Vulcões submarinos não são responsáveis pelo El Niño, nem por aquecer oceanos
POSTAGEM QUESTIONA O PAPEL DO EFEITO ESTUFA NA CRISE CLIMÁTICA; ALEGAÇÃO CONTRARIA DADOS E ESTUDOS CIENTÍFICOS CONSENSUAIS SOBRE O TEMA
É falso que vulcões submarinos causem o El Niño ou aqueçam os mares. Cientistas explicam que o calor dessas erupções pontuais se dissipa rapidamente no imenso volume de água, sem alterar o clima. Dados de monitoramento provam que o aquecimento marinho ocorre de cima para baixo, limitado a até 300 metros da superfície, resultante direto do efeito estufa intensificado pela ação humana. O El Niño deriva de uma interação complexa entre ventos, radiação solar e atmosfera, sem relação com magma submarino.
O que estão compartilhando: que o aquecimento dos mares está relacionado a terremotos submarinos que liberam "fogo" nas águas. O calor observado nos oceanos é originado "de baixo para cima", e não resultado do aquecimento da atmosfera.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. O vídeo busca relacionar o aumento de temperatura do Oceano Pacífico provocado pelo El Niño a erupções vulcânicas submarinas. É um argumento que contraria fatos consensuais na comunidade científica e nos estudos sobre o chamado efeito estufa.
Erupções vulcânicas subaquáticas são movimentos geofísicos naturais recorrentes em diferentes regiões do mundo. Mas elas ocorrem em locais que podem estar a quilômetros da superfície, são pontuais e não têm efeito na alteração da temperatura marinha.
Embora exiba imagens semelhantes às de registros reais, o vídeo busca relacionar, com sensacionalismo, o aquecimento do oceano a erupções vulcânicas submarinas, que são um fenômeno comum documentado e estudado por cientistas.
Assim como os vulcões continentais, os vulcões submarinos são mais frequentes onde as placas tectônicas se movem em direção de choque ou de afastamento umas das outras. Fissuras decorrentes desses movimentos liberam o magma incandescente característico. Em contato com a água em grande volume e pressão, esse caldo luminoso resfria e origina formações rochosas que alteram a crosta oceânica e o relevo submarino.
O aquecimento causado por essas erupções é rapidamente dissipado, explicou o climatologista Gilvan Sampaio, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). "Um vulcão submerso no oceano provoca um aquecimento ali no local", disse. "Para aquecer a água precisa de muita energia, e a massa do oceano é muito grande. É mais ou menos como se você pegasse um fósforo e colocasse numa panela com água, ele apaga rapidamente. A mesma coisa é o vulcão submerso."
Além dos efeitos do impacto e do afastamento de camadas da Terra, existem no fundo do mar os chamados "pontos quentes", que lançam do interior do planeta jatos de magma. Este fenômeno originou cadeias de ilhas como as do Havaí.
Estimativa da Universidade do Oregon, dos Estados Unidos, aponta a existência de mais de um milhão de vulcões subaquáticos nas principais bacias oceânicas da Terra. Cerca de 75% de toda a atividade vulcânica ocorre no fundo dos oceanos, a uma profundidade média de 2.600 metros.
Sampaio destacou que o único impacto vulcânico no clima do planeta ocorre nas erupções de grandes dimensões localizadas no continente, não nas submersas. A razão está nas cinzas que avançam ao segundo andar da atmosfera, chamado de estratosfera. "Em um planeta com mais cinzas na estratosfera, chega menos radiação solar na superfície", explicou. "Quando há grandes erupções vulcânicas, há um resfriamento do planeta."
O pesquisador observou que esse tipo de erupção é raro, como a que ocorreu em 1991 no Monte Pinatubo, nas Filipinas. "Observamos que em 1991, 1992 e 1993 houve uma pequena queda no aquecimento do planeta. Essa é a contribuição dos vulcões de fato para o clima."
Sampaio ressaltou em sua análise um ponto consensual. O aquecimento dos oceanos, assim como o da atmosfera, resulta da intensificação do efeito estufa. Ele está associado às emissões de gases oriundos de atividades humanas, principalmente a queima de combustíveis de origem fóssil (gasolina, óleo diesel e outros) e de carvão mineral, em especial na produção de energia em usinas termoelétricas. Outros elementos importantes nessa degradação ambiental são o desmatamento e as queimadas, que liberam grandes quantidades de gás carbônico.
Em relação ao suposto efeito das erupções submarinas no El Niño, o pesquisador do Inpe desmentiu a alegação com informações técnicas. "Existem, desde o final da década de 1980, sistemas de monitoramento oceânico com boias ancoradas no Pacífico, no Atlântico e no Índico, que medem em profundidade de até 500 metros, algumas chegam a muito mais. Observamos que o aquecimento dos oceanos quando temos o El Niño se dá no máximo até 300 metros de profundidade. Ou seja, é justamente a atmosfera que aquece os oceanos, e não o contrário, com vulcões submersos."
Esse monitoramento, destacou ele, mostra que a temperatura do mar além de 200 metros cai muito. Em torno de 400 a 500 metros de profundidade, a água está abaixo de 10ºC. "O aquecimento do Oceano Pacífico ao longo do Equador provocado pelo El Niño se dá por uma interação muito complexa entre a atmosfera, o oceano e a radiação solar. Em média, ocorre um episódio assim entre dois e sete anos."
A conjunção de fatores que formam o El Niño, basicamente, envolve a seguinte configuração no Pacífico: próximo da costa oeste da América do Sul há águas frias; próximo da Indonésia há águas quentes. Quando ocorre o El Niño, os ventos que sopram de leste para oeste ficam mais fracos, e as águas quentes da região da Indonésia começam a fluir em direção à costa da América do Sul.
"É um sistema que interage diretamente entre a atmosfera e o oceano", concluiu Gilvan Sampaio. "Sabemos com absoluta certeza que não há nenhuma influência de erupções vulcânicas na formação do El Niño."
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