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Política

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Não se deixe enganar: médico antivacina espalha inverdades sobre Fauci e ganho de função

EX-PRESIDENTE AMERICANO JOE BIDEN CONCEDEU PERDÃO PREVENTIVO AO IMUNOLOGISTA POR AMEAÇAS DE RETALIAÇÃO DE TRUMP

19 ago 2026 - 16h46
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O que estão compartilhando: vídeo em que um médico afirma que o imunologista Anthony Fauci recebeu do ex-presidente americano Joe Biden perdão retroativo em 14 anos por ter financiado, nesse período, pesquisas de ganho de função para criar o coronavírus em Wuhan, na China.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. Em janeiro de 2025, o então presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, concedeu a Fauci perdão por eventuais crimes dos quais pudesse ter sido acusado desde 1º de janeiro de 2014. Ou seja, o imunologista recebeu um indulto de 11 anos, e não de 14.

A motivação de Biden veio de ameaças de retaliação que Fauci sofria de Donald Trump, que tomaria posse como presidente, em decorrência das medidas adotadas pelo imunologista durante o enfrentamento da covid-19. Outros servidores federais que eram alvo de Trump por motivos diversos também foram beneficiados.

O perdão a partir de 2014 contempla o período em que o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), que Fauci dirigia, financiou uma pesquisa de uma organização americana que colaborava com o Instituto de Virologia de Wuhan.

Desde o início da pandemia, republicanos alegam que o recurso patrocinou estudos de ganho de função que teriam criado o SARS-CoV-2, causador da covid-19, mas não existem provas de que o vírus surgiu dessa forma e nem de que os EUA tenham financiado esse tipo de estudo nesse laboratório.

O médico Roberto Zeballos, autor do vídeo, foi procurado e não respondeu.

Saiba mais: peças desinformativas sobre a pandemia voltaram a circular amplamente após o senador republicano Rand Paul, do Kentucky, divulgar no final de julho um documento com mais de mil páginas contendo anotações feitas por Fauci entre 2019 e 2022, o que inclui o período da pandemia.

Em 29 de julho, após a divulgação, Fauci esteve no Senado para ser interrogado sobre as origens do coronavírus, mas invocou a 5ª Emenda da Constituição americana e optou por não responder às perguntas.

Perdão não reconhece cometimento de crimes

O indulto "total e incondicional" concedido por Biden a Fauci é restrito à atuação dele como diretor do NIAID. Ele ocupou o cargo por 38 anos, inclusive durante o primeiro mandato de Trump, até se aposentar, em 2022.

Recentemente, o jornal The New York Times observou que o perdão preventivo tinha o intuito de proteger o imunologista de uma possível retaliação que Biden acreditava que Trump e aliados pudessem adotar contra o médico.

O jornal infomou que Fauci ficou em silêncio ao ser interrogado em julho porque o perdão cobre apenas acontecimentos de 2014 a 2025. Conforme o veículo, o imunologista quis evitar o risco de que os republicanos pudessem envolvê-lo em novas batalhas jurídicas.

Em 2025, a imprensa internacional divulgou o perdão presidencial contextualizando que Biden o assinou para proteger Fauci de perseguição futura (BBC, ABC News, Le Monde, AP News, The New York Times e Washington Post).

Conforme a AP News, a decisão foi tomada após Trump afirmar ter uma lista de inimigos composta por pessoas que o contrariaram politicamente. Também receberam indulto de Biden, por exemplo, funcionários do comitê de 6 de Janeiro, que investigaram o ataque ao Capitólio.

Biden afirmou em comunicado que "a concessão desses indultos não deve ser interpretada como um reconhecimento de que qualquer indivíduo tenha cometido qualquer delito, nem a aceitação deve ser entendida como uma admissão de culpa por qualquer crime".

Segundo a AP, Fauci irritou Trump e apoiadores ao resistir às ideias não testadas naquele momento para enfrentamento da covid, como, por exemplo, abrir mão do uso de máscaras.

Ao receber o perdão, Fauci afirmou que vinha sendo alvo de ameaças de investigação e de processo com motivação política. "Não há absolutamente nenhum fundamento para essas ameaças", declarou. "Deixe-me ser bem claro: não cometi nenhum crime."

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Origem do vírus ainda não foi determinada

A publicação transmite a ideia de que o vírus da covid-19 foi criado propositalmente em laboratório, por meio de pesquisas de ganho de função, mas não há provas disso. Nesse tipo de estudo, se altera geneticamente um organismo com o objetivo de aprimorá-lo para desempenhar determinada função, como infectar células humanas.

Não há evidências de que o Instituto de Virologia de Wuhan, apontado em uma das hipóteses como possível local de vazamento do vírus, tenha realizado pesquisas dessa natureza com patógenos semelhantes ao SARS-CoV-2. Não há registros nesse sentido no arquivo de Fauci. O médico tratava o assunto como teoria conspiratória.

