Com disputa acirrada, Lula adota tom cauteloso na campanha para minimizar riscos
Em empate técnico com Flávio Bolsonaro, Lula adota cautela máxima na campanha para evitar desinformação, desgaste com denúncias e acusações de uso da máquina pública. O Planalto impôs controle rigoroso sobre atos e redes para blindar o presidente. Paralelamente, o rival também enfrenta polêmicas financeiras, enquanto analistas apontam apatia e cansaço do eleitorado diante da polarização, cenário agravado por regras do TSE que limitam o alcance das campanhas nas redes sociais às próprias bolhas.
A poucas semanas das eleições de outubro, o Brasil ainda vive uma campanha sem grandes emoções, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que lidera as pesquisas com uma margem mínima, adota um tom cauteloso para minimizar riscos de última hora.
Assessores de Lula admitem que a cautela este ano está muito maior do que em outras campanhas, apontando os riscos de desinformação, interferência internacional e ações judiciais.
"É um sentimento real. Temos que estar muito mais atentos. Essa capacidade de confundir o eleitor hoje é ainda muito maior do que em 2022", disse um dos integrantes da coordenação da campanha à reeleição do petista.
As últimas pesquisas mostram uma redução considerável da vantagem de Lula, chegando ao empate técnico com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), segundo colocado. O quadro piorou para o presidente especialmente depois da sequência de denúncias envolvendo Fábio Luís, um dos filhos de Lula, e de seu ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Ribeiro.
Dentro do Palácio do Planalto, a ordem é olhar com lupa todas as ações do governo para evitar acusações de uso da máquina pública ou dar espaço para que a oposição deturpe falas ou ações do presidente, o que resultou em um grau de controle nunca visto em pleitos anteriores.
Ministros tiveram que apagar postagens em redes sociais, o governo parou com a transmissão de eventos na emissora estatal de tevê -- mesmo quando são ações presidenciais, e não atos de campanha -- e anúncios de governo são esquadrinhados para não darem margem a distorções.
A crise de boatos sobre o Pix, no final de 2024, deixou um trauma que o governo Lula não quer correr o risco de repetir. Em setembro daquele ano, um decreto técnico do Ministério da Fazenda que mirava identificar operações financeiras ilegais acabou gerando uma onda de notícias falsas, patrocinada por deputados da oposição, em que o governo foi acusado de querer monitorar o uso da ferramenta de pagamento para taxar os consumidores.
O desgaste gerado pela confusão levou à revogação da norma e impactou diretamente a aprovação do governo.
"Acho que há um certo exagero nessa preocupação com a violação da lei. Governos anteriores não tinham absolutamente nenhuma preocupação com isso", disse uma fonte. "A legislação brasileira é clara: em algum momento, o ocupante do cargo será presidente e candidato ao mesmo tempo."
Apesar de toda essa cautela, Lula não foi poupado de uma tempestade nas redes sociais na semana passada. Durante uma entrevista, ele afirmou nunca ter conhecido uma lobista que está sendo investigada por corrupção, mas fotos dos dois juntos no Instagram ressurgiram rapidamente e circularam na internet.
Sua campanha alegou que ele é frequentemente abordado por pessoas que pedem para tirar fotos, mas ele afirma não ter qualquer relação com a lobista.
A campanha petista aponta ainda o risco de interferência internacional, especialmente do governo dos EUA que incentiva uma guinada à direita na América Latina, como mais um fator de cautela.
"O governo dos EUA hoje tem uma disposição clara para intromissão nas eleições na região e vê o Brasil como a última trincheira na 'onda azul' que eles iniciaram na região", analisa uma fonte próxima a Lula.
O Departamento de Estado não respondeu ao pedido de comentário da Reuters, mas o órgão já havia rejeitado anteriormente as acusações de interferência eleitoral por parte do governo brasileiro.
As tempestades aparecem para os dois lados.
Flávio Bolsonaro enfrentou sua própria controvérsia nas redes sociais esta semana, depois que a revista Piauí revelou que ele solicitou um pagamento de US$1,6 milhão ao banqueiro Daniel Vorcaro, que está preso. O valor se soma a outros US$ 24 milhões revelados em maio, que o senador alega terem sido um investimento para financiar um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
POLARIZAÇÃO
Os motivos por trás da campanha discreta, no entanto, vão além da cautela de Lula.
Analistas apontam a polarização entre Lula e o campo de Bolsonaro como um fator que contribui para o cansaço do eleitorado, o que, em última análise, se traduz na apatia generalizada observada nas ruas.
"Na presidencial a gente percebe, principalmente nos pocket groups, que as pessoas estão desoladas com as opções e a falta de novidades", disse Cila Schulman, CEO do instituto de pesquisa Ideia. "Os dois caminhos são conhecidos, já foram tentados."
É o que diz, também, a campanha de Flávio Bolsonaro. Em pesquisas qualitativas, disse uma fonte, apareceu que os eleitores, mesmo os que apoiam Lula ou o bolsonarismo, declaram-se cansados da briga política, e isso teria se refletido já em um menor engajamento nas campanhas.
Luis Fakhouri, diretor de estratégia da Palver, empresa de inteligência de dados que faz monitoramento de redes sociais, diz que existe um engajamento, mas que tem sido mais restrito às próprias bolhas.
"Nas campanhas de Lula e Flávio se não há muito movimento pelos outros é benéfico para eles. Quem deveria colocar fogo seriam os outros", diz.
Uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no entanto, tornou ainda mais difícil o engajamento das redes ao proibir que as plataformas ofereçam conteúdos de candidatos a quem não os segue.
"Essa decisão vai fazer muita diferença, porque as informações vão chegar para as próprias bolhas", diz Cila Schulman.
Fakhouri acrescenta que para sair desse círculo as campanhas vão depender mais de parcerias e influenciadores. "Quem preparou essa base antes da campanha tem mais chance de ocupar espaço", explica.
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