em um sistema político nacional há muito dominado por democratas centristas inertes e por uma extrema direita cada vez mais agressiva.

Nos primeiros seis meses de seu governo, porém, ele não se comportou como nenhuma dessas caricaturas. Em vez disso, governou: costurou acordos com o governo estadual, o Conselho Municipal e as poderosas forças que compõem o ecossistema político de Nova York. E, nas primárias de junho em Nova York, colocou seu capital político em jogo ao apoiar uma chapa de candidatos progressistas para cargos estaduais e federais, derrotando diversos ocupantes de mandato e deixando claro que estava disposto a comprar brigas dentro do próprio partido.

Mamdani é, portanto, uma força rara na política democrata contemporânea. O carisma é genuíno, mas também é uma ferramenta. Os ideais são sinceros, mas também representam um desafio. Sua equipe, pelo que pude perceber, o admira profundamente, mas não há dúvidas sobre o poder que ele passou a exercer. Durante a campanha, era apenas "Z" — um senador estadual que não estava tão distante dos tempos em que batia de porta em porta fazendo campanha para outros candidatos. Depois da vitória, porém, não há mais apelidos. Todos o chamam de "Prefeito". Queiram ou não, todos os demais também precisam fazer o mesmo.

https://www.youtube.com/watch?v=Ny9nVB-cp10

Você vem de uma grande noite de eleições primárias, na qual apoiou vários candidatos socialistas democráticos com pouca experiência em cargos públicos. Em certa medida, isso representava um grande risco para seu capital político, e o resultado foi uma vitória completa. Como foi aquela terça-feira à noite? Como ela se comparou à noite de um ano antes, quando você venceu sua própria primária?

Foi uma noite incrível. Ver o que aquilo significou para tantas partes diferentes da nossa cidade, viajar para os eventos de cada um deles e perceber que, não importa em que bairro ou distrito você mora, os nova-iorquinos estavam sedentos por mudança. Foi extraordinário.

Você teve algum momento de déjà vu?

Muitas das pessoas que estavam no coração da nossa campanha se dedicaram intensamente a essas disputas. Isso mostra que, para muitos de nós, nunca se tratou de um único cargo — sempre foi um movimento em defesa dos trabalhadores. A Darializa [Avila Chevalier, que derrotou nas primárias o líder do Caucus Hispânico da Câmara, Adriano Espaillat], por exemplo, foi coordenadora de campo da nossa campanha para a prefeitura. Enquanto caminhávamos pelo distrito dela, encontramos um dos coordenadores de campo, que me contou ter começado como voluntário treinado pela Darializa há mais de um ano. É exatamente isso que queremos construir: um movimento que esteja na linha de frente sempre que houver uma luta em defesa dos trabalhadores.

Darializa é uma ex-ativista e foi criticada durante a campanha por antigas publicações nas redes sociais elogiando a ideologia comunista, defendendo a extinção da polícia e, em certo momento, publicando um "F* Kamala Harris". Para muita gente, ela parece ser mais um bicho-papão do que o socialismo poderia trazer. O que você disse a ela sobre como lidar com essa reação?

Eu disse, antes de tudo, que isso só acontece quando existe uma chance real de vitória. Isso reflete o desespero que algumas pessoas sentem diante da possibilidade de um novo capítulo na política da nossa cidade. Para a imensa maioria dos eleitores daquele distrito, essas não são as questões que importam. Os moradores do 13º Distrito Congressional de Nova York querem saber se terão uma representante disposta a lutar por eles em uma cidade que é a mais cara dos Estados Unidos. É um dos distritos eleitorais mais pobres do país. Grande parte do que vimos — a campanha do medo e o racismo explícito — foi uma tentativa de desviar a atenção do fato de que Darializa entregaria exatamente essa visão para esses trabalhadores.

Você disse que a espinha dorsal do seu movimento tem sido pessoas que passaram de coordenadores de campo e ativistas a candidatos. Que conselho você dá para quem pensa em fazer essa transição?

O que eu diria é que, para disputar um cargo, a pergunta central precisa ser: "Por que você está fazendo isso?". Se a resposta for "pelos trabalhadores", você vai descobrir que há muito mais pessoas dispostas a estar ao seu lado nessa luta.

