Vereador de Angra dos Reis é alvo de operação da PF contra funcionários fantasmas
Policial militar e filiado ao PL, Greg Duarte é investigado por nomeação irregular de assessores. Assessora que cursa medicina em tempo integral em Juiz de Fora recebe R$ 7 mil mensais
A Polícia Federal cumpriu nesta terça-feira, 24, cinco mandados de busca e apreensão contra o vereador Greg Duarte (PL), de Angra dos Reis (RJ), e outras três pessoas suspeitas de integrar um esquema de assessores fantasmas na Câmara Municipal. Duarte, que também é policial militar, teve a residência e o gabinete vasculhados. O celular do parlamentar foi apreendido. Não houve prisões.
A operação, batizada de Caça Fantasmas, foi autorizada pela Justiça Eleitoral e alcançou endereços em Angra dos Reis e em Juiz de Fora (MG). Entre os alvos estão, além do vereador, a assessora Beatriz Niki Ribeiro, a chefe de gabinete do parlamentar e um advogado vinculado a ele. Os nomes dos dois últimos não foram divulgados.
A PF apura se a nomeação de assessores sem exercício real servia para sustentar a base política de Duarte, inclusive com circulação de recursos fora dos registros oficiais de campanha. Há suspeita de inserção de dados falsos em prestações de contas eleitorais, como omissão de despesas e informações incorretas sobre contratação de serviços.
O indício mais detalhado envolve Beatriz. A PF identificou que ela está matriculada em curso presencial de medicina em tempo integral em Juiz de Fora e exerceria, paralelamente, a profissão de cirurgiã-dentista. Dados do Portal da Transparência mostram que a assessora tomou posse em 2025, com remuneração de R$ 7 mil e jornada prevista de 40 horas semanais na Câmara de Angra.
Para os investigadores, a rotina é incompatível com o exercício do cargo. Em Juiz de Fora, agentes cumpriram um dos mandados em um condomínio no bairro São Pedro. O conteúdo do material recolhido não foi detalhado.
Os crimes investigados incluem falsidade ideológica eleitoral, peculato e abuso de poder político e econômico.
O que diz o vereador
Procurado pelo Estadão, Duarte negou irregularidades e disse que a investigação tem motivação pessoal. Segundo o vereador, sua ex-mulher é hoje casada com o delegado responsável pelo caso e a denúncia partiu de uma amiga dela. O parlamentar afirmou que pretende acionar a corregedoria da PF até esta quarta-feira, 25.
O vereador disse que nenhum dinheiro ilícito foi encontrado durante as buscas e que todos os assessores exercem suas funções de forma legítima.
Sobre Beatriz, ele afirmou que ela é parente de seu advogado e atua remotamente na análise de pautas e projetos de lei, com registros de atuação presencial em Angra dos Reis para pesquisas de campo. A chefe de gabinete, segundo ele, trabalhou em sua campanha e presta serviços desde 2024. O terceiro alvo é o próprio advogado do parlamentar.
Duarte questionou a competência da PF para conduzir a apuração e disse que o inquérito foi aberto com base em relato de pessoas ligadas ao contexto pessoal descrito. De acordo com o vereador, a investigação começou por suposta irregularidade em gastos de campanha e depois tentou incluir acusação diferente, sem fundamento. Ele afirmou que todas as suas contas de campanha foram aprovadas e citou decisão do STF que autoriza o trabalho remoto de assessores parlamentares.
A defesa também mencionou uma resolução Câmara de Angra, que institui o Programa de Gestão e Desempenho (PGD) e prevê regime de trabalho remoto com mensuração por entregas. A norma, porém, se aplica a servidores efetivos que tenham concluído estágio probatório, conforme o artigo 2º da resolução. Assessores parlamentares ocupam cargos comissionados.
A Câmara de Angra dos Reis informou, em nota, que não teve acesso aos autos, mas se colocou à disposição da PF. O Legislativo afirmou que tomará providências administrativas quando conhecer os detalhes do caso e que as atividades da Casa seguem normalmente.