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Após quebradeira, centro esvazia; sobram sujeira e prejuízos

Durante cerca de 3 horas os vândalos agiram sem ser incomodados pela polícia, que permaneceu ausente da região mesmo depois de a Prefeitura ser depredada

19 jun 2013
04h05
atualizado às 11h17
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Por volta das 23h desta terça-feira, após mais de 3 horas de quebradeira geral, o cenário do centro histórico da capital paulista lembrava algumas cenas do filme Ensaio sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles, baseado no livro do escritor português José Saramago. Rodado na cidade de São Paulo, em 2008, teve o viaduto do Chá - local da sede da Prefeitura paulistana - como uma de suas locações. No filme, o centro aparece esvaziado e coberto de sujeira. É o cenário pós-apocalíptico que os cegos encontraram ao deixar um manicômio em que permaneceram mantidos em quarentena. No filme, a cegueira é contagiosa. Na vida real, a violência, que começou tímida, ganhou corpo e se espalhou pelas ruas históricas. Houve depredações, focos de incêndio e saques nas lojas.

<p>Moto foi queimada durante onda de depredações</p>
Moto foi queimada durante onda de depredações
Foto: Vagner Magalhães / Terra

O quebra-quebra começou por volta das 18h30, quando milhares de manifestantes chegaram ao local para protestar contra o aumento no preço das passagens de ônibus - de R$ 3 para R$ 3,20 -, autorizado pelo prefeito Fernando Haddad (PT) no último dia 2 de junho. No mesmo dia, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) também autorizou o reajuste do preço das passagens de trem e metrô de R$ 3,00 para R$ 3,20. O Palácio dos Bandeirantes foi igualmente alvo de vandalismo, na noite de segunda-feira.

Nos dois casos, a violência não teve a anuência do Movimento Passe Livre, que iniciou as manifestações. Na sede da Prefeitura, em vários momentos houve briga entre aqueles que iniciaram os atos os que tentaram impedi-lo. O primeiro sinal de que a situação poderia sair do controle ocorreu quando as duas barreiras de grades que cercavam a sede da Prefeitura foram ultrapassadas. Um grupo mais exaltado entrou em confronto com a Guarda Civil Metropolitana, que fazia a segurança do local, mas, acuada, a segurança trancou as portas e se refugiou dentro da Prefeitura.  Um grupo de cerca de 100 manifestantes ainda tentou proteger o prédio, mas com pedras atiradas contra eles, acabou deixando o local.

Esses vândalos se infiltraram e prejudicaram tudo, disse Lucinda (esq.)
Esses vândalos se infiltraram e prejudicaram tudo, disse Lucinda (esq.)
Foto: Vagner Magalhães / Terra

"Esses vândalos se infiltraram e prejudicaram tudo. Era uma passeata pacífica. Nós estamos lutando por uma coisa que não tem nada a ver com isso que eles estão fazendo. Tanto que quem era do movimento foi para a avenida Paulista. Nós só não fomos ainda porque ficamos com medo de sair antes, mas agora vamos embora", lamentou a funcionária pública Lucinda Cruz Assunção, 43 anos, que estava acompanhada da amiga Andreia, 41 anos, também funcionária pública.

A partir daí, o caminho ficou aberto para os atos de vandalismo - ainda que alguns manifestantes insistissem protestar de maneira pacífica. As grades foram utilizadas para quebrar mais vidros, paredes foram pichadas e uma base da Polícia Militar, que fica em frente ao prédio, teve os vidros quebrados. Manifestantes retiraram ainda as bandeiras do Brasil e do Estado de São Paulo de seus mastros. Permaneceu a do Brasil, que ao fim da noite também já não estaria mais lá.

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Sem serem incomodados, já que não havia a presença de policiamento na região, o carro de transmissão ao vivo da TV Record, que estava estacionado no viaduto do Chá foi depredado. Primeiro, tentaram tombar o caminhão. Em seguida, atearam fogo nele. Em contato com o combustível, houve uma explosão, aplaudida por cerca de 500 pessoas que permaneciam nas imediações.

