Vorcaro ameaçou repórter do Estadão por revelar crimes do Master: 'Entrar com criminal'
Em conversa no WhatsApp, a CEO do portal Metrópoles comentou a intimidação judicial contra o repórter: 'Não tem nada mais chato para o repórter que responder criminal'; procurada, ela não se manifestou
O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ameaçou processar criminalmente um repórter do Estadão após revelações de suspeitas de crimes financeiros e fraudes na instituição. Segundo a CVM, o banco realizou aportes bilionários em empresas de fachada e ligadas à irmã de Vorcaro para inflar artificialmente o patrimônio antes de uma venda ao BRB. A intimidação foi dita em mensagens à CEO do Metrópoles, Lilian Tahan, que comentou sobre o incômodo enfrentado por jornalistas em ações criminais.
BRASÍLIA - O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ameaçou processar criminalmente um repórter do Estadão após a publicação de uma reportagem que revelou de forma inédita a existência de indícios de crimes financeiros na instituição. A intimidação foi compartilhada no WhatsApp com a CEO do portal Metrópoles, Lilian Tahan, que comentou: "Não tem nada mais chato para o repórter que responder criminal".
Procurada pelo Estadão, Lilian Tahan não respondeu. O espaço segue aberto.
O diálogo ocorreu na manhã de 20 de agosto de 2025. Naquela data, o Estadão publicou uma reportagem revelando a existência de um relatório da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sobre suspeitas de desvios milionários do Banco Master.
De acordo com a investigação, o Banco Master investiu R$ 2,1 bilhões em empresas sem capacidade económica para dar retorno aos aportes. A principal suspeita do órgão regulador é de que estas operações serviram para aumentar artificialmente o património da instituição, com o intuito de a tornar mais atrativa na negociação de venda de 58% do seu capital ao Banco de Brasília (BRB).
O esquema envolvia a injeção de recursos em empresas de fachada — como uma pequena clínica registada em nome de uma recepcionista — e em companhias vinculadas à irmã de Daniel Vorcaro. O relatório concluiu existirem indícios do crime de gestão fraudulenta, alertando que a manobra "pode comprometer severamente a solidez patrimonial da instituição financeira".
Às 8h24, Tahan lhe escreveu: "Então, muito ruim a manchete do Estadão. Eu pedi para verificarem como será a repercussão na parte da manhã".
Em seguida, o banqueiro fez uma série de críticas à reportagem. "Vamos entrar com criminal. Nao existe processo. Nao existe nada. Colocar que tem ligação com minha irma porque o escritorio contabilidade que a empresa usa é o mesmo. Essas coisas nao da pra deixar mais", escreveu por mensagens de WhatsApp. Após a ameaça de entrar com processo criminal contra o repórter do Estadão, Tahan comentou: "Não tem nada mais chato para o repórter que responder criminal".
Vorcaro mencionou a sua irmã, Natália, porque, em uma segunda reportagem publicada na mesma data, o Estadão revelou que o Master fez aportes de R$ 1,2 bilhão em empresas vinculadas a ela. Foi a primeira vez que o nome de Natália surgiu vinculado a suspeitas de crimes financeiros.
A auditoria rastreou que a modesta clínica médica (que recebeu R$ 361 milhões) e a empresa Del Participações, administrada pela irmã do banqueiro, compartilhavam não apenas a contabilidade, mas uma intrincada teia de sócios. Para a CVM, as operações indicavam uma fraude estruturada com o objetivo de inflar artificialmente o patrimônio do banco e fazer o dinheiro retornar ao próprio grupo familiar de Vorcaro — manobra que, no início deste ano, transformaria Natália em alvo de buscas e apreensões da Polícia Federal.
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