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Política

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Especialistas apontam lições da esquerda de outros Países que Lula deixou de aproveitar no Brasil

Eleições recentes na América Latina e surgimento de novos líderes de esquerda nos EUA contam com tendências nas quais o candidato à reeleição poderia ter investido

20 out 2026 - 10h11
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Resumo
Especialistas apontam que Lula falha ao não aproveitar lições da esquerda internacional. No México, Claudia Sheinbaum se fortaleceu com foco efetivo em segurança pública, área fraca do petismo. No Uruguai, Yamandú Orsi consolidou uma frente ampla real, promessa que Lula não sustentou em seu governo. Já nos EUA, novos democratas se destacam pela renovação geracional e comunicação moderna, contrastando com a dificuldade do PT em propor soluções para as novas dinâmicas da economia digital.

Após ficar atrás de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno da disputa pela Presidência da República por mais de 2 milhões de votos, Lula (PT) promoveu mudanças claras na campanha.

Lula ao lado de Zohran Mamdani, prefeito de Nova York
Lula ao lado de Zohran Mamdani, prefeito de Nova York
Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República / Estadão

Na comunicação pelas redes sociais, passou a utilizar mais vídeos selfie, sem muita produção, a exemplo do que tem feito o rival. Em termos de pautas políticas, subiu o tom na questão da segurança pública, defendendo inclusive a redução da maioridade penal para crimes hediondos.

Nesse contexto, o professor Leonardo Paz Neves, pesquisador do Núcleo de Inteligência Internacional da Fundação Getúlio Vargas (FGV), destacou o papel da segurança pública na ascensão da presidente mexicana e na sua popularidade, que atingiu 70% em setembro, de acordo com o jornal El Financiero.

"No México, o governo federal é responsabilizado pela segurança, mas consegue responder na ponta da linha. Ela (Sheinbaum) conseguiu fazer uma boa política de segurança para a Cidade do México e depois replicá-la no país. Diz que investiu muito em inteligência, prevenção de crimes e algumas operações mais duras", explicou o cientista político.

Contudo, a ressalva feita por Neves sobre as diferenças nas estruturas policiais do México e do Brasil é importante.

Em 2019, López Obrador criou a Guarda Nacional, tendo o combate ao narcotráfico como uma das principais motivações. A instituição comandada pela Secretaria de Defesa Nacional (SEDENA) é militarizada e realiza policiamento ostensivo nacionalmente.

No Brasil, a segurança é vista como um ponto fraco da gestão petista, mas a Polícia Federal tem uma atuação mais restrita, focada em investigação de crimes específicos.

Nesse cenário, a segurança no dia a dia da população depende predominantemente da Polícia Civil e da Polícia Militar, ambas sob ordens dos governos estaduais.

Frente Ampla uruguaia mostra força e diálogo para além do próprio nome

Lula venceu o pleito de 2022 sob o discurso de mobilizar uma frente ampla brasileira contra a reeleição de Jair Bolsonaro. Trouxe Geraldo Alckmin (PSD), um adversário de outros tempos, para o posto de vice-presidente.

À época, o veterano também angariou apoio de Simone Tenet (PSD), que concorreu à Presidência pelo MDB. Ela endossou a candidatura petista no segundo turno e, posteriormente, ocupou o cargo de Ministra do Planejamento e Orçamento por mais de três anos.

Ainda assim, na visão de Leandro Consentino, professor do Insper e cientista político, faltou ao presidente brasileiro investir efetivamente na participação de mais partidos durante sua administração.

Ele utilizou a vitória de Yamandú Orsi nas eleições do Uruguai, em 2024, para destacar a força do discurso de frente ampla como estratégia de campanha.

"O Uruguai pode ser um caso importante para olhar no que diz respeito a formar uma frente ampla de verdade. Acho que o Lula pecou muito em acenar com isso em 2022 e não cumprir essa promessa de um governo de frente ampla", afirmou Consentino.

Segundo o especialista, Orsi — filiado ao partido Frente Ampla — tirou do discurso e colocou em prática a ideia que dá nome à legenda. Na sua visão, porém, Lula não consegue replicar a tática por não ter entregado o que se esperava no atual mandato.

"Acho que o Yamandú fez de forma efetiva no Uruguai esse movimento que o Lula poderia ter construído. E aí, se ele (Lula) construísse isso, estaria numa situação muito mais confortável do que está hoje", explicou.

As novas lideranças de esquerda nos EUA

Nos Estados Unidos, enquanto a aprovação do presidente Donald Trump atinge mínimas históricas, novos rostos ganham popularidade na oposição. São os casos, por exemplo, de Alexandria Ocasio-Cortez (parlamentar da Câmara dos Representantes por Nova Iorque), Josh Shapiro (governador da Pensilvânia) e Zohran Mamdani (prefeito de Nova Iorque).

Para Neves, a ascensão dessas figuras do Partido Democrata, especialmente as mais jovens como Cortez e Mamdani, está intimamente ligada à renovação do grupo político.

Frutos de outra geração, esses personagens estariam ligados a ideias e formas de comunicação mais modernas em relação a democratas veteranos que, assim como o lulopetismo, esbarrariam em valores e soluções de outros tempos.

"O PT tem dificuldade de lidar com essa nova economia digital, por exemplo. Eles não conseguem oferecer uma solução trabalhista que encaixe o motorista de Uber e o garoto do iFood. Esse pessoal não quer uma política nos moldes da CLT, pensada no contexto de operários... Acho que essa mudança de geração nos EUA tem mais a ver com isso, com a leitura de um novo cenário internacional, entendimento de novas alianças, novas dinâmicas", opinou o professor da FGV.

O panorama é positivo, mas a safra emergente de democratas ainda precisa se provar. Em novembro ocorrem as midterms, eleições de meio de mandato no país, dando ao grupo a oportunidade de tirar do Partido Republicano o controle sobre o Senado e a Câmara.

Estadão
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