Script = https://s1.trrsf.com/update-1789154714/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Brasil

Publicidade

Os 70 anos da 1ª parceria entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes que mudou a MPB e rendeu até Oscar

Em 25 de setembro de 1956, estreava no Teatro Municipal do Rio de Janeiro uma peça musical chamada 'Orfeu da Conceição', com texto de Vinicius e música de Tom.

25 set 2026 - 06h33
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
A histórica parceria entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes começou em 1956 com a peça Orfeu da Conceição. O espetáculo reuniu cenografia de Oscar Niemeyer e o elenco do Teatro Experimental do Negro, transpondo o mito grego para a favela carioca. A união fundou as bases da bossa nova e da moderna MPB ao retratar o cotidiano com sofisticação poética e harmônica. O projeto rendeu um rico catálogo musical e uma célebre adaptação para o cinema, Orfeu Negro, vencedora do Oscar de melhor filme estrangeiro.
Tom Jobim, em foto de 1972.
Tom Jobim, em foto de 1972.
Foto: Arquivo Nacional / BBC News Brasil

Afirmar que Garota de Ipanema, de 1962, é marco indelével da MPB e a canção brasileira mais conhecida em todo o planeta é chover no molhado.

Mas a parceria por trás dessa música que se tornou símbolo de brasilidade começou antes, há exatos 70 anos. Em 25 de setembro de 1956, estreava no imponente Teatro Municipal do Rio de Janeiro uma peça musical chamada Orfeu da Conceição, com texto do já conhecido poeta e diplomata Vinicius de Moraes (1913-1980) e música de um novato e talentoso pianista chamado Antônio Carlos Jobim (1927-1994), o Tom Jobim — que ganhava a vida tocando música nos inferninhos cariocas.

Diretor da Revista da Música Popular, o jornalista Lúcio Rangel (1914-1979) sabia que Moraes procurava um músico para a peça e foi quem apresentou Jobim ao poeta.

"Esse encontro foi determinante para o que se desdobraria depois no que a gente chamou de MPB", define o jornalista e crítico musical Leonardo Lichote, um dos editores da coleção Cadernos de Música.

O músico, compositor e diretor de arte Bruno Leo Ribeiro, do podcast Silêncio no Estúdio, sintetiza a parceria como "a consolidação oficial do que conhecemos como bossa nova".

"Não que eles tenham inventado a coisa, mas foi essa parceria que criou a mitologia entre letra e música", explica ele. "Na parte lírica, antes as músicas no rádio eram sobre sofrimento, drama e dores de cotovelo; com a dupla, tudo virou uma observação da beleza do cotidiano. Da beleza e contemplação do belo."

A montagem foi histórica. Se tinha viés inovador transformar a realidade das favelas cariocas em pano de fundo de teatro, vale ressaltar que a cenografia foi assinada pelo arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012) — cuja fama àquela altura já ocupava altos patamares.

Ribeiro situa a peça naquele momento em que o Brasil vivia uma fase otimista, respirando modernidade. "Era um movimento cultural completo, com arte, arquitetura, música convergindo para o otimismo de um Brasil novo", comenta.

Outro fato relevante para a época foi o elenco. Orfeu da Conceição foi encenado pelo Teatro Experimental do Negro, companhia do dramaturgo e ativista Abdias Nascimento (1914-2011), se tornando a segunda vez em que atrizes e atores negros ocupavamos palcos de um dos mais importantes teatros brasileiros.

Mitologia grega na favela carioca

Diretor Leo Jusi com os atores Ciro Monteiro e Zeny Pereira na montagem de Orfeu da Conceição em 1956
Diretor Leo Jusi com os atores Ciro Monteiro e Zeny Pereira na montagem de Orfeu da Conceição em 1956
Foto: Arquivo Nacional / BBC News Brasil

No enredo, Vinicius de Moraes reinventa, atualiza e transpõe para o Rio o mito de Orfeu, uma das figuras mais conhecidas da mitologia grega. Trata-se de um personagem famoso pelos talentos musicais que, com sua lira, tenta resgatar a amada do submundo.

"A peça representava um negócio muito interessante porque tinha essa modernidade associada a uma conquista que se dava em paralelo que era o Teatro Experimental do Negro, que afirmava a presença negra nas artes, conquistando espaço em ambientes de elite", avalia Lichote.

O crítico musical ressalta que a montagem teve o encontro de duas frentes sociais que se afirmavam no Brasil daquela época: a modernidade de viés intelectual branco europeizada e a negritude que lutava para ocupar esses espaços de cultura.

"O mito grego e a favela", resume. "Isso obviamente teve impacto."

Moraes chegou a chamar o musical de uma homenagem ao negro brasileiro. Evidentemente que há anacronismo nessa leitura, mas hoje é preciso destacar que o autor olhava para a questão sob "a perspectiva de um intelectual branco", ressalta Lichote.

"Ele representava o olhar mais progressista daquele momento e, num certo sentido, foi bastante carinhoso diante daquele universo. Mas é inegável que [na sua dramaturgia] o negro se torna nobre por meio da cultura grega, como se não pudesse ser nobre por seus parâmetros, como se precisasse da cultura europeia para atingir o status de nobreza."

Isto fica nítido até mesmo no instrumental. A montagem teve o violão como base.

"A percussão [ligada aos ritmos africanos] na peça está associada ao caos. Isso carrega a perspectiva de que a sociedade daquele momento era racista", pontua Lichote. "Não que Vinicius de Moraes fosse racista, mas que a peça trazia elementos que hoje, à distância, conseguimos perceber que eram pontos racistas daquela sociedade, elementos que representavam o olhar daquela sociedade."

É uma dicotomia.

"Ao mesmo tempo que a peça valoriza a favela como lugar digno de ser palco de grandes dramas humanos, ela romantiza a favela", pontua Lichote. "O mesmo ocorre com o negro."

Professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), o músico Felipe Julián Goldfarb também vê nesse "encontro seminal" entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes a base para a reverência e a valorização da cultura afrobrasileira pela MPB.

Estreia de Orfeu Negro contou com presença de Marcel Camus, o presidente Juscelino Kubitschek, Marpessa Dawn, Breno Mello e Vinicius de Morais no Palácio das Laranjeiras, em 1959
Estreia de Orfeu Negro contou com presença de Marcel Camus, o presidente Juscelino Kubitschek, Marpessa Dawn, Breno Mello e Vinicius de Morais no Palácio das Laranjeiras, em 1959
Foto: Arquivo Nacional / BBC News Brasil

Uma base para a MPB

"Muitas janelas foram abertas por Orfeu da Conceição", comenta Lichote.

Moraes e Jobim se tornariam profícuos parceiros. Considerado o álbum inaugural da bossa nova, Chega de Saudade, lançado em 1959 por João Gilberto (1931-2019), contou com duas composições da dupla, incluindo a faixa-título.

"[Os dois] são compositores centrais. Obviamente não fizeram isso sozinhos, tiveram antecedentes", diz Lichote. "Mas foram os principais formatadores do que a gente chamou de bossa nova: o Vinicius pelo lado lírico, as letras; o Tom pelos procedimentos harmônicos e melódicos, o lado da música."

"E João Gilberto foi aquele cara que, através do violão, conseguiu arrematar a proposta e dar forma final, definida e sintética ao projeto", pontua Lichote.

Para o jornalista Lichote, a produção musical da dupla se destacaria em duas frentes: de um lado, escancarou o Brasil que se projetava, em um espírito desenvolvimentista, para o mundo — o ideal de Brasil do futuro, os sonhos que depois seriam amputados pelo golpe de 1964; o outro aspecto foi o arcabouço harmônico que aquele gênero legaria para a geração seguinte, desembocando no que se convencionou chamar de MPB, de Música Popular Brasileira.

"Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, todos eles foram brutalmente influenciados pelo [disco] Chega de Saudade, do João Gilberto. E o que tem ali é Tom e Vinicius", aponta Lichote.

'Como diplomata, Vinicius de Moraes circulava pela Europa e tinha redes [de contatos]. Ele fazia a parte mais difícil: o trabalho de um empresário que conseguia abrir portas e viabilizar um projeto'
'Como diplomata, Vinicius de Moraes circulava pela Europa e tinha redes [de contatos]. Ele fazia a parte mais difícil: o trabalho de um empresário que conseguia abrir portas e viabilizar um projeto'
Foto: Arquivo Nacional / BBC News Brasil

A empresária artística Anita Carvalho, fundadora da escola Music Rio Academy e pesquisadora da ESPM, acrescenta ainda o aspecto empresarial da parceria entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

"A gente fala muito do encontro entre dois gênios e não avalia a parceria profissional, algo que durou décadas e funcionava", comenta.

"Isso não é comum porque parceria criativa de longo prazo é desgastante. Mas eles não só se sustentaram ao longo do tempo como criaram um repertório que sustentou as duas carreiras. É o que hoje chamamos de 'formar um catálogo'."

Além disso, ela ressalta que Moraes era um homem que "sabia levantar dinheiro".

"Como diplomata, ele circulava pela Europa e tinha redes [de contatos]. Ele fazia a parte mais difícil: o trabalho de um empresário que conseguia abrir portas e viabilizar um projeto", afirma Carvalho. "Quando ele procurou alguém para fazer a música de Orfeu, ele estava contratando. E não digo isso diminuindo o talento dos dois. É o contrário. Porque talento não se organiza sozinho e movimento artístico nenhum nasce sem estratégia de gestão."

Em 1962, os dois fariam Garota de Ipanema, a música brasileira mais conhecida, mais gravada e mais tocada no planeta. Para Ribeiro, Tom Jobim e Vinicius de Moraes se tornaram uma dupla criativa tão relevante para a música mundial como foram os ex-beatles John Lennon (1940-1980) e Paul McCartney.

Para Lichote, a parceria entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes pode ser lida no aspecto sociológico como formadora da ideia de nação.

"Eles fundam também um país. Porque o país é uma nação construída a partir do que se diz dela, o que se pensa dela, como ela é projetada. Eles projetaram um outro Brasil", diz ele. "Deram possibilidades para que se criasse uma nova música popular brasileira, que mostrasse um outro país. Foram fundamentais para a música e para a cultura brasileiras."

Desdobramentos

Orfeu Negro ganhou Oscar de melhor filme estrangeiro
Orfeu Negro ganhou Oscar de melhor filme estrangeiro
Foto: Wikimedia Commons/ Creative Commons / BBC News Brasil

Orfeu da Conceição não foi apenas a montagem de 1956. No mesmo ano, a gravadora Odeon lançou um LP homônimo — o primeiro álbum da parceria Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Se Todos Fossem Iguais a Você é uma das faixas.

Três anos depois, o cineasta francês Marcel Camus (1912-1982) transformou a peça em filme, rodado no Rio.