A desigualdade de renda e a falta de condições para que as pessoas consigam viver com dignidade não são problemas exclusivos da cidade de Nova York. São dificuldades sentidas por americanos em todo o país. Eles estão cansados de uma política que, na prática, está falida — seja politicamente, moralmente ou economicamente. E procuram algo que realmente dialogue com suas necessidades.

Este ciclo eleitoral foi o momento em que vimos você jogar mais pesado politicamente. Vários dos apoios que você declarou contrariaram os desejos da ala centrista do Partido Democrata. Por que você achou que era o momento certo para assumir esse risco?

Há pouco mais de um ano, prometi aos nova-iorquinos que usaria todas as ferramentas à minha disposição para implementar uma agenda voltada à redução do custo de vida. Quando você luta por quem foi deixado para trás, sempre haverá riscos. Sempre será mais fácil abandonar essa luta.

Penso frequentemente nas palavras de Tim Walz sobre capital político. Parafraseando: de que adianta tê-lo se você não o usa para ajudar os trabalhadores? Foi nisso que pensei naquele momento. A consistência, a clareza e a convicção que marcaram essas três disputas para o Congresso me levaram a tomar essa decisão.

A disputa nacional entre democratas centristas e a ala mais à esquerda ganhou enorme destaque. O ex-presidente do Comitê Nacional Democrata (DNC), Jaime Harrison, publicou na noite da eleição: "Digo isso sem má vontade nem animosidade. Se você odeia o Partido Democrata, então, por favor, não concorra à nossa indicação." Ele não citou você nem nenhum desses candidatos pelo nome, mas a crítica parece bastante direta. Como você responde?

Normalmente, quando alguém diz "não há má vontade nem animosidade", o que vem em seguida costuma ser justamente carregado de má vontade e animosidade.

Mas, no fim das contas, a pergunta que faço é: o que é o Partido Democrata, senão seus próprios eleitores? Se você observa o que os democratas estão escolhendo nos distritos 13, 7 e 10 de Nova York e diz que isso não representa o partido, talvez realmente não represente aquilo em que o partido acabou se transformando — uma estrutura comandada por consultores muito bem pagos e por grandes interesses financeiros. Mas representa, sim, o que os próprios democratas querem ver. Representa também o fato de que, neste país, existe apenas uma maioria: a classe trabalhadora.

É claro que existe uma diferença entre promessas de campanha e aquilo que realmente é possível entregar. O que foi muito mais difícil de realizar depois que você assumiu o cargo do que parecia durante a campanha?

Costuma-se dizer que fazer campanha é fácil e governar é difícil. Mas, durante uma campanha, você está pedindo que as pessoas acreditem em algo apesar das próprias experiências delas. O que eu gosto em governar é que isso traz a oportunidade de entregar resultados.

Nos últimos seis meses, transformamos uma questão que antes era apenas intelectual — "como seria administrar uma cidade com base no socialismo democrático?" — em realidade. Tapamos mais de 165 mil buracos nas ruas. Recuperamos dezenas de milhões de dólares para inquilinos que haviam sido prejudicados por seus proprietários. Colocamos a cidade no caminho da educação infantil universal, economizando mais de US$ 20 mil por ano para muitas famílias. Fizemos tudo isso enquanto registramos o menor número de homicídios e tiroteios da história de Nova York e iniciamos a implementação da mais ambiciosa agenda de moradia acessível em gerações.

Certo. Mas vi você receber críticas até mesmo de alguns apoiadores mais à esquerda, à medida que precisou moderar algumas dessas propostas e promessas. Há momentos em que você sente que precisa fazer concessões em áreas nas quais preferia não ceder?

O trabalho é difícil por natureza. Você está tentando entregar resultados para oito milhões e meio de pessoas, muitas das quais passaram a vida experimentando a política como uma sucessão de decepções. Minha bússola sempre aponta para aqueles que foram expulsos da cidade pelo alto custo de vida. O que descobri é que existe muito mais coisa possível de fazer do que nos disseram no passado.

