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Deus ama o Brasil

Choveu sem parar durante todo o fim de semana em grande parte do Brasil, onde reside a maioria dos eleitores do país. A chuva parecia um presságio sombrio, como se quisesse acompanhar os 128 milhões de brasileiros que foram às urnas lamentando o fim de uma era

26 out 2026 - 12h16
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Resumo
Contrariando as pesquisas que apontavam a vitória de Flávio Bolsonaro, Lula reverteu o cenário e conquistou um histórico quarto mandato presidencial em 2026, aos 81 anos. Símbolo da transição democrática e da conciliação entre capitalismo e inclusão social, o líder conteve o avanço da nova onda de direita regional. No entanto, diante de um país dividido e de profundas mudanças sociais e econômicas, Lula terá o desafio de governar e construir novos consensos além de seu legado histórico.

Lula, o último grande herói da transição democrática latino-americana, que em 2022 ainda conseguiu impedir a reeleição de Bolsonaro e a onda azul de direita que já se espalhava pela América Latina. Mas, em 2026, todas as pesquisas indicavam que ser Lula já não bastava para deter a segunda onda da maré que Trump reacendeu em seu segundo mandato e, na América do Sul, seu discípulo Milei na Argentina.

Deus ama o Brasil: Lula vence as eleições pela 4ª vez
Deus ama o Brasil: Lula vence as eleições pela 4ª vez
Foto: Reprodução / Ricardo Stuckert / Perfil Brasil

O principal jornal do Brasil, a Folha de SP, estampou em sua primeira página, ontem, domingo, a manchete: "Flávio chega ao segundo turno com 51% e Lula com 49%", enquanto todas as emissoras de televisão e rádio colocavam Flávio em primeiro lugar e Lula em segundo. Todas as previsões indicavam que a esperada derrota de Lula significava o fim da era que ele próprio representava.

Heróis podem mudar a história, mas não podem impedir que ela mude. E assim como Mandela, Walesa, Havel e Mujica não puderam deter o passar do tempo ou garantir que suas sociedades permanecessem fiéis ao mundo que ajudaram a construir, presumia-se que Lula também não conseguiria. Mas Deus ama o Brasil, e Lula desafiou o curso aparentemente inevitável da história ao vencer ontem uma eleição que entrará para a história, garantindo sua reeleição e um quarto mandato presidencial.

Lula, que completa 81 anos amanhã, pertence a uma geração moldada pelos grandes conflitos do século XX, uma geração que encontrou no diálogo e na justiça social uma resposta à violência política. Ele é um produto da segunda metade do século XX, marcada pela Guerra Fria e pela queda do Muro de Berlim, servindo como uma ponte entre a violência das ditaduras e da guerrilha na América Latina e a adoção da democracia como ferramenta para a resolução de conflitos.

Contrariando as previsões, Lula reverteu o resultado e fará história com seu quarto mandato no Brasil

Lula nasceu politicamente em uma esquerda que ainda acreditava ser possível superar o capitalismo, tornando-se, em última análise, o líder que melhor conseguiu conciliá-lo com a inclusão social. Foi um reformismo gradual que buscou reduzir a desigualdade sem provocar uma ruptura social. Lula é muito mais do que o Partido dos Trabalhadores que fundou, que em suas origens surgiu com o vermelho de sua bandeira e sua estrela como parte de uma esquerda que buscava se diferenciar do capitalismo no âmbito da luta de classes.

O Partido dos Trabalhadores (PT) nasceu em meio à ditadura, em 1980, formado por trabalhadores e intelectuais marxistas, ex-ativistas de esquerda e cristãos ligados à Teologia da Libertação. A estrela vermelha do PT nasceu enquanto a União Soviética ainda existia, mas o partido chegou ao poder uma década depois do colapso soviético, graças a Lula, o homem que transformou uma esperança revolucionária em uma promessa de inclusão democrática, demonstrando que o capitalismo poderia distribuir melhor seus benefícios.

Lula nasceu em 1945 e foi moldado por um mundo industrial, com fábricas, sindicatos, classes sociais bem definidas e partidos que expressavam identidades coletivas. Sua trajetória épica começou nas greves dos metalúrgicos do ABC Paulista, a região metropolitana de São Paulo. Seu inimigo era reconhecível: a ditadura, a desigualdade e a exploração dos trabalhadores. Sua promessa era igualmente clara: democracia, direitos sociais e a ascensão dos pobres à classe média.

Muitas décadas depois, a sociedade fragmentou-se, o emprego industrial perdeu sua centralidade, as igrejas evangélicas ganharam maior peso político, as redes sociais mudaram a forma como a liderança era construída e a identidade de classe passou a competir com as identidades religiosas, culturais e afetivas.

Essas foram as primeiras reações dos presidentes do mundo à vitória de Lula no Brasil

Um quarto de século depois, as mesmas experiências subjetivas de mobilidade social que ocorreram na década de 2000 já não se repetem. A antropóloga Rosana Pinheiro-Machado levanta um problema mais estrutural: a ascensão de uma classe trabalhadora ligada às plataformas digitais, mais individualista e menos identificada com as organizações tradicionais — transformações que ajudam a explicar por que a linguagem política nascida nos sindicatos industriais já não atinge todos os trabalhadores da mesma forma.

E embora Lula mantivesse sua perspicácia política, havia receios de que ele perdesse a capacidade de representar o futuro. Hoje, com as manifestações estudantis na França que lembram maio de 1968, vale a pena lembrar que aqueles jovens não estavam apenas contestando as políticas de outro defensor da democracia, o presidente Charles de Gaulle, mas também a autoridade, a cultura e as hierarquias que ele, aos 77 anos, personificava.

Lula foi um líder sindical que se opôs à ditadura. Mais tarde, tornou-se o presidente que tirou milhões de brasileiros da pobreza. Ainda mais tarde, foi o homem que saiu da prisão, recuperou seus direitos políticos e derrotou Bolsonaro em 2022. Lula foi crucial para conter a direita há quatro anos, mas, ao mesmo tempo, tornou-se o símbolo de um desejo de renovação. No entanto, essa demanda por mudança vinda de metade da sociedade brasileira não deve ser confundida com o voto ideológico simplista na direita, no qual Milei e os libertários se enquadraram.

Há um desgaste natural em um projeto político que vem organizando a competição brasileira há mais de vinte anos. Embora Lula represente a memória política contemporânea do Brasil, ele luta para representar uma nova promessa, não porque seu projeto tenha fracassado, mas porque cumpriu sua missão histórica e já transformou a sociedade para a qual foi direcionado.

Há uma diferença entre ganhar o governo e representar toda uma sociedade; uma vitória por três pontos percentuais confere ao vencedor a legitimidade institucional para governar, mas ele terá que usá-la para resolver algumas das contradições históricas da sociedade a fim de alcançar um novo consenso: quase 60 milhões de brasileiros votaram em Flávio Bolsonaro, e o movimento político derrotado por Lula ainda detém imenso poder social.

Hegel viu Napoleão cavalgar pelas ruas de Jena em 1806 e acreditou estar testemunhando o espírito da história a cavalo. Ele não era simplesmente um homem poderoso; era um homem em cujo corpo uma era estava encarnada. Da perspectiva de Hegel, os grandes atores da história acreditam estar buscando seus próprios fins, mas acabam provocando transformações que superam em muito seus desejos — o que Hegel chamou de astúcia da razão.

Lula foi um daqueles homens que não apenas chegaram ao poder por causa de seu tempo, mas também ajudaram a construí-lo: foi um trabalhador quando os trabalhadores eram protagonistas da história, um líder sindical quando os sindicatos podiam mudar o destino de um país, um socialista quando o socialismo ainda prometia um outro mundo, e também um democrata quando a América Latina buscava deixar para trás ditaduras e violência política. Lula não apenas se deixou levar pelos ventos da história; ele também contribuiu para mudar sua direção.

A chuva havia parado na noite de domingo, mas voltou intermitentemente quando Lula discursou na Avenida Paulista nas primeiras horas da manhã. Agora, sua camisa estava encharcada, um presságio feliz não só para o Brasil, mas para toda a América do Sul; daqui a uma semana, a história continua com as eleições nos Estados Unidos.

 *Texto publicado originalmente em Perfil.com

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