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'Discípulo' de Amorim, Patriota não resiste a nova polêmica no Itamaraty

Ex-ministro já sofrera pressões em casos envolvendo as relações com os vizinhos americanos

26 ago 2013
22h34
atualizado às 22h54
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Antonio de Aguiar Patriota, ministro das Relações Exteriores desde o dia 1º de janeiro de 2011, renunciou nesta segunda-feira ao cargo após o conflito gerado pela turbulenta fuga do senador boliviano Roger Pinto Molina, que azedou as relações com a Bolívia e causou a primeira renúncia nesse posto desde 2001. Patriota, fiel discípulo do chanceler anterior, Celso Amorim, assumiu as rédeas da diplomacia brasileira no mesmo dia da posse da presidente Dilma Rousseff. O ministro era alvo de comparações constantes com Amorim, mas ainda assim conquistou seu espaço e se consolidou no cargo.

<p>Antonio Patriota deixa o comando do Ministério das Relações Exteriores</p>
Antonio Patriota deixa o comando do Ministério das Relações Exteriores
Foto: Ueslei Marcelino / Reuters

No entanto, não suportou a pressão gerada pela cumplicidade brasileira na fuga da Bolívia do senador Pinto Molina, que estava asilado na embaixada do País em La Paz e fugiu ao Brasil com ajuda diplomática e sem o devido salvo-conduto.

A pressão foi similar a que Patriota sofreu quando foi cassado o presidente do Paraguai, Fernando Lugo, o que, segundo disseram na época fontes diplomáticas, o deixou à beira da demissão, por não ter previsto os eventos num país com o qual o Brasil mantinha uma estreita relação. Sua atuação também fora criticada no caso dos brasileiros presos na Bolívia, acusado de envolvimento na morte de um torcedor local durante um jogo de futebol; e quanto à espionagem americana ao Brasil e outros países do América do Sul.

Desta vez, no entanto, não resistiu e apresentou sua demissão, que, segundo uma nota oficial, foi aceita imediatamente por Dilma, que, além disso, o nomeou embaixador do País perante à ONU, cargo até então ocupado justamente por seu sucessor no ministério, Luiz Alberto Figueiredo Machado.

Perfil
Patriota, 59 anos, ingressou na carreira diplomática após formar-se em filosofia na Universidade de Genebra, e antes foi vice-ministro das Relações Exteriores, cargo que assumiu em outubro de 2009, quando retornou ao País após exercer a função de embaixador nos Estados Unidos durante dois anos.

Desde que começou sua carreira no serviço diplomático, em 1979, ocupou diversos cargos nas embaixadas em Caracas, Pequim e na missão brasileira na ONU, além de ter sido secretário-geral de Política Externa do Ministério das Relações Exteriores e assessor diplomático da Presidência da República.

Também trabalhou na Missão Permanente do Brasil perante organismos internacionais em Genebra, foi secretário de Planejamento Diplomático do Itamaraty e chefe do gabinete de Amorim entre 2004 e 2005, quando foi designado subsecretário político do ministério.

Patriota obteve mais projeção como embaixador do Brasil nos Estados Unidos, cargo para o qual foi nomeado em 2007. "Retorno de Washington com um retrato atualizado do interesse e do respeito que o Brasil desperta nos EUA", declarou Patriota ao assumir como vice-chanceler.

Nesse cargo teve ativa participação em reuniões da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e outros organismos, nos quais se movimentou com destreza durante os dois anos e quase oito meses que foi ministro das Relações Exteriores.

Patriota manteve as linhas mestras da política externa impulsionada pelo governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, baseadas na busca de uma maior cooperação no eixo sul-sul e com forte acento sul-americano.

No entanto, foi criticado por não ter conseguido alcançar o brilho de Amorim, o que em parte se deveu ao fato de Dilma ter baixado o tom da política externa, que não teve para ela a prioridade que Lula lhe atribuía.

De personalidade afável, sempre moderado em suas declarações e com muito boa relação com a imprensa, Patriota era considerado um dos "símbolos da continuidade" da gestão de Lula tão proclamada por Dilma.

Durante oito dos 24 anos que tem no serviço exterior, Patriota trabalhou em diversos cargos "cotovelo a cotovelo" com Amorim, chanceler de Lula entre 2003 e 2011 e de quem muitos lhe consideram seu melhor discípulo nas artes da diplomacia. O aluno, desta vez, não pôde igualar nem superar o mestre, que passou oito anos ininterruptos no cargo.

O último chanceler brasileiro a deixar o cargo era, até hoje, Luiz Felipe Lampreia, em 2001, que renunciou em meio a divergências com outros ministros do governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso. 

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EFE   
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