Fogo também foi colocado no posto policial que já estava com as janelas quebradas. Com o caminho aberto, o próximo alvo foi a agência do Banco Itaú da rua Libero Badaró. Teve todos os vidros quebrados, foi saqueada e no final da noite incendiada. Sobre a agência, está o prédio do antigo Hotel Othon, ocupado por famílias de sem-teto. Muitas delas tiveram de deixar o local às pressas por conta da fumaça. Assustadas, muitas crianças choravam, enquanto os pais procuravam refúgio. Muitos deles acabaram acolhidos em frente à Secretaria de Segurança Pública, que fica na mesma rua.

A violência foi crescendo à medida que o grupo percebeu que não havia qualquer repressão aos atos. Ao lado da agência, nem mesmo a igreja de Santo Antonio, considerada a mais antiga - entre as remanescentes - da cidade, escapou e teve alguns vidros quebrados. Os primeiros documentos de sua existência datam de 1592, ainda que tenha passado nesse período por inúmeras intervenções.

Marcos reclamou da confusão no centro da cidade
Marcos reclamou da confusão no centro da cidade
Foto: Vagner Magalhães / Terra

"Isso aqui virou uma palhaçada. Não consigo chegar em casa, está uma confusão danada. Olha o que fizeram no centro! Isso não é manifestação, é ação de vândalos. Não tem nem segurança para ficar aqui. Quer manifestar? Vai manifestar, mas numa boa. Quem está aqui perdeu o foco. Deviam ter feito uma coisa bonita, pacífica, para calar a boca desse pessoal", reclamou o metalúrgico Marcos (que preferiu não revelar seu sobrenome), 43 anos, ao tentar deixar a região central da cidade.

A partir daí, mais duas agências do Itaú, na mesma praça, foram destruídas. E começaram os saques nas lojas, principalmente nas ruas Direita e São Bento. Em poucos minutos, lojas de roupa, calçado, eletrodomésticos e uma relojoaria foram saqueados. Em poucos minutos era possível observar pessoas carregando caixas com TVs de plasma, microondas, sacolas de roupas e brinquedos pelas ruas do centro, ainda com a ausência policial. Até mesmo as grades para o escoamento de água da praça do Patriarca foram arrancadas e serviram de armas para os saques.

Pouco antes das 23h, o comando da Polícia Militar decidiu, finalmente, mandar policiamento para o local. Equipes da Força Tática e da Tropa de Choque tomaram conta das ruas centrais que se esvaziarak rapidamente. A partir daí, os resultados da noite de fúria puderam ser observados de maneira mais clara.

O prédio da Prefeitura estava irreconhecível. Com as paredes pichadas, praticamente todos os vidros quebrados e com as três bandeiras - do Estado, do Município e da União retiradas de seus mastros. Na frente, o veículo para transmissões ao vivo da TV Record, que foi incendiado, era observado pelas poucas pessoas que permaneciam na rua.

Daniel questionou a ausência da polícia
Daniel questionou a ausência da polícia
Foto: Vagner Magalhães / Terra

No viaduto do Chá, grades, que foram utilizadas para uma barricada, já estavam jogadas sobre a calçada, retirada pelos policias. A carcaça de uma moto, permanecia sobre a pista. Ao cruzar o viaduto do Chá, foi possível observar o Theatro Municipal, restaurado para o seu centenário no ano passado, com diversas pilastras pichadas, assim como alguns de seus livros. Na rua Barão de Itapetininga, mais portas arrombadas: de uma loja do McDonald's e de um escritório da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), entre outras. Sobrou lixo, prejuízo aos comerciantes e a história da cidade ignorada.

"Onde estava a polícia? Parece que é oito ou 80, ou desce o cacete, ou fica ausente e deixa quebrarem tudo", criticou o administrador de empresas Daniel Vilhena, 35 anos, enquanto se dirigia para casa.

Colaborou com esta notícia o internauta Tico Alzani, de São Paulo (SP), que participou do vc repórter, canal de jornalismo participativo do Terra. Se você também quiser mandar fotos, textos ou vídeos, clique aqui.

Fonte: Terra
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