0

Jovem de 16 anos é encontrado morto em escola ocupada no PR

24 out 2016
17h32
atualizado às 22h13
  • separator
  • comentários

Um adolescente de 16 anos foi encontrado morto dentro do Colégio Estadual Santa Felicidade, em Curitiba, por volta das 16 horas desta segunda-feira (24). Conforme a Secretaria de Estado da Segurança Pública e Administração Penitenciária do Paraná (Sesp), o jovem foi esfaqueado por um colega, também menor de idade, após ambos terem usado drogas sintéticas com mais um rapaz e se desentendido. Todos seriam alunos da instituição, que estava na lista de 835 ocupadas no Estado, e participantes da chamada “Primavera Secundarista”, movimento de luta contra a proposta de reforma no ensino médio. Depois do episódio, já no final da tarde, os demais estudantes acabaram deixando as dependências da escola.

Foto: Mariana Franco Ramos / Especial para Terra

"Esse crime está em vias de ser solucionado, num trabalho conjunto da Polícia Militar (PM) e da Polícia Civil (PC). Pelo que as diligências estão indicando, os dois rapazes e um outro menor [de idade], de 17 anos, que teria sido o autor do delito, fizeram uso de drogas. Dividiram o que chamam de ‘balinha’, compartilharam e ficaram alterados. Por conta disso, o grupo teria solicitado que eles se afastassem do movimento e eles teriam então ocupado um local que chamam de alojamento. Lá tiveram uma discussão (..) O autor estava portando uma faca de cozinha e proferiu os golpes, um deles na região do pescoço, que atingiu uma veia importante”, relatou o secretário Wagner Mesquita. 

Faca utilizada no crime
Faca utilizada no crime
Foto: Secretaria de Segurança Pública / Divulgação

Ainda segundo o chefe da pasta, outros adolescentes viram o jovem pulando o muro e a janela e saindo do colégio. “Equipes da P2 [serviço reservado da PM] localizaram o autor em casa, que foi preso [na realidade, adolescentes são apreendidos; não presos], confessou e está apresentando os detalhes”, prosseguiu. Ele teria sido levado à Delegacia do Adolescente. Mesquita não informou se adultos acompanharam as oitivas, nem deu detalhes de quantas testemunhas estiveram na escola no momento do crime. “O fato aconteceu à tarde. Foi uma atuação muito rápida. Mais detalhes só vamos dar amanhã, após formalizados todos os depoimentos”, justificou. 

O secretário contou que o inquérito policial do caso pode responsabilizar apoiadores da ocupação, incluindo familiares de alunos. “Foi solicitado que se encontrassem os articuladores, inclusive os pais. Temos notícia de coma alcoólico de menores [de idade] e outras situações que denotam que eles [pais] falharam no seu dever de tutela”, comentou. A Sesp também informou que abriu, na semana passada, um canal de denúncia para receber informações sobre a “Primavera Secundarista”. “Nos últimos seis dias, recebemos mais de 60 notificações de crimes de diversa natureza, como violência, ameaça e tráfico de drogas”.  Ele afirmou ainda que o governo avaliará que outras medidas tomar daqui por diante. 

Versões diferentes e mãe em estado de choque

Em frente ao colégio, onde a movimentação era intensa desde o ocorrido, representantes do Coletivo Advogados e Advogadas pela Democracia, que tem atuado na defesa dos estudantes secundaristas, informaram que, no início, foram impedidos de entrar. De acordo com a advogada Tânia Mandarino, os 12 alunos presentes foram ouvidos sem a presença de conselheiros tutelares, advogados ou defensores públicos. “Foram submetidos ao desconforto de uma cena de crime sem amparo psicológico e estão à deriva. A mãe está em estado de choque e os adolescentes precisando de apoio”, contou. A Sesp justificou  que em toda a investigação o local costuma ser isolado e liberado somente depois do trabalho na Polícia Científica.

Ao contrário de Wagner Mesquita, a advogada falou que os alunos não portavam armas. “Infelizmente foi um jovem de fora que pulou o muro e parece que foi localizado agora. Ele não fazia parte da ocupação, prova de que esse ódio todo insuflado pelo governador [Beto Richa, do PSDB] e autoridades funcionou. Temos um cadáver”, disparou. O movimento “Ocupa Paraná” também afirmou que a vítima não ocupava o colégio, mas que a notícia foi recebida com muita tristeza por todos aqueles que lutam por uma educação pública de qualidade no Brasil. “Não queremos e nem vamos culpabilizar ninguém pelo acontecido. Queremos apenas prestar solidariedade à família (…), que perde um dos seus para o ódio, para a intolerância e para a violência (…) Podem matar uma flor, mas jamais poderão deter a primavera. Seguimos em paz e unidos”, diz trecho de nota.

