Eduardo Bolsonaro ameaça fazer 'faxina' no Itamaraty caso irmão Flávio seja eleito presidente
Ex-deputado cotado para comandar MRE em eventual governo do candidato do PL diz que vai estar 'na cola' de diplomatas suspeitos de sabotagem
Eduardo Bolsonaro prometeu realizar uma "faxina" no Itamaraty caso seu irmão, Flávio Bolsonaro, vença a eleição presidencial. O ex-deputado afirmou ter mapeado diplomatas para coibir supostas sabotagens ideológicas e reagiu a notícias sobre o apoio da embaixada em Madri à mudança do filho do presidente Lula. O plano de expurgar servidores vistos como de oposição gera forte apreensão na diplomacia, entre empresários e políticos, que temem uma gestão externa radicalizada nos moldes trumpistas.
BRASÍLIA - O ex-deputado Eduardo Bolsonaro prometeu fazer uma "faxina" no Itamaraty, caso seu irmão Flávio Bolsonaro (PL) seja eleito presidente da República. Ele afirmou que fez pessoalmente um mapeamento de quem é quem na chancelaria brasileira. "O Itamaraty precisa de uma faxina urgente e nós vamos fazê-la", publicou o ex-parlamentar nas redes sociais, nesta quarta-feira, dia 30.
Eduardo Bolsonaro afirmou que a "faxina" seria necessária para evitar que servidores de Estado fizessem algum tipo de resistência ou, nas palavras dele, "sabotagem" a políticas que Flávio deseje implementar. Segundo ele, no governo do pai houve "sabotagem" e depois diplomatas contaram ao jornalista Jamil Chade porque estavam "à vontade" e foram retratados como heróis.
"Eu tive o trabalho pessoal de mapear todos os embaixadores e diplomatas do MRE. Quem saiu de tal posto e foi para outro país. Quem o Lula, logo na transição, pediu que arrumasse as malas às pressas, dando uma semana de prazo para certos embaixadores saírem de determinados países e retonarem para o Brasil, pouco se importando se eles tinham filho em escola no exterior ou como estaria a vida deles, não dando tempo para se organizar", relatou o ex-deputado, em vídeo nas redes sociais.
Em seguida, ele ameçou: "Meu caro servidor do Itamaraty, se você ajudou a sabotar o governo Bolsonaro preocupe-se de verdade, porque eu vou estar na tua cola. Se você não fez isso, parabéns, você fará parte do time que irá resgatar a credibilidade do Itamaraty e virar a página de serem servidores de corrupto e filho de corrupto para passar a servir ao povo brasleiro".
Eduardo reagiu à notícia de que, em 2025, o então embaixador do Brasil em Madri, Orlando Leite Ribeiro, prestou apoio e trocou informações para ajudar na mudança e instalção na Espanha de Fábio Luis Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e sua mulher, Renata de Abreu Moreira.
Mensagens sobre a ajuda com escolha de bairro, busca de escolas e envolvimento de uma funcionária da embaixada foram recuperadas no celular da lobista Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha. Elas foram veiculadas no Metrópoles. O Estadão confirmou parte do auxílio com o embaixador Ribeiro e com o Itamaraty.
"Embaixador e diplomatas do MRE, pagos com o seu dinheiro, receberam e satisfizeram os mimos de Lulinha na Espanha", disse o ex-parlamentar. "Flávio Bolsonaro sendo eleito, um dos primeiros a sair do posto certamente será o embaixador do Brasil na Espanha, para dar o exemplo de que isso não acontecerá mais."
Orlando Leite Ribeiro atualmente é embaixador em Praga, República Tcheca. Em Madri, o chefe da missão é o ex-chanceler Luiz Alberto Figueiredo.
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Cassado pela Câmara e condenado pelo Supremo Tribunal Federal por coação, Eduardo Bolsonaro vive nos Estados Unidos em uma espécie de autoexílio e é um dos nomes mais influentes nas relações exteriores conduzidas pelo bolsonarismo.
Ele representa o clã Bolsonaro em eventos e junto a movimentos da direta radical global. Também mantém interlocução direta com o governo Donald Trump, e liderou uma campanha em prol de punição a autoridades brasileiras, que resultariam no tarifaço, na cassação de vistos e aplicação de sanções financeiras.
Como o Estadão mostrou, o Eduardo planeja exercer influência no MRE em caso de vitória na eleição de Flávio Bolsonaro. O candidato do PL teve que tentar demover um movimento de bastidores, de políticos e do empresariado, preocupado com a ideia de ter nova influência do irmão sobre o Ministério das Relações Exteriores.
Visto como mais ideológico e radical, Eduardo protagonizou embates com a China no governo do pai, exerceu poder no MRE durante a gestão Ernesto Araújo. Ele era presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara e desagradou o agronegócio, que tem clientes de peso em Pequim. Eduardo era visto como um chanceler paralelo e mantinha agenda externa própria. Em algumas ocasiões, ocupou posições de mais destaque que o ex-ministro, como numa visita a Donald Trump, no Salão Oval.
Também cooperaram na construção das propostas de governo de Flávio o embaixador Roberto Azevêdo, ex-diretor da Organização Mundial do Comércio, o diplomata e ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento Marcos Troyjo e o ex-secretário de Produtos de Defesa Marcos Degaut - este último, o mais próximo colaborador de Eduardo.
Há meses, nomes ligados a Flávio Bolsonaro vêm fazendo pressão aberta sobre o MRE. E causado preocupação nos bastidores, além de uma série de especulações. Para conter temores do mercado, parte dos aliados de Flávio passou a pregar um nome com trânsito político e no agro para o MRE: a senadora e ex-ministra da Agricultura Teresa Cristina.
Em maio, quando Flávio e Eduardo estiveram juntos em Washington para uma visita a Donald Trump, o gabinete do senador pediu de última hora apoio da embaixada e não recebeu. Após a visita ao presidente dos EUA, Flávio acusou o órgão de uma atitude "mesquinha" e de "aparelhamento ideológico".
Paulo Figueiredo, comunicador ligado aos Bolsonaro que exerce lobby político nos EUA, afirmou que a embaixada agia como órgão de "partido". Ele também já disse, no contexto das disputas sobra a culpa pelo tarifaço, que "em janeiro vai ter muita gente transferida para a embaixada da puta que pariu!!" e que a embaixadora do Brasil, Maria Luiza Viotti, deveria ser alvo da polícia migratória americana, o ICE, depois que seu visto teve a quantidade de entradas nos EUA reduzida para apenas uma.
Dentro da diplomacia, existe temor e especulação de que Flávio Bolsonaro implante uma fórmula similar à conduzida por Marco Rubio e Donald Trump no Departamento de Estado, com expurgos de servidores considerados não confiáveis e de perfil mais sênior, em prol de diplomatas mais novos na carreira.
A diplomacia trumpista também esvaziou a representação americana no mundo e passou a dar cargos de mais alto poder a apadrinhados políticos, familiares e empresários, em vez de diplomatas de carreira.
Para exercer uma reforma similar, seria preciso que Flávio aprovasse um projeto de lei a fim de mudar a Lei do Serviço Exterior Brasileiro, quebrando a exclusividade da carreira aos principais postos de gestão da Secretaria de Estado.
Embaixadores afirmam que a combinação pode ser explosiva se houvesse acordo com o Senado. Nesse cenário, poderiam ainda reviver a PEC das Embaixadas, por meio da qual senadores tentaram revogar a necessidade de renúncia ao mandato para políticos que desejassem exercer a função de embaixador fora do País.
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