Caiado é peça central da eleição ao governo de Goiás em meio a dificuldades no nível nacional
Candidato do PSD ao Planalto tem mantido presença frequente no Estado e tem destaque no horário eleitoral do governador Daniel Vilela, enquanto Marconi Perillo aposta na própria trajetória e Wilder Moraes tenta ocupar espaço da direita bolsonarista
Com 84% de aprovação, Ronaldo Caiado atua como cabo eleitoral decisivo para manter seu grupo no poder em Goiás e apoia Daniel Vilela, líder nas pesquisas com 43,5% dos votos contra Wilder Morais (20,1%) e Marconi Perillo (16,1%). A presença constante no estado reforça a chapa de Vilela e de sua esposa ao Senado, compensando as dificuldades de Caiado em projetar nacionalmente sua pré-candidatura à Presidência, limitada pelo desconhecimento fora do estado e pela forte polarização da direita.
"Toca aí, Daniel". É assim que Ronaldo Caiado encerra a narração que abria o primeiro programa eleitoral de Daniel Vilela (MDB), seu ex-vice e hoje governador de Goiás. Mesmo fora do comando do Estado desde março para disputar a candidatura à Presidência, Caiado segue como a peça mais decisiva na corrida pelo governo de Goiás. Sem decolar na corrida presidencial, ele tem inclusive marcado presença com frequência no Estado para tentar garantir a permanência de seu grupo político no poder.
Nesta terça-feira, após recuperar-se de uma pneumonia, ele esteve novamente em Goiás, em Aparecida de Goiânia, onde participou de um ato em favor de Daniel Vilela. Na semana anterior, o dia 7 de Setembro também foi em Goiânia, onde Caiado assistiu ao desfile cívico em comemoração à Independência do Brasil. Pesa também por esse presença frequente o fato de a mulher do presidenciável, Gracinha Caiado (União), ser candidata ao Senado do grupo de Vilela.
Na última pesquisa AtlasIntel para Estado, divulgada no dia 3, Daniel Vilela aparece com 43,5% das intenções de voto, bem à frente do senador Wilder Morais (PL), com 20,1%, e que está tecnicamente empatado com o ex-governador Marconi Perillo (PSDB), que soma 16,1%. A pesquisa, registrada sob o protocolo GO-05293/2026, tem margem de erro de três pontos percentuais, para mais ou para menos.
"Caiado é um grande eleitor, ele deixa uma grande herança", diz Carvalho. Para o cientista político, porém, a manutenção dessa herança depende de uma "engenharia política" capaz de preservar a base construída ao longo dos anos de governo. Não é uma herança pequena. O governo de Caiado é aprovado por 84% dos eleitores goianos, segundo pesquisa Quaest divulgada em 30 de julho de 2026.
A forte associação entre Caiado e Vilela também chegou à Justiça Eleitoral. O Tribunal Regional Eleitoral de Goiás (TRE-GO) chegou a suspender, no final do mês passado, duas peças da propaganda de TV de Vilela com participação do ex-governador, por entender que elas extrapolavam o resgate histórico e configuraram promoção eleitoral. O pedido partiu do PL, que também disputa o eleitorado de direita e afirmou, em nota, que sua candidatura "não precisa tomar emprestada a imagem de ninguém". Um recado direto à estratégia do MDB. As decisões acabaram derrubadas na sequência.
Enquanto isso, o candidato do PL ao governo, Wilder Morais, tenta se apresentar como uma alternativa ao grupo que comandou Goiás nos últimos anos, aproximando sua campanha do bolsonarismo e do eleitorado que se identifica com o ex-presidente Jair Bolsonaro.Em tom emocional, desde o início, a propaganda do atual candidato do PL recorre a símbolos como fé, família, trabalho, campo e a trajetória do desenvolvimento de Goiás para criar laços com o eleitor goiano. A mensagem é construída sem ataques diretos aos adversários e se concentra da ideia de que "dá para fazer mais", apoiada ao final com o número 22 e imagens do candidato ao lado de Jair e Flávio Bolsonaro.
Se Vilela aposta na continuidade do governo Caiado, Marconi Perillo escolheu outro caminho: transformar a própria trajetória na principal estratégia para voltar ao Palácio das Esmeraldas, residência oficial do governador de Goiás.
Com cerca de 30 segundos por horário eleitoral, o tucano transformou o pouco tempo disponível em parte da própria mensagem. No primeiro programa, exibido na sexta-feira, 28, a campanha acelerou imagens e narração para relembrar realizações dos quatro mandatos de Marconi à frente do Estado, como o HUGOL, a Universidade Estadual de Goiás (UEG), a Bolsa Universitária, os colégios militares, as Patrulhas Maria da Penha. A propaganda também direcionou o eleitor para as redes sociais, onde a campanha promete detalhar propostas.
Na segunda-feira, 31, o tom ficou mais duro. Marconi abriu a propaganda afirmando que Daniel "já começou a campanha dizendo mentiras" e se apresentou como uma ameaça ao atual grupo político. Disse que pretende "acabar com os esquemas do atual governo, com o desperdício de dinheiro e propaganda e com tudo que está errado".
A campanha combina dois movimentos: recupera a imagem de Marconi como ex-governador com oito anos no poder e converte essa trajetória em munição contra a gestão atual, deslocando o adversário de Vilela para o próprio grupo político no poder.
Para o cientista político Guilherme Carvalho, a estratégia tem limites. Marconi mantém eleitorado e trajetória conhecidos, mas tem dificuldade em transformar a crítica ao governo em proposta de futuro. "Ele não consegue transmitir a sensação de que vai governar Goiás para o futuro", diz.
Enquanto Ronaldo Caiado mantém peso na disputa estadual, sua tentativa de levar essa força para além de Goiás enfrenta outro cenário. Fora de Goiás, o ex-governador encontra dificuldades para transformar a influência construída localmente em uma candidatura competitiva à Presidência.
Segundo o cientista político, ele enfrenta dificuldade para romper a polarização nacional porque não apresenta uma diferenciação suficientemente clara em relação aos principais nomes da direita. O sistema eleitoral de dois turnos favorece a concentração dos votos em candidaturas com maior competitividade, enquanto candidatos posicionados como uma "terceira via" encontram mais dificuldade para avançar.
"Caiado sempre foi uma liderança de nicho", afirma Carvalho. Para ele, o ex-governador construiu uma trajetória de forte reconhecimento entre setores da elite política e do agronegócio, mas ainda é pouco conhecido pelo eleitorado nacional. Além disso, sua plataforma apresenta pontos de proximidade com a de Jair Bolsonaro, o que dificulta a disputa por um eleitorado que tende a priorizar o candidato que considera mais competitivo contra o PT.
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