Nunca vou dizer que esse trabalho é fácil ou simples. Ele é extremamente difícil. Mas existe um caminho para cumprir aquilo que você prometeu durante a campanha. Isso leva tempo. O que mostramos é que, mesmo em apenas seis meses, é possível colocar a cidade em uma trajetória diferente.

Muitas das ideias que fizeram parte da sua campanha não pareceriam tão radicais para o establishment político da época de Franklin D. Roosevelt. Por que você acha que hoje elas são vistas como impossibilidades políticas?

Durante muito tempo, esse tipo de ideia — aquilo que o Partido Democrata poderia defender e pelo que poderia lutar — parecia existir apenas nos livros de história. Pense na síntese dessa visão nas Quatro Liberdades [os princípios apresentados por Franklin D. Roosevelt em seu discurso sobre o Estado da União, em 1941: liberdade de expressão, liberdade de culto, liberdade de viver sem necessidades e liberdade de viver sem medo].

Se essas quatro liberdades fossem apresentadas hoje, seriam vistas como uma proposta radical para os Estados Unidos, quando, na verdade, representam exatamente aquilo que faz tantos americanos se orgulharem de ser democratas — e o que me faz ter orgulho de ser democrata. Isso reflete uma história recente em que nosso partido passou a representar mais uma classe de consultores e interesses especiais do que as necessidades da classe trabalhadora.

"A esperança é uma responsabilidade. Quando você a compartilha com outras pessoas, também assume o dever de corresponder a ela."

Você diz que tem orgulho de ser democrata. Acha que seu movimento pode coexistir com a ala centrista do Partido Democrata ou esta é realmente uma disputa existencial sobre o rumo da legenda?

Acredito que todos nós fazemos parte da grande coalizão que é o Partido Democrata. A questão diante de nós é: "Para onde queremos ir e que partido queremos ser?" Os republicanos parecem ter uma ambição praticamente ilimitada em relação ao que desejam conquistar. Já nós parecemos construir um teto de possibilidades cada vez mais baixo. Em 2028, teremos a oportunidade de deixar para trás a atual administração federal. A pergunta então é: ir para onde? Acho que chegou a hora não apenas de apresentar uma visão, mas também de concretizá-la.

O que estamos mostrando aqui em Nova York é que é possível colocar novamente a classe trabalhadora no centro da política e, ao mesmo tempo, entregar resultados para ela. Durante muito tempo, os nova-iorquinos foram levados a acreditar que precisavam escolher entre qualidade de vida e uma cidade com grandes ambições. Está na hora de mostrar que é possível ter as duas coisas.

Como seria, idealmente, um Partido Democrata em âmbito nacional?

Seria um partido que começasse perguntando: "Quais são as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores?" E que respondesse a essa pergunta explicando o que pretende fazer para tornar suas vidas mais fáceis.

Acredito que nossa política precisa ir além de um exercício intelectual; precisa produzir efeitos concretos. Se não conseguimos explicar como nossas propostas ajudam as pessoas a pagar o aluguel, comprar alimentos ou custear a creche dos filhos, então a política parece apenas um hobby que alguns podem se dar ao luxo de praticar.

Um comentário que tenho visto muito nas redes sociais sobre seus primeiros seis meses de governo é algo como: "Aparentemente, dá para simplesmente fazer as coisas". Qual conquista da qual você mais se orgulha não fazia parte das promessas de campanha?

No primeiro dia da nossa administração, logo após a posse, fui visitar um grupo de inquilinos que morava em um prédio administrado por uma empresa do setor imobiliário contra a qual eles já haviam feito inúmeras reclamações. Entrei no apartamento de uma das moradoras, e ela me mostrou o banheiro. Havia ferrugem caindo dos canos e do teto. Perguntei há quanto tempo ela vivia naquela situação. Ela se virou, apontou para o filho e respondeu: "Há mais tempo do que ele está vivo". O rapaz já tinha mais de 20 anos.

Decidimos então entrar com uma ação judicial em nome daqueles moradores. Apenas o fato de termos processado a empresa fez com que o novo proprietário concordasse em corrigir todas as irregularidades daquele prédio e de outros edifícios pertencentes ao mesmo grupo imobiliário.