O governador Beto Richa (PSDB), o Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná (APP- Sindicato), a Secretaria de Estado da Educação (Seed) e a Procuradoria-Geral do Estado do Paraná (PGE-PR) também se manifestaram por meio de notas. Veja as íntegras:

Governador

"A morte do estudante Lucas Eduardo Araújo Mota, de 16 anos, é uma tragédia chocante, que merece uma profunda reflexão de toda a sociedade. É ainda mais gravíssimo e lamentável, porque aconteceu no interior de uma escola ocupada, que deveria estar cumprindo a sua missão de irradiar a luz do conhecimento e a formação da cidadania. Externo à família desse estudante a minha solidariedade neste momento tão doloroso. E renovo o meu apelo para que os pais redobrem o cuidado com seus filhos. Peço ainda, mais uma vez, que os estudantes encerrem esse movimento. A ocupação de escolas no Paraná ultrapassou os limites do bom senso e não encontra amparo na razão, pois o diálogo sobre a reforma do ensino médio está aberto, como bem sabem todos os envolvidos nessa questão. Que não se aleguem quaisquer justificativas para a continuidade desse movimento que vem causando prejuízos à educação do Paraná. É hora de responsabilidade e consciência sobre os direitos e deveres de estudantes, professores, famílias, autoridades e sociedade. 

Curitiba, 24 de outubro de 2016.

Beto Richa

Governador do Paraná".

APP-Sindicato

"A APP-Sindicato, que representa os trabalhadores em educação das escolas públicas do Paraná, se solidariza à família e ao movimento dos estudantes pela morte de um adolescente na tarde desta segunda-feira (24) no Colégio Santa Felicidade, em Curitiba. Infelizmente neste momento triste, surgem tentativas de criminalização do movimento legítimo dos estudantes e vinculação do sindicato ao episódio. A APP-Sindicato repudia tais ações. Assim como a sociedade paranaense, esperamos a apuração do caso pelos órgãos competentes. Segundo informações do movimento Ocupa Paraná, "não há nenhuma informação concreta sobre a motivação dessa morte e também nenhuma informação repassada aos mais de 10 advogados do movimento que estão proibidos de entrar no local para dar suporte aos outros estudantes da ocupação que estão lá dentro com a polícia civil".

Secretaria da Educação

"A secretária de Estado da Educação, professora Ana Seres, lamenta profundamente a morte de um estudante de 16 anos, nesta segunda-feira (24), dentro de uma escola ocupada em Curitiba.  A secretária externa sua solidariedade à família do jovem. 'Reforço meu apelo para que pais redobrem os cuidados com a segurança de seus filhos e que as desocupações sejam feitas pacificamente', disse a secretária. Ao serem comunicadas do ocorrido, imediatamente equipes da Secretaria da Educação e do Núcleo Regional da Educação (NRE) de Curitiba se dirigiram ao colégio nesta tarde (24), para prestar todo o apoio necessário à direção da escola".

PGE-PR

"Em relação à notícia de morte de menor cujo corpo foi encontrado na tarde de hoje, na Escola Estadual Santa Felicidade, escola invadida, a Procuradoria-Geral do Estado tem a dizer o seguinte:

A PGE nada tem a declarar sobre o fato em si, que será investigado pela Polícia Civil. Entretanto, sejam quais forem as circunstâncias, o lastimável acontecimento reforça a tese defendida pelo Governo do Estado de que as invasões às escolas colocam em risco a integridade física e psicológica dos menores que participam do movimento, razão pela qual a Procuradoria tem buscado, por todas as formas, realizar as desocupações amparando-se em ordens judiciais.

Paulo Sergio Rosso

Procurador-Geral do Estado".

Movimento Ocupa Paraná

MATARAM UM ESTUDANTE, PODIA SER SEU FILHO.
EM NOME DE LUCAS EDUARDO, PEDIMOS PAZ.

Recebemos hoje a triste notícia de que um estudante de apenas 16 anos foi morto em uma escola ocupada no Paraná, a notícia foi recebida com muita tristeza por todos aqueles que lutam por uma educação pública de qualidade no Brasil. Lucas Eduardo, mesmo não sendo um dos estudantes que ocupavam a escola é também vítima de um sistema que oprime e que não corresponde aos anseios da juventude.

Apesar das diversas correntes de ódio que tomaram conta do estado no dia de hoje, nós do movimento Ocupa Paraná não queremos e nem vamos culpabilizar ninguém pelo acontecido. Neste momento queremos apenas prestar solidariedade à família de Lucas, família que perde um dos seus para o ódio, para a intolerância e para a violência.

Convocamos todos os estudantes do Paraná, lutadores pela educação e comunidade a realizarem atos em solidariedade à família Lucas e em Vigília contra a violência que vem sendo propagada contra as escolas e orientamos todos para que nesse momento reforcem suas energias por esse garoto de apenas 16 anos que pagou todo o ódio propagado com sua vida dentro de um local marcado pela luta dos estudantes paranaenses.

Podem matar uma flor mas jamais poderão deter a primavera,
Seguimos em paz e unidos.

Movimento Ocupa Paraná
24 de Outubro de 2016

Veja mais fotos:

Foto: Mariana Franco Ramos / Especial para Terra
Fonte: Especial para Terra
  • separator
  • comentários
publicidade