Ação de Alcolumbre, pressão sobre o STF e soberba de Lula; veja análises sobre a rejeição de Messias
Colunistas do Estadão avaliam decisão que derrubou o nome do advogado-geral da União por 42 votos a 34 no Senado
A rejeição pelo Senado do nome de Jorge Messias, indicado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Supremo Tribunal Federal (STF) contou com uma articulação de Davi Alcolumbre e ofereceu recados à Corte em meio à pressão da população sobre os integrantes do tribunal. O atual advogado-geral da União recebeu 34 votos favoráveis e 42 contrários, em uma dura derrota para o Palácio do Planalto. Ao final da votação, Messias admitiu que "não é fácil passar pela reprovação", que não acontecia com nenhum indicado há 132 anos.
Veja como os colunistas do Estadão analisaram a decisão do Senado e suas repercussões:
Raquel Landim: Alcolumbre articulou derrota de Messias e mandou recado ao STF e a Lula
Segundo a colunista do Estadão, o presidente do Senado articulou intensamente, nos bastidores, para derrubar a indicação de Jorge Messias. Ele preferia Rodrigo Pacheco, ex-presidente da Casa e seu aliado.
"Ontem à tarde, ele previu em conversa com um senador que Messias teria apenas 33 votos favoráveis. Quase acertou em cheio. Foram 34 votos favoráveis - o candidato de Lula precisava de 41. O placar derrubou completamente as expectativas governistas que falavam em apoio de 45 senadores", destacou Raquel Landim.
Segundo ela, a rejeição teve a finalidade de passar recados ao STF diante dos escândalos do Banco Master e ao próprio Lula, que desafiou Alcolumbre.
Carolina Brígido: STF vê derrota de Messias no Senado como aviso sobre impeachment de ministros
De acordo com Carolina Brígido, no Supremo Tribunal Federal, o resultado foi interpretado de duas formas. A primeira é que houve uma desmoralização do governo Lula. A segunda é que o Senado enviou à própria Corte o recado de que, se hoje há maioria na casa para descartar um candidato a ministro, amanhã poderá também haver poder suficiente para um impeachment de quem compõe o tribunal.
"Na avaliação de um ministro que falou sob condição de anonimato, a votação da indicação de Messias foi uma demonstração de força do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da direita - que, juntos, somam 42 votos", informa Carolina Brígido.
Sérgio Denicoli: Rejeição de Messias é fruto do peso da opinião pública sobre o STF
Para Denicoli, outro componente que pesou contra Messias foi justamente a pressão popular existente contra o STF, que é fortemente rejeitado pela população. Segundo ele, houve um alinhamento claro dos senadores com esse sentimento, que ganhou força nas redes sociais nos últimos dias.
"Nas redes, segundo estudo da AP Exata Inteligência em Dados, nos últimos cinco dias, 70,1% das menções à Corte e aos ministros foram negativas. É um número avassalador para uma instituição que deveria estar entre as de maior confiança no País", aponta ele.
Segundo o colunista, "a imagem corroída da Corte foi claramente negligenciada por Lula". "Acreditando que articulações de bastidores garantiriam a entrada de Jorge Messias no seleto grupo de ministros, o presidente não ouviu o recado das ruas", enfatiza.
Ricardo Corrêa: Lula e Messias são lembrados, da pior forma, da força de Alcolumbre e da insatisfação com STF atual
De acordo com Ricardo Corrêa, o presidente Lula acabou descobrindo que, sem Davi Alcolumbre, ou contra ele, não consegue ter sequer maioria simples entre os senadores para aprovar suas pautas. Para ele, a decisão também indica a insatisfação do Congresso com o STF atual, sobretudo no momento em que emendas e o orçamento secreto começam a ser discutidos.
"As posturas de Gilmar Mendes, Flávio Dino, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, sobretudo, avançando sobre o Parlamento, galvanizaram um sentimento negativo que acabou desaguando sob Messias. Com ministros desautorizando CPIs, interpretando leis e mirando em parlamentares, o Congresso reagiu não apenas a Lula, mas também à Corte. Com impeachments de ministros travados por Alcolumbre, quis traçar uma linha para dizer que, de agora em diante, só entra na Corte quem o Parlamento verdadeiramente quiser", diz ele.
Fabiano Lana: Soberba na leitura política de Lula e caso Master derrubaram Messias
O colunista aponta que o presidente agiu com soberba ao indicar Messias e que ele não percebeu que boa parte da opinião pública passou a questionar o STF. Somou-se a isso, segundo ele, o escândalo do Master, que atingiu o Supremo "como uma estaca em um corpo doente".
"Messias não foi visto como uma solução para uma instituição percebida como defeituosa em vários aspectos. Não só no moral, mas também pelas acusações de usurpação de poder, a invadir terrenos da política e mesmo a praticar a censura", disse ele, completando:
"Falharam todas as articulações do governo, que envolveram cargos e emendas. Falhou o convencimento da opinião pública - e-mails dos senadores estavam abarrotados de mensagens contra Messias, por questões como aborto, saidinha de presos e ligações com petistas, entre outras. Falhou a reconquista de Alcolumbre por parte do Planalto".
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