Para mim, isso demonstra o valor de lutar. Porque, se você não estiver disposto a lutar, nunca será capaz de vencer.

Mas também é preciso implementar essas mudanças de forma sistêmica. Como você sabe melhor do que eu, a NYCHA — a Autoridade de Habitação da Cidade de Nova York, responsável pela moradia pública — é um dos proprietários que mais recebe reclamações na cidade.

Às vezes, o caráter sistêmico de um problema é usado como justificativa para dizer que não é possível fazer nada no curto prazo. Ouvimos muitas pessoas dizerem: "A NYCHA tem US$ 80 bilhões em necessidades de investimento. Essa é uma responsabilidade do governo federal. Precisamos que Washington aja." Tudo isso é verdade.

Também sabemos que, independentemente de haver um governo democrata ou republicano, a NYCHA continua enfrentando essas necessidades de investimento. Se esperarmos que Washington tome uma atitude antes de fazermos qualquer coisa, estaremos deixando centenas de milhares de moradores de habitações públicas esperando pelos anos que forem necessários até que a capital do país finalmente volte a olhar para eles.

Nós vamos investir recursos além do que a cidade já fez anteriormente. Quase dobramos o compromisso de investimentos da prefeitura com a NYCHA.

Parte da razão pela qual você enfrenta perguntas como essa é que se tornou o rosto de um movimento na política americana. Mas, quando você se torna o rosto de alguma coisa, acaba sendo responsabilizado por tudo o que as pessoas querem associar a você. Já vi desde o assassinato de Charlie Kirk até a decisão da FIFA de anular o cartão vermelho do jogador americano Folarin Balogun na Copa do Mundo serem atribuídos a você. Como decide a quais críticas sente que tem a responsabilidade de responder?

Se elas afetam os trabalhadores nova-iorquinos. Existe uma diferença entre o debate que acontece nas redes e aquilo que realmente preocupa as pessoas desta cidade.

Você é bom nisso.

Obrigado.

Todo mundo que já viu você, conheceu você ou entrevistou você diz a mesma coisa: que você é um político muito talentoso. Às vezes isso não é dito como um elogio. O que significa, para você, ser um bom político?

Acho que significa entregar resultados. Durante muito tempo, ser um bom político significava debater bem. O que nós queremos é produzir resultados concretos. Se você bater na porta de um nova-iorquino hoje e perguntar qual é sua principal preocupação, a resposta será, quase sempre, o custo de vida.

Como você mede seu próprio desempenho? O que o preocupa, em particular, em relação ao que talvez não consiga entregar?

Volto frequentemente ao motivo pelo qual tantos nova-iorquinos bateram de porta em porta durante nossa campanha. O que os levou a fazer isso? A esperança é uma responsabilidade. Quando você a compartilha com outras pessoas, também assume o dever de corresponder a ela.

"Eu me sinto como um tio que abre o armário e encontra sempre a mesma roupa. Um salve para os ternos."

Quando falamos em oferecer 2 mil vagas gratuitas em creches para crianças de dois anos neste ano, 12 mil no próximo e uma vaga para toda criança de dois anos até o fim do mandato, faço questão de deixar claro que isso não é uma conquista minha. É a conquista de todas as pessoas que subiram seis andares de escada em prédios sem elevador, bateram de porta em porta e disseram às pessoas que era possível conquistar um mundo em que uma creche não custasse US$ 20 mil por ano. Quero avaliar nosso governo pela capacidade de entregar resultados tanto para quem bateu às portas quanto para quem abriu a porta.

Tenho curiosidade sobre sua criação, que foi tão tipicamente nova-iorquina quanto possível para alguém que chegou aqui aos sete anos. Como essa formação cultural moldou sua visão de mundo e sua política? Suas referências musicais, por exemplo, aparecem o tempo todo.

Algumas das minhas primeiras lembranças são de Nova York. Eu adorava ir à Tower Records. Acho que ficava na Rua 66 com a Broadway. Havia andares inteiros repletos de CDs. Na época eu adorava o Offspring.

Um clássico. Um clássico daquela época.

