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Política

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NYT diz que igrejas evangélicas ganharam espaço e ajudam a explicar avanço da direita no Brasil

Artigo publicado no jornal americano aponta crescimento das igrejas pentecostais e afirma que situação pode ter contribuído para o enfraquecimento da esquerda; texto afirma ainda que redes de igrejas são agora a base duradoura da direita, com os fiéis seguindo as orientações políticas dos pastores

6 out 2026 - 14h09
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Resumo
Segundo análise do The New York Times, o avanço da direita no Brasil é impulsionado pela forte expansão das igrejas evangélicas, que saltaram de 9% para 27% da população. Ao ocupar o vácuo de partidos e movimentos sociais nas periferias, essas redes religiosas mobilizam fiéis por pautas morais, tornando-se a principal base conservadora. O artigo destaca que esse engajamento comunitário consolidou a força eleitoral da direita, deixando a esquerda fragilizada diante da disputa pelo poder.

As igrejas evangélicas passaram a ocupar um espaço cada vez maior na organização política de parte dos brasileiros e, segundo análise publicada pelo jornal americano The New York Times nesta segunda-feira, 5, as redes religiosas ajudam a explicar o avanço da direita no País. O artigo de opinião, assinado pela socióloga política Elizabeth McKenna, destaca que a presença dos evangélicos na população brasileira cresceu de 9% em 1991 para 27% em 2022, um aumento de mais de 30 milhões de pessoas.

Segundo McKenna, as redes de igrejas são agora a base "duradoura da direita", com os fiéis seguindo as orientações políticas de seus pastores.

"Há uma instituição que ocupou esse vácuo e agora alcança muitos dos antigos apoiadores de Lula: a igreja evangélica. Em muitos dos bairros mais pobres do Brasil, as igrejas pentecostais são muito mais envolventes do que qualquer partido ou movimento social. Três em cada quatro frequentadores vão a um culto pelo menos uma vez por semana. Essas redes de igrejas são agora a base duradoura da direita, com os fiéis seguindo as orientações políticas de seus pastores para votar com base em interesses morais em vez de materiais", escreveu.

Os candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) após o primeiro turno
Os candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) após o primeiro turno
Foto: Wilton Junior/Estadão e Daniel Teixeira/Estadão / Estadão

A autora ressalta, porém, que a aproximação entre eleitores evangélicos e a direita não é automática. Segundo ela, os evangélicos permaneceram aliados ao PT por mais de uma década. Em sua avaliação, a organização comunitária construída pelas igrejas contribuiu para aproximar fé e política, inclusive entre eleitores de baixa renda sem uma identificação política fixa.

O jornal afirma ainda que agora, pela primeira vez desde 2014, mais brasileiros se identificam como de direita do que com qualquer outra ideologia. "Uma mulher pentecostal pobre na periferia de São Paulo não é uma eleitora nata de Bolsonaro; de fato, os evangélicos passaram mais de uma década aliados ao PT. Mas se um pastor estiver lá toda semana para ajudá-la a articular sua fé com a política, ela se tornará uma eleitora de Bolsonaro. Em troca, os fiéis - que recebem pouco do Estado e ainda menos dos partidos que afirmam falar por eles - recebem ordem, sobriedade e uma comunidade que sempre se lembra do seu aniversário, como me disse um morador local", escreveu.

O artigo também aponta que a direita superou o desempenho indicado pelas pesquisas finais, com Flávio Bolsonaro (PL) obtendo 47% dos votos contra 45% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enquanto aliados de Bolsonaro conquistaram a maioria das cadeiras no Senado. Os dois candidatos disputarão o segundo turno em 25 de outubro.

"Uma vitória de Lula no segundo turno em 25 de outubro, embora não seja impossível, parece cada vez mais improvável. Seu caminho mais plausível para a vitória seria mobilizar parte dos 33 milhões de eleitores registrados que se abstiveram no primeiro turno - mas alcançá-los em três semanas é um trabalho para o tipo de organização comunitária de bairro que seu partido deixou de construir há décadas. Isso deveria preocupar qualquer pessoa ansiosa com uma presidência de Bolsonaro ainda mais reacionária", destacou a autora.

McKenna questiona, a partir desse cenário, como Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), chegou à condição de candidato à Presidência diante de Lula, que a autora descreve como um dos principais nomes da esquerda social-democrata. De acordo com o texto, as razões pelas quais eleitores em todo o mundo estão se "voltando para líderes de extrema-direita" é devido a insatisfação econômica, reação contra mudanças culturais, polarização e a erosão das salvaguardas democráticas.

No caso brasileiro, a autora acrescenta à lista a interferência estrangeira. Segundo ela, Lula e seus apoiadores apontam para ações do governo Trump que, em sua avaliação, favoreceriam Bolsonaro, por meio de tarifas, revogações de vistos e financiamento do Departamento de Estado para grupos contrários ao Supremo Tribunal Federal.

O artigo afirma ainda que uma eventual Presidência de Flávio Bolsonaro poderia aproximar Washington do Brasil e abrir espaço para medidas relacionadas ao pai do candidato, incluindo um possível perdão e anistia aos manifestantes envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023.

Na avaliação apresentada no artigo, a direita ampliou sua atuação por meio de uma rede formada por think tanks conservadores, comunidades virtuais e lideranças com forte presença nas redes sociais. McKenna cita pastores, cantores gospel e youyubers entre as figuras que passaram a reunir públicos de milhões de pessoas, algumas delas eleitas no primeiro turno.

O artigo afirma ainda que o futuro da democracia brasileira não dependeria apenas do resultado eleitoral, mas também da forma como os cidadãos se organizam e participam da vida pública. Para McKenna, enquanto mais brasileiros estiverem ligados a organizações que não são administradas pelos próprios membros, o ambiente civil do País permanecerá vulnerável à atuação de políticos autoritários de diferentes correntes ideológicas.

Estadão
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