Para o imunologista, o vírus teve origem natural, tendo passado de um animal para uma pessoa e depois se disseminado entre seres humanos. No arquivo, o médico menciona a teoria de que o vírus teria vazado de um laboratório, mas sempre sustentando a falta de consenso ou a opinião de outros pesquisadores, não a dele próprio.

No ano passado, a Casa Branca substituiu a página oficial do governo que fornecia informações sobre a covid-19 por um site que sustenta a teoria do vazamento. Em 29 de julho, quando Fauci esteve no Senado, a Casa Branca republicou o link na conta oficial no X com a legenda "A verdade".

Nos registros, entretanto, Fauci escreveu ter sido informado que circulava uma teoria conspiratória de que o coronavírus teria sofrido uma mutação por meio de ganho de função e que teria sido liberado, "deliberada ou acidentalmente", em Wuhan. Esse cenário, conforme o diário, motivou uma reunião entre 12 virologistas e biólogos, incluindo Fauci, para discutir se as mutações ao redor da proteína spike poderiam ter ocorrido naturalmente ou sido manipuladas. Após a reunião, ele escreveu que não houve consenso entre os cientistas sobre a possibilidade de que o vírus tenha vazado.

Como foi checado anteriormente pelo Verifica, as hipóteses de manipulação intencional do vírus não têm respaldo científico nem estão entre as explicações mais prováveis para o início da pandemia. Isso consta no relatório do Grupo Consultivo Científico para Origens de Novos Patógenos (SAGO, na sigla em inglês), da Organização Mundial da Saúde (OMS). O grupo não chegou a uma conclusão definitiva sobre como começou a covid-19, mas apontou que as evidências sugerem a transmissão de origem animal a humanos.

Não há provas de que EUA financiaram 'ganho de função' em Wuhan

Também não há, como demonstrado pelo Verifica, confirmação de que os EUA financiaram estudos de ganho de função do coronavírus e que recursos tinham sido liberados sob a coordenação de Fauci no NIAID.

A BBC explicou que, em 2014, a EcoHealth Alliance, sediada nos EUA, recebeu verba do NIAID para investigar possíveis coronavírus provenientes de morcegos. Em 2019, o projeto foi renovado por mais cinco anos, mas, no ano seguinte, acabou cancelado pelo governo Trump em razão do início da pandemia.

Em 2021, Fauci afirmou que esse financiamento não foi destinado a pesquisas de ganho de função em Wuhan. Robert Kessler, porta-voz da EcoHealth Alliance, também negou ter pesquisado ganho de função. Ele afirmou que a empresa foi financiada para conduzir um estudo sobre a diversidade de coronavírus na China. Com o recurso, subcontratou o Instituto de Virologia de Wuhan para auxiliar na coleta de amostras e na capacidade laboratorial.

Ainda segundo a BBC, o americano Ralph Baric, da Universidade da Carolina do Norte, que colaborou na pesquisa com o Instituto de Wuhan, afirmou que o trabalho foi considerado como não relacionado ao ganho de função pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH, na sigla em inglês), dos Estados Unidos, e pelo comitê de biossegurança da universidade em que atua. O pesquisador sustentou ainda que nenhum dos vírus que foram objeto do estudo de 2015 está relacionado ao SARS-Cov-2.

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Vacinas são seguras

Após a audiência de Fauci no Senado, médicos brasileiros alinhados ao movimento antivacina passaram a publicar conteúdos alegando que eles estavam certos ao recomendar o tratamento precoce contra a doença e ao afirmar que as vacinas e outras medidas de prevenção não são eficazes. Um deles é Zeballos, que publicou o vídeo aqui checado. Na descrição do conteúdo publicado nesta semana ele afirma, por exemplo, que Fauci "continua falando para Deus e o mundo que a vacina salva vidas e ela é eficaz". E conclui: "Isso é um crime."

A alegação é falsa. A OMS afirma que a imunização salvou milhões de vidas e desempenhou um papel vital na resposta global contra a covid-19. Em setembro de 2024, a revista The Lancet publicou um estudo estimando que, entre dezembro de 2020 e março de 2023, as vacinas contra a covid evitaram 1,6 milhão de mortes na Europa. Outro, publicado na Jama, estimou que a vacinação salvou 2,5 milhões de vidas no mundo entre 2020 e 2024.

Junto de outros médicos, Zeballos publicou um estudo alegando existir uma "síndrome pós-spike" decorrente da vacina contra a covid-19, mas a doença não é comprovada pela comunidade científica. O artigo foi contestado e retirado de publicação por conter falhas.

Estadão
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