O primeiro álbum que ganhei foi a versão censurada de The Blueprint, do Jay-Z. Também vendiam CDs piratas bem na frente da Tower Records, e foi lá que comprei um clássico absoluto do Eiffel 65. Muita gente só conhece a banda por "Blue (Da Ba Dee)", mas "Too Much of Heaven" é uma música excelente.

O que você está ouvindo atualmente?

Tenho escutado bastante Radio & Weasel, uma dupla de Uganda que dominou as paradas por muito tempo. Também tenho ouvido o rapper paquistanês Shamoon Ismail, que acompanho há alguns anos. Quando estou em um clima mais reflexivo, coloco Kacey Musgraves.

O álbum novo foi ótimo.

Eu ainda estou ouvindo Golden Hour.

É sempre engraçado ouvir essas referências culturais vindas de alguém que transformou em marca registrada usar terno o tempo todo. Fale sobre essa escolha de estilo.

Eu me sinto como um tio que abre o armário e encontra sempre a mesma roupa, repetidas vezes. Enfim, um salve para os ternos.

Uma das coisas que mais me incomodam em políticos — e não leve para o lado pessoal — é usar camiseta por cima de uma camisa de botão.

Nossa... Eu faço isso às vezes.

Eu sei, eu sei. Já vi você fazendo isso, e não é um ataque pessoal.

Estou encarando como se fosse.

E, claro, sabemos que você ama esportes. Como surgiu esse interesse?

Tenho que dar o crédito ao meu tio. Foi ele quem me apresentou ao Arsenal no fim dos anos 1990, começo dos anos 2000. Nasci em Uganda, na África Oriental. Eu diria que o Arsenal é o clube com maior torcida em Uganda. Muito disso tem a ver com a história de jogadores africanos no time: Kanu, Lauren, Kolo Touré, Emmanuel Eboué, Alex Song... Vou até citar um jogador que ainda me causa dor — Emmanuel Adebayor.

Minha primeira lembrança de uma Copa do Mundo provavelmente também é de 1998, quando me apaixonei pelo Zizou [o francês de origem argelina Zinedine Zidane]. Que jogador extraordinário. A primeira vez que meu pai me deixou faltar à escola foi quando a França enfrentou Senegal [na Copa do Mundo de 2002]. O amor dele pela educação não teve nenhuma chance diante do pan-africanismo. Ficamos em casa vendo Papa Bouba Diop marcar contra Fabien Barthez. Essa é uma das minhas primeiras lembranças.

Como você usa esse conhecimento sobre esportes para se conectar com as pessoas?

Acho que, para muita gente, o esporte é praticamente sua primeira língua. Quando você conversa com alguém para quem o inglês é claramente a segunda, terceira ou quarta língua, de certa forma está falando apenas com uma parte daquela pessoa. Você não está vendo quem ela realmente é por completo. Mas, quando fala sobre esporte — seja futebol, basquete ou qualquer outra modalidade —, é como se toda a personalidade daquela pessoa finalmente aparecesse.

Tudo bem, a parte dos esportes era para aparecer para o fim. Precisamos falar sobre Donald Trump. Seu encontro com o presidente na Casa Branca foi um dos momentos mais marcantes do começo do seu mandato como prefeito. Como está essa relação hoje?

A relação continua sendo a mesma. Ela gira em torno da cidade de Nova York. Apesar das muitas divergências que temos, existe algo que compartilhamos: o amor por esta cidade.

Você sente que precisa alimentar um pouco o ego de Trump nesses encontros para manter a cidade fora da mira dele? Existe um receio de que o que aconteceu com o ICE e com a Guarda Nacional em cidades como Minneapolis e Los Angeles possa acontecer também em Nova York.

Acho que preciso continuar sendo honesto com o presidente, e essa honestidade passa justamente pelos nossos desacordos. Já disse diretamente a ele que considero o ICE uma agência cruel, que não faz nada para promover a segurança pública. Também já afirmei que acredito que ela deveria ser extinta.

"É difícil se preparar para ameaças de morte. Passei a aceitá-las como parte do trabalho que faço."

O que você acha do fato de ele dizer constantemente que você é muito bonito?

Obrigado?

Acho que vamos aceitar isso. O segundo mandato dele tem sido muito mais duro com outras cidades, mas Nova York também não escapou dos efeitos das políticas de Trump.

