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Política

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Amiga de Lulinha foi de conta zerada e marido como fonte de renda a contratos milionários de lobby

Em 2019, Roberta Luchsinger teve gravuras de Portinari penhoradas para pagar calote de R$ 35 mil e cinco anos disse mirar 'R$ 100 milhões este ano'; defesa critica vazamentos e pede apuração

28 ago 2026 - 19h34
(atualizado às 19h55)
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Resumo
Após alegar falta de recursos e sofrer penhora de bens por dívidas em 2019, a socialite Roberta Luchsinger viu sua empresa prosperar e movimentar mais de R$ 10 milhões em contratos de lobby. Próxima a lideranças petistas e amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, ela agora é investigada pela Polícia Federal e pelo Supremo Tribunal Federal por suspeita de tráfico de influência e facilitação de negócios em órgãos e ministérios do governo federal.

BRASÍLIA - Era agosto de 2019. Uma oficial de Justiça acompanhada por policiais militares bateu à porta de Roberta Luchsinger, em Higienópolis, São Paulo (SP), para proceder à penhorar bens. A socialite havia dado um calote de R$ 35 mil em uma loja de móveis e decorações. A dívida, contraída em 2011, rolou até o credor ganhar o direito ao confisco de objetos de valor.

Foram levadas 14 gravuras de Cândido Portinari em nanquim que ela tinha em casa, um conjunto de arte avaliado em R$ 70 mil. A medida foi adotada após sucessivas derrotas na Justiça e dois acordos firmados por ela com a loja em 2017 e não cumpridos.

Roberta Luchsinger alegou no processo que não tinha dinheiro para quitar a cobrança e que sua única fonte de renda era o então marido. Ela era casada com o ex-delegado e ex-deputado Protógenes Queiroz. Em 2016, ele obteve asilo político na Suíça depois de alegar perseguição política no Brasil por causa de seu papel à frente da Operação Satiagraha.

"A requerida não possui condições de arcar com esse valor, haja vista que seu marido, ex-delegado, Protógenes Queiroz se encontra asilado na Suíça com bens e contas bloqueadas. Como sua única fonte de renda era seu marido, não há possibilidade de efetuar o pagamento", dizia a petição protocolada em 29 abril de 2017.

A versão não convenceu os advogados dos credores que pediram o bloqueio de bens e valores nas contas bancárias dela, moradora de um dos bairros mais nobres da capital paulista. A medida também se mostrou infrutífera. As contas estavam zeradas e o carro dela já tinha restrições judiciais.

O serviço contratado por Roberta, em 2011, foi de R$ 61,2 mil. Ela pagou R$ 24,6 mil em um depósito e mais R$ 1,4 mil em dinheiro. O saldo devedor ficou em R$ 35,2 mil. Com juros, a dívida chegou a R$ 76 mil.

O débito veio à tona nos idos de 2017 porque Roberta Luchsinger, que se apresentava como socialite e herdeira de banqueiro do Credit Suisse, deu declarações à imprensa dizendo que doaria R$ 500 mil a Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tivera bens bloqueados pela Lava Jato - ele seria preso no ano seguinte.

"Com o bloqueio dos bens de Lula, Sérgio Moro (juiz da Lava Jato) tenta inviabilizá-lo tanto na política quanto pessoalmente. Vou fazer uma doação para que o presidente possa usar conforme as necessidades dele", disse à Folha de S. Paulo, conforme publicado em 12 de agosto de 2017.

Se ela tinha dinheiro para doar para Lula, tinha para pagar a dívida com a loja que já se arrastava há seis anos. Os advogados do lojista foram com esse argumento ao Judiciário, que proibiu Roberta de proceder com o que foi chamado na época de "Bolsa Lula".

"Deverá abster-se de qualquer ato de disposição graciosa dos bens até que pague a integralidade da dívida, sob pena de reconhecimento de fraude à execução, com a consequência ineficácia da operação", frisou o juiz Felipe Albertini Nani Viaro, da 26ª Vara Cível de São Paulo, em 11 de agosto de 2017.

Em uma justificativa apresentada ao dono da loja numa troca de e-mails, Roberta dizia que havia feito o pagamento por meio de uma terceira pessoa, e que era ela quem deveria ser cobrada. O dono da loja afirmou que a versão não fazia o menor sentido e relatou os prejuízos com os quais teve que arcar.

"Não sou uma empresa de grande porte, dependo do que faço para sustentar a minha família. Tive que vender meu único bem (carro) e pedir empréstimo no banco para poder quitar com essas pessoas que trabalharam. Espero que a senhora também entenda. Temos vários meio de resolver isso inclusive um parcelamento da dívida", respondeu.

Ele ganhou o processo na Justiça.

A aproximação de Roberta Luchsinger com as lideranças petistas se deu a partir da Lava Jato. Em 2018, ela concorreu a deputada estadual pelo PT em São Paulo e não foi eleita.

Sete anos depois de ser alvo da ordem de penhora de bens, ela viu seus negócios de lobby prosperarem por meio de sua empresa de consultoria, aberta em novembro de 2019.

Os pagamentos feitos a ela mapeados em investigações da Polícia Federal que vieram a público ultrapassam os R$ 10 milhões.

Em uma mensagem encontrada pela Polícia Federal no celular dela, a lobista escreveu em 2024 a um empresário que "Eu quero 100 milhões esse ano". Essa informação foi revelada pela revista Veja.

A lobista está relacionada a investigações que apuram suposto tráfico de influência dela e do filho mais velho de Lula, Fábio Luis Lula da Silva. Lulinha, como é conhecido, e ela são alvos de três inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF).

Ela também é investigada por sua relação com Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, apontado como artífice do esquema de fraudes a benefícios previdenciários.

A defesa critica vazamentos de informações sigilos e diz que só vai se manifestar nos processos.

As investigações mostram que ela usava acessos ao Palácio do Planalto, como ao filho do presidente e ao ex-chefe de gabinete, para tentar emplacar negócios de seus clientes.

Como mostrou o Estadão, as investigações mapearam investidas dela nos ministérios da Saúde e do Desenvolvimento Social, na Dataprev, no INSS e nos Correios.

Entre os pagamentos feitos a Roberta, R$ 1,5 milhão do Careca do INSS e pelo menos mais R$ 2,5 milhões de empresas do grupo do empresário Cleber Ribas, que conseguiu contratos no Ministério do Desenvolvimento Social e no governo do Maranhão.

Um hospital maranhense, mantido com recursos públicos pagou a ela outros R$ 4,4 milhões, e não explicou o motivo.

Estadão
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