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Extremistas pró-Bolsonaro querem 'ucranizar' o Brasil

Grupo com influência paramilitar está acampado ilegalmente em Brasília, no Parque da Cidade, a 7 quilômetros da Praça dos Três Poderes

24 set 2021 00h40
| atualizado às 07h12
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Grupo usa símbolos de movimento paramilitar de extrema-direita da Ucrânia, considerado ultranacionalista e neofascista
Grupo usa símbolos de movimento paramilitar de extrema-direita da Ucrânia, considerado ultranacionalista e neofascista
Foto: Ucraniza Brasil

Um acampamento remanescente dos atos convocados pelo presidente Jair Bolsonaro para o 7 de Setembro, em Brasília, tem atraído extremistas que dizem se preparar para "uma faxina geral" e para "pôr fim à corja maldita" da República. Com discurso violento contra membros do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF), o grupo, com viés paramilitar, está instalado ilegalmente dentro do Parque da Cidade, a sete quilômetros da Praça dos Três Poderes. O espaço é chamado por eles de "base de resistência", de onde pretendem partir em direção ao objetivo de "ucranizar o Brasil". O governo do Distrito Federal não autorizou o acampamento e diz trabalhar para a desocupação.

A expressão "ucranizar o Brasil" é uma referência à onda de protestos violentos que deixou mortos e feridos no país do leste europeu, entre 2013 e 2014. Manifestantes invadiram prédios do governo. A crise interna culminou na destituição do presidente Viktor Yanukovich e na ascensão de grupos considerados neofascistas.

A base de Brasília está ornamentada com mensagens em português e inglês a favor de Bolsonaro e contra os presidentes da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e o ministro Alexandre de Moraes, do STF. Existe até um cartaz escrito em alemão, alegando que "os brasileiros dizem não ao comunismo".

Nesta quinta-feira, 23, havia ao menos 18 barracas de acampamento montadas em espaço localizado ao lado do estacionamento 3 do parque que leva o nome de Sarah Kubitschek e é um dos principais espaços de lazer e de prática esportiva dos brasilienses. Há estrutura para lavar roupas e preparar alimentos.

Para reforçar o acampamento, os extremistas estão recolhendo doações de "kits de primeiros socorros", camas, "armário de metal com pelo menos quatro portas para guardar alimentos e equipamentos", "redes camufladas militares", além de cadeados, chuveiros de camping e até projetor e caixa de som. Também vendem camisas em defesa da "ucranização" e fazem rifas de materiais.

"Precisamos compreender a necessidade de se fazer uma intervenção civil pacífica, contundente, permanente e sem o financiamento de nenhum político" diz a mensagem que circula nos grupos dos extremistas com a explicação sobre o significado de "ucranizar".

As orientações aos adeptos apontam que "a faxina tem que ser geral". "Eu me preparei pra esse momento por entender que essa será a única forma de pôr fim nessa corja maldita!", diz o texto padrão enviado por organizadores.

Mensagens que circulam em grupos virtuais defendem levante inspirado na Ucrânia de 2014
Mensagens que circulam em grupos virtuais defendem levante inspirado na Ucrânia de 2014
Foto: Reprodução / Estadão

A convocação é feita por grupos no Telegram, que têm administradores anônimos. O grupo principal, "Ucraniza Brasil DF", específico para o acampamento em Brasília, tem 180 membros. Há um outro, geral, com mais de 17 mil pessoas. Os administradores fazem convocações e ameaças constantemente: "Precisamos de vocês em nossa base montada em Brasília. Essa é a hora do projeto Ucraniza Brasil mostrar a que veio".

Um dos poucos organizadores que se identifica é Alex Silva. Brasileiro, ele conta que vive na Ucrânia e é de lá que envia os vídeos. O extremista criou polêmica, em junho de 2020, ao aparecer em manifestações pró-Bolsonaro, na Avenida Paulista, levando uma bandeira com símbolos tradicionais ucranianos que foram apropriados por movimentos radicais do país europeu.

O estandarte rubro-negro tem um Tryzub, uma espécie de tridente que representa a Santíssima Trindade. Foi transformado em símbolo do Pravy Sektor, um movimento paramilitar de extrema-direita, considerado ultranacionalista e neofascista. Em 2014, com a crise política ucraniana, o movimento virou partido político.

Em vídeo disparado para os simpatizantes brasileiros, Alex Silva diz que manifestações como as de 7 de Setembro "não servem para absolutamente nada" e orienta os brasileiros a radicalizar, com manifestações violentas. O extremista aparece vestido com trajes militares e tem, ao fundo, a bandeira rubro-negra.

"Se você quer resolver o seu problema, essa é a dica. Simples. Povo brasileiro, você não tem que pedir, eu te autorizo. Você tem que saber pedir (ele fala enquanto aponta para uma foto de destruição na Ucrânia), gritar para os políticos e exigir que eles assim o façam, porque, se não (ele fala enquanto aponta para uma imagem de manifestantes ucranianos enfileirados com bastões em mãos, com os dizeres 'assim você acaba com políticos e ditadores'), é claro, você vai fazer e falar de outra maneira. Entenderam o recado?", afirmou Silva, em vídeo enviado no último dia 16.

Apesar do suposto interesse na "faxina geral", o grupo é bolsonarista. No aplicativo de mensagens e nas faixas que destacam na entrada do acampamento estão palavras de ordem em defesa do presidente e contra instituições e demais alvos apontados como "inimigos do povo". Os alvos são semelhantes àqueles selecionados por Bolsonaro nos discursos do dia 7 de setembro. "O fim do STF, a maior conquista do povo brasileiro", diz uma das mensagens.

A mobilização dos extremistas infringe a legislação do Distrito Federal. Uma lei complementar, de dezembro de 2019, proposta e sancionada pelo governador Ibaneis Rocha (MDB), proíbe o uso residencial dos parques urbanos do DF, ainda que temporariamente.

Procurado pelo Estadão, o governo do DF informou que não concedeu autorização formal para acampamento no Parque da Cidade a nenhum grupo. A Secretaria de Esporte e Lazer, que administra o espaço, e a Secretaria de Segurança Pública, disseram que trabalham para, "o quanto antes, realizar a desocupação do local".

O governo não deu prazo nem explicou como se dará a retirada. Também não comentou o teor nem os objetivos do grupo instalado no parque.

Estadão
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