A crueldade do ICE não é uma preocupação abstrata para nossa cidade. Há nova-iorquinos que tiveram suas famílias separadas por essa agência. Recebo mensagens regularmente, tanto de pessoas que conheço quanto de pessoas com quem nunca falei, pedindo ajuda. Seja quando falamos de saúde pública ou do SNAP (programa federal de assistência alimentar), as políticas do governo federal estão tornando mais difícil viver nesta cidade. Estamos fazendo tudo o que podemos para combater os efeitos desses cortes. Mas há um limite para o que uma cidade consegue fazer diante de políticas federais que buscam desmontar esses programas. Isso terá um impacto real sobre um número incalculável de nova-iorquinos nos cinco distritos da cidade.

Outro tema nacional que se tornou cada vez mais relevante para qualquer político americano é Israel e Gaza. Por que você considera importante que o prefeito de Nova York tenha uma posição clara sobre esse assunto?

Minha visão política não admite exceções. Quando falo da importância da dignidade humana, do direito internacional e dos direitos humanos, estou falando de princípios que devem valer para todas as pessoas. Durante muito tempo vimos uma disposição em excluir os palestinos desses mesmos princípios. Quanto mais você aceita abrir exceções para suas convicções, maior é a chance de acabar perdendo essas convicções por completo.

Onde essas convicções foram formadas?

Desde muito jovem, sempre que eu percebia uma contradição entre aquilo em que dizíamos acreditar e aquilo que estávamos dispostos a fazer, era algo que eu simplesmente não conseguia ignorar. Quanto mais tempo você passa na política, mais escuta que "as coisas simplesmente são assim". Para mim, isso nunca foi uma resposta suficiente.

Pergunto isso porque esse é, talvez, um dos temas mais divisivos da atualidade e também um dos assuntos que geraram as críticas mais intensas contra você — inclusive na vida pessoal. Sua esposa, a artista Rama Duwaji, também foi alvo de críticas por suas posições sobre Israel e Gaza. Como vocês dois lidaram com isso?

É difícil se preparar para receber ameaças de morte. É difícil se preparar para receber uma ligação de um promotor informando que uma pessoa de outro estado será indiciada pelo que disse e pelo que pretendia fazer contra você.

Quando você está disposto a defender todas as pessoas, há consequências. Evidentemente, isso acontece em uma escala diferente agora que estou aqui diante de você como prefeito. Mas mesmo quando eu era deputado estadual e dizia que era inaceitável enviarmos bilhões de dólares para matar palestinos inocentes, eu já recebia mensagens de voz com ameaças muito semelhantes. Passei a aceitar isso como parte do trabalho que faço. O que continua sendo muito difícil de aceitar é o impacto sobre as pessoas que amo.

Você ouve políticos falarem sobre isso e, num primeiro momento, parece um clichê. Mas, quando você vive essa realidade, entende plenamente o peso que esse trabalho impõe às pessoas que você ama e àquelas que estão ao seu redor. Isso transforma a vida de todos.

Como estamos conversando em 6 de julho, preciso abordar o elefante na sala: o casamento de Taylor Swift, que aconteceu há dois dias. Há quanto tempo você sabia que ela planejava realizar um grande evento na cidade?

Tínhamos um indício de que um pedido de autorização seria apresentado, mas foi apenas pouco antes do casamento que esse pedido realmente chegou.

Então ela deixou tudo para a última hora.

No que diz respeito ao que a cidade precisava fazer, o pedido foi apresentado pouco antes do casamento. Mas nossa responsabilidade também é nos prepararmos para qualquer eventualidade e garantir que estejamos prontos para responder a ela.

Você recebeu algum retorno dos diversos órgãos envolvidos?

De modo geral, acho que os serviços da cidade desempenharam muito bem seu papel.

Pronto, então essa era a...

Achei que você estava perguntando sobre os convidados, se eles tinham se divertido. Pensei: "Não faço a menor ideia."

Bom, eu ia perguntar se você foi convidado.

Não.

É uma pena. Ela que saiu perdendo.

[Risos.] Não. Estou bem assim.

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