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'Guerra de tuítes' causa novo racha na base de Bolsonaro

De 'Nhonho' a 'Maria Fofoca': postagens nas redes sociais incomodam até o presidente Jair Bolsonaro, que usa as redes para atacar oponentes

29 out 2020
15h44
atualizado às 17h12
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Os bastidores de Brasília dão conta de que até mesmo o presidente Jair Bolsonaro, usuário ferrenho das redes sociais como ferramenta para criticar seus inimigos políticos, tem se surpreendido e, em alguns momentos, se incomodado com a "briga de pátio de escola" que integrantes de seu governo têm promovido no Twitter.

Na semana passada, Bolsonaro se reuniu com seus ministros e mandou um recado geral, mas endereçado especialmente a Ricardo Salles, pedindo ao titular da pasta do Meio Ambiente que passe a "lavar a roupa suja internamente". Bolsonaro foi além. Disse aos seus comandados da Esplanada dos Ministérios que parassem de dar informações em "off" a jornalistas, ou seja, notícias extraoficiais, e que passassem a se comunicar apenas de forma institucional e oficial, como se isso algum dia tivesse existido em Brasília ou fosse possível de ser controlado. Minutos depois, esse mesmo pedido do presidente foi repassado à imprensa, logo depois, em off.

O comportamento de Salles não encontra paralelo na gestão que o ministro impõe à sua pasta. Salles, que hoje protagoniza a "rinha digital", foi um dos ministros que passaram a fazer um controle cada vez mais rígido de informações. Nada sai do Ministério do Meio Ambiente e seus órgãos coligados - Ibama e Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio) - sem sua autorização. Estes últimos perderam suas assessorias de imprensa, seus funcionários foram informados que não podiam mais falar com jornalistas e que tudo o que tivessem de publicar deveria, antes, passar pelo crivo da pasta.

Tweet de Eduardo Bolsonaro
Tweet de Eduardo Bolsonaro
Foto: Twitter/Reprodução / Estadão Conteúdo

Essa lei da mordaça, na prática, está em vigor até hoje, além do clima de "caça às bruxas" entre os servidores, para identificar aqueles que vazariam informações à imprensa. Esse rigor, porém, cai por terra quando o ministro tem à sua frente o campo aberto e de efeito imediato oferecido pela internet.

Foi o que ocorreu uma semana atrás, no dia 22, quando Salles foi ao Twitter para chamar o ministro da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, de "Maria Fofoca". O ataque direto ocorreu na esteira de uma nota publicada pelo jornal O Globo, afirmando que Salles estava "esticando a corda" com militares do governo. Acontece que a nota sequer citava o Ramos ou qualquer outro membro do governo. A menção só serviu para dar publicidade a um embate que já ocorria há meses em Brasília, entre a ala militar e a ala ideológica do governo.

Salles, que ganhou apoio público de Eduardo Bolsonaro e outros aliados do governo na ocasião, manteve o tom e não pediu desculpas a Ramos. Coube, então, ao general, angariar apoios. Dois dias depois, após conversa com Ramos, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, foi ao Twitter e disparou: "Ricardo Salles, não satisfeito em destruir o meio ambiente do Brasil, agora resolveu destruir o próprio governo".

Bolsonaro, experiente nos ataques virtuais, achou que a temperatura estava alta demais, entrou em cena para dizer que não estava gostando da briga e pediu que os ministros dessem o assunto por encerrado. Assim foi feito, até a noite desta quinta-feira, 28.

Quatro dias depois de Maia ter atacado Salles, o perfil do ministro traz o contra-ataque de "Nhonho", referindo-se ao personagem da série mexicana "Chaves". A publicação permaneceu ativa durante uma noite inteira e se espalhou por toda a internet. Só na manhã desta quinta-feira, 29, é que Salles resolveu retirar a publicação do ar.

Cópia de tuíte de Ricardo Salles, que depois foi apagado
Cópia de tuíte de Ricardo Salles, que depois foi apagado
Foto: Reprodução / Estadão Conteúdo

O ministro entrou em contato com Rodrigo Maia, pediu desculpas e disse que outra pessoa teria entrado em seu perfil e publicado a provocação. Segundo Salles, um assessor próximo, que tinha a senha de seu perfil e atuou com ele na campanha eleitoral de 2018, em apoio a Bolsonaro, teria acessado erroneamente a conta do ministro e escrito a resposta.

Não se sabe até o momento, porém, quem seria este assessor. Se, de fato, a publicação foi um "engano", Salles precisa explicar por que seu "amigo assessor" não se identifica rapidamente e desfaz o "mal entendido" que recai sobre o ministro. Depois de uma noitada em Fernando de Noronha, onde ainda permanece, Salles não quer falar sobre o assunto e, mais uma vez, diz que dá a confusão por encerrada.

Banco Central

Maia, talvez insatisfeito com as explicações de Salles, decidiu voltar às redes sociais e desferir mais uma pancada contra o governo. Dessa vez, porém, ignorou o ministro e citou o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Chateado com um suposto "vazamento" da conversa particular que teve com Campos Neto, o presidente da Câmara escreveu que "a atitude do presidente do Banco Central de ter vazado para a imprensa uma conversa particular que tivemos ontem não está à altura de um presidente de Banco de um país sério".

A pancadaria durou cerca de uma hora, até que Campos Neto conversou com Maia e jurou que não vazou nada. Maia, então, tirou o pé. "Recebi há pouco ligação do presidente do BC afirmando que ele não divulgou à imprensa a nossa conversa. Diante da palavra do presidente, o vazamento certamente foi provocado por terceiros. Deixo aqui registrado a ligação e a confiança que tenho nele", escreveu.

Se as brigas entre membros do governo e do Congresso se dão no mundo virtual, o desgaste dos poderes é presencial, e ainda está sendo medido pelo governo. Nesta quinta-feira, depois de ver o circo pegar fogo mais uma vez, o vice-presidente, Hamilton Mourão, disse que novo capítulo da novela entre Salles e Maia é assunto de "pouca importância", em face dos problemas do País. Falta combinar com os membros do próprio governo.

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Estadão
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