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"Grito pelo fim da PM é uma tragédia", diz coronel psolista

Íbis Pereira é candidato a vice-prefeito do Rio de Janeiro pelo PSOL

14 set 2020
12h46
atualizado às 12h58
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Em entrevista à DW Brasil, coronel reformado da PM Íbis Pereira, candidato a vice-prefeito do Rio pelo PSOL, defende diálogo com as polícias como único caminho para implementar mudanças na segurança pública.O coronel reformado da Polícia Militar Íbis Pereira se acostumou a ser uma voz dissonante entre os colegas de farda ao longo dos 33 anos de serviço à corporação. Tendo sido comandante-geral da PM no Rio por dois meses, em 2014, Íbis sempre foi crítico de uma visão sobre a segurança pública exclusivamente alicerçada na repressão.

"Grito pelo fim da PM é uma tragédia", diz coronel psolista
"Grito pelo fim da PM é uma tragédia", diz coronel psolista
Foto: Reprodução

Nos últimos anos, vem tendo que lidar com perseguição nas redes sociais por ter ministrado uma aula sobre segurança pública no conjunto de favelas da Maré após passar para a inatividade. A notícia só gerou surpresa entre quem desconhecia sua trajetória. Antes de entrar para a polícia, Íbis dava aulas em cursos de pré-vestibular comunitário dentro de comunidades periféricas, como católico praticante da teologia da libertação.

Ele é pré-candidato a vice-prefeito do Rio de Janeiro na chapa do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) encabeçada pela deputada estadual Renata Souza, pós-doutora em Comunicação e primeira mulher negra a presidir a Comissão de Direitos Humanos na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Os dois se conheceram quando ela era chefe de gabinete da vereadora Marielle Franco, assassinada em março de 2018.

Em entrevista à DW Brasil, Íbis reivindica o legado de Marielle e dos governos de Leonel Brizola no Rio de Janeiro. O coronel reformado da PM defende um olhar mais amplo sobre os direitos humanos e afirma que somente pelo diálogo com as polícias e demais instituições será possível reduzir os indicadores de violência e obter uma mudança efetiva na política de segurança pública.

DW Brasil: No delicado contexto de segurança pública do Rio de Janeiro, defensores de direitos humanos e policiais costumam estar em lados opostos do debate. Como você enxerga o encontro inusitado dessa chapa?

Íbis Pereira: Esse diálogo entre polícia e favela não é exatamente uma novidade. Tem precedente nos governos de Leonel Brizola, durante a redemocratização. Houve e ainda há muita incompreensão em torno das propostas do Brizola nos dois governos. Eu entrei na polícia em 1983, quando ele assumiu pela primeira vez. Para mim, o encontro não é estranho, porque não consigo pensar a segurança de outra forma. Trabalhei de perto com o coronel Carlos Magno Nazareth Cerqueira, comandante-geral da PMERJ nos dois mandatos, que foram muito influenciados por uma visão sobre a ordem pública como algo que polícia e comunidade constroem juntos.

O governo Brizola tinha uma perspectiva da dívida histórica que esse país tem com o povo brasileiro, essa civilização nova, tropical, que a gente está tentando construir há mais de 500 anos, marcada pela violência. É insuficiente dizer que o Brasil teve escravidão. A escravidão construiu o Brasil. É muito mais grave. Pode ser difícil para um estrangeiro entender como isso dói na pele e ainda está vivo. Muito do estranhamento com esse encontro tem a ver com essa realidade estrutural que a gente não conseguiu superar. É a marca de um país que naturalizou a desigualdade, bem como a violência, porque ela o constituiu. Falo daquela mais atroz, de um corpo humano torturado como base da economia e do seu modo de produção.

A gente ampliou as fronteiras do Brasil caçando seres humanos. As bandeiras foram isso, expedições de 1.500, 2 mil homens se deslocando para caçar seres humanos. Isso moldou uma certa forma de ver as coisas, uma percepção de como problemas devem ser resolvidos por meio da violência, da força. Por isso, muita gente ainda acha que, hoje, a saída para a segurança é a violência. Esta é a razão pela qual a gente não sai do lugar e só coleciona fracassos, porque não se trata de violência, mas planejamento. Um problema é resolvido tendo noção do que é preciso fazer no curto, médio e longo prazo. No Brasil, a gente tem dificuldade de planejar as coisas porque ainda pensa como colônia. Uma colônia não planeja, é pensada pela metrópole: olha para fora, não para dentro, para o seu povo. O Brasil ainda precisa se descolonizar.

O grito pelo fim da PM é recorrente em manifestações de esquerda, com participação do PSOL. Você já declarou que considera essa abordagem contraproducente. Essa crítica é bem recebida no partido?

Não muito, com exceções. As pessoas têm uma visão monolítica das polícias, como se todo mundo fosse a mesma coisa e pensasse do mesmo jeito. Uma das maiores lideranças da esquerda no Brasil foi um oficial do Exército Brasileiro, Luís Carlos Prestes. Um dos maiores pensadores do marxismo no Brasil foi um general do Exército, Nelson Werneck Sodré. E as pessoas se esquecem disso, olham como se todo mundo fosse igual. Eu falo: pessoal, não é a PM que é candidata a vice-prefeito, sou eu. Mas é difícil, porque as pessoas confundem o mundo com a ideia que fazem do mundo, o que é um problema. O próprio Lenin fala isso: se a gente quiser mudar o mundo, tem que olhar para o mundo, que é sempre muito mais complexo e rico do que uma ideia.

Eu tento mostrar para as pessoas que o Estado é um campo em disputa. Aí começam aquelas coisas: 'você é estruturalista, althusseriano'. Rotulam, é complicado. É claro que a gente precisa refundar as polícias, mas a questão é o que a gente faz agora. No primeiro semestre deste ano, seis pessoas foram vítimas de morte brutal no Brasil por hora. A vida dessas pessoas não vai se repetir. Então, a gente tem que ter uma solução para agora, tentar melhorar o cenário agora, porque estamos falando de vidas humanas. Não se pode esperar mudar o modo de produção ou discutir uma reforma. Sem perder de vista esses debates, a gente precisa tentar transformar as coisas com o que temos. Meu esforço é de mostrar que tem jeito de fazer isso, com as instituições que estão aí, melhorando o que precisa ser melhorado, cumprindo a legislação que já está aí e a gente insiste em ignorar.

Para isso, a gente precisa conversar com as polícias. Quando você vai para a rua gritar 'não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da Polícia Militar', eu entendo que a rima é boa, e o garoto se sente estimulado a cantar isso, mas é uma tragédia. Impede o diálogo com os policiais, e eu acredito que seja possível dialogar com as instituições. Por isso é que estou fazendo política partidária. Se eu achasse que não é possível, não ia brigar na institucionalidade. É um contrassenso estar disputando dentro dela e não querer conversar. Se você é um partido político e está disputando, você quer o parlamento, que pressupõe diálogo. Se você está se apresentando em uma chapa majoritária, quer governar. Ou seja, resolver problemas. Para isso, precisa sentar com as instituições. E, portanto, entender que é possível dialogar com elas. Se você não quer isso, tudo bem, vai militar de outra forma. Mas, se está na institucionalidade, precisa entender o que ela é.

Tendo em vista o seu olhar crítico sobre a atuação da PMERJ, você se sente próximo à instituição, após 33 anos de serviços prestados?

Inegavelmente, eu tenho um vínculo afetivo com a instituição. Não nego isso. Se eu tivesse que recomeçar minha vida, eu entraria na PM de novo. Isso não significa eu não querer que ela mude, reforme-se e reveja seus processos. Uma coisa que as pessoas não entendem ­— e este é um problema do modelo de administração militar — é que quando você diz para um policial militar que a PM tem que acabar, está dizendo que ele tem que acabar. Militares são a instituição. Para você dialogar com policiais militares, precisa entender como é o universo mental dos policiais. Se você vai conversar com alguém sem entender as representações, como a pessoa vê o mundo, não consegue estabelecer um diálogo humano.

Você vai discutir com uma pessoa neopetencostal sem conhecer a Bíblia, os valores dessa pessoa? Se quiser estabelecer um diálogo fraterno e positivo, tem que entender como funciona a cabeça dela. Se você já vai para a rua com esse grito, essa palavra de ordem, tem que entender que não está contribuindo para o diálogo, está ajudando para aumentar ainda mais o abismo existente e não está contribuindo com nada, na minha opinião. As pessoas estão morrendo, a segurança pública está horrível. Assaltos acontecem aos borbotões no Rio. A gente precisa dar uma solução para isso. Essa solução vem pelo diálogo respeitoso com as instituições.

No Brasil, o discurso em defesa dos direitos humanos encontra dificuldades de se expandir para além do universo acadêmico e das esquerdas. É possível ampliar sua capilaridade?

Toda essa violência que está aí, no fundo, nasce de uma violência originária contra a pessoa humana. Nosso país ainda tem analfabetos, sem contar os funcionais e aquelas pessoas que sabem ler, escrever, mas não entendem o que leem. Isso é uma violência. Quando uma sociedade admite isso, essa violência vai explodir lá na frente, com uma certa visão de mundo enviesada, equivocada. Ao negar direitos para uma pessoa humana, ela se brutaliza. Os direitos humanos servem para que você aconteça como pessoa. Esse ser humano brutalizado vai produzir uma sociedade embrutecida.

Aqui no Brasil, a gente começou a falar de direitos humanos inicialmente no contexto da luta política contra a ditadura. O Brizola trouxe isso para o campo da segurança pública, no Rio, assim como o Franco Montoro em São Paulo. Eles trouxeram esse debate por razões óbvias: as polícias brasileiras tiveram um engajamento na ditadura, e era necessário ampliar esse debate. Mas eu penso que a gente, aqui no Brasil, precisa expandir o discurso dos direitos humanos, mostrando para as pessoas como ele é concreto em suas vidas: na falta de moradia, de um transporte digno, porque o princípio estruturante é o da dignidade da pessoa humana, o que significa dizer para as pessoas que elas têm valor, que elas contam.

De que forma isso pode ser feito?

É olhar para as mudanças nas leis trabalhistas e mostrar para as pessoas como elas ofendem a pessoa humana. Assim como a precarização do trabalho viola um direito humano básico que é o do ser humano acontecer como pessoa. Chamar de empreendedores esses meninos que estão se matando, trabalhando horas e horas nas ruas entregando comida, é um deboche, um insulto. Então, é dizer isso para ele: olha, a gente defende os direitos humanos porque quer que você aconteça como pessoa. Naturalmente, o tema da violência policial é central, mas esse aspecto recebe atenção quase que exclusiva, sem que o problema da segurança pública seja resolvido. Você fala da polícia quando ela mata, mas não mostra por que isso acontece e como resolver o problema.

Na cabeça das pessoas, isso é uma complicação: os indicadores continuam crescendo, as pessoas continuam com medo, e o discurso fica num único tom, parece um samba de uma nota só. A gente precisa falar de direitos humanos de forma mais abrangente para denunciar como esses problemas afetam concretamente a vida das pessoas, que não têm condições dignas de moradias, que perderam seus empregos na pandemia, não têm o que comer, estão indo morar na rua. Uma cidade que naturaliza isso não se ofende nem cobra do poder público uma solução concreta para esse problema, que passa pela mudança da política econômica atual, porque com ela não haverá solução para a vida das pessoas. A gente não conecta esses fatos, e essa eleição é uma oportunidade para fazer isso, pela capitalidade que o Rio de Janeiro tem.

Você entende a chapa como um legado da Marielle?

Tem essa marca da Marielle. Éramos amigos, e a Renata foi chefe de gabinete, além de amiga de infância dela. Eu a conheci depois, mas foi a Mari quem me levou para o PSOL e assinou minha ficha de filiação. Depois que passei para a inatividade, em 2016, , procurei um partido que tivesse alguma coisa a ver com meu modo de pensar dentro do espectro político. Fui me aproximando das pessoas e tentando contribuir com o debate. O partido estava num processo de promover filiações e, durante uma prestação de contas dos mandatos, no Centro do Rio, a Mari me puxou pelo braço e falou: chega, você tá nesse processo com a gente o tempo todo, discutindo, tá na hora de entrar para o PSOL. Ela assinou, e eu entrei, passei a militar mesmo dentro do partido, ajudando a construir de maneira mais efetiva. Conheci a Renata pelo gabinete da Marielle. Depois que ela foi eleita deputada estadual, passamos a trabalhar juntos.

Sem dúvida alguma, tem o legado dessa grande mulher brasileira, mas também o de Leonel Brizola, que quero trazer para essa campanha. Meu pensamento de segurança pública não tem nenhuma originalidade. Tudo o que eu falo está nos textos de Carlos Magno Nazareth Cerqueira, de quem sou discípulo. Ele foi o primeiro coronel negro a comandar a PM. A Renata estudou em CIEP, projeto com a digital do Brizola. Tenho um imenso carinho pelos governos dele. Neste ano, o CIEP completa 35 anos. No ano em que isso acontece, tem uma candidata oriunda desse projeto. É a geração Brizola que está chegando.

 

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