Quem é o ex-comandante do Exército que ameaçou prender Bolsonaro se ele tentasse cancelar a eleição
Tenente-brigadeiro Carlos Baptista Junior lança o livro 'Eu disse não: uma trincheira antigolpista'; na obra, ele relata que ex-presidente apresentou aos comandantes militares esboço de um decreto para impor um estado de exceção no País
O tenente-brigadeiro Carlos Baptista Junior, ex-comandante da Aeronáutica no governo Jair Bolsonaro, decidiu contar, em livro, o que viveu entre abril de 2021 e janeiro de 2023, no comando da Força Aérea Brasileira.
O tenente brigadeiro foi uma das testemunhas de acusação no processo em que Bolsonaro foi condenado por tentativa de golpe de Estado. Baptista Júnior o comando da FAB em meio a uma crise institucional nos comandos militares.
Naquele período, o brigadeiro testemunhou, no Palácio da Alvorada, o comandante do Exército, Marco Antonio Freire Gomes, ameaçar o ex-presidente, após Bolsonaro contar sua intenção de cancelar a eleição e intervir na Justiça:
"Se o senhor fizer isso, vou ter que lhe prender". "Não é uma frase capaz de passar incólume à memória dos que estavam presentes. O ambiente foi imediatamente tomado por raro silêncio", escreveu o brigadeiro, sobre o episódio que ele revelara ao depor no processo do golpe, no Supremo Tribunal Federal.
Durante as investigações, o tenente brigadeiro confirmou à Polícia Federal (PF) que o então presidente apresentou aos comandantes militares o esboço de um decreto para impor um estado de exceção no País.
No livro Eu disse não: uma trincheira antigolpista (ed. Autêntica, 242 pág), que será lançado em setembro, ele conta que só entre 3 de outubro e 14 de dezembro, os comandantes das três Forças foram chamados doze vezes ao Ministério da Defesa. Os chefes das três Forças tiveram seus afazeres desviados da caserna para discutir a eleição durante todo aquele ano.
A estratégia do brigadeiro e do então comandante do Exército, general Marco Antonio Freire Gomes, era ganhar tempo diante das pressões para que embarcassem em uma aventura golpista.
Quem é Freire Gomes?
Freire Gomes, de 67 anos, nasceu em Pirassununga, no interior de São Paulo, em 31 de julho de 1957. Ele cursou colégios militares em Fortaleza e no Rio de Janeiro e ingressou em 1977 na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ), a escola preparatória de oficiais do Exército Brasileiro. Formou-se na instituição três anos depois, em 1980.
Durante a carreira militar, Freire Gomes exerceu funções de Cavalaria em cidades como Bela Vista (MS), Recife (PE) e Bayeux (PB). Ele chefiou o Comando Militar do Nordeste, no Recife (2018-21), e o Comando de Operações Terrestres (Coter), de Brasília (2021-22).
Freire Gomes assumiu o comando do Exército em março de 2022. Na época, o governo Bolsonaro passava por uma reforma ministerial. O então ministro da Defesa, Walter Braga Netto, desligou-se da pasta para concorrer como vice na chapa de Bolsonaro nas eleições presidenciais. A vaga de Braga Netto na Defesa foi herdada por Paulo Sérgio Nogueira, então comandante do Exército. Com a saída de Nogueira, Freire Gomes foi alçado ao comando da Força.
Quem é Carlos Batista Junior?
Piloto de caça com mais de 4.500 horas de voo e quase cinco décadas de carreira na Força Aérea, que iniciou em 1975, Baptista Junior narra com a segurança e autoridade de quem esteve na sala de decisão - não como espectador, mas como um dos atores que, segundo seu próprio relato, ajudou a manter as Forças Armadas longe do rompimento.
O testemunho do oficial foi crucial nos autos da ação penal 2668, no Supremo Tribunal Federal, que impôs ao ex-presidente a pena de 27 anos e três meses de reclusão. O julgamento foi concluído em setembro do ano passado.
Baptista Júnior é filho de Carlos de Almeida Baptista, tenente brigadeiro que comandou a Aeronáutica entre 1999 e 2003. O oficial da reserva ingressou na Força Aérea Brasileira (FAB) em 1975, na Escola Preparatória de Cadetes do Ar (Epscar). Até assumir o comando da Força, acumulou quatro mil horas de voo, com especialidade em ações de reconhecimento e caça.
Baptista Júnior assumiu o comando da Aeronáutica em abril de 2021, após uma crise deflagrada pela demissão do então ministro da Defesa Fernando Azevedo. A saída do ministro provocou uma debandada no comando das três Forças.
Foi a única vez desde a redemocratização que os três comandantes militares deixaram seus postos ao mesmo tempo, sem que houvesse uma mudança de gestão no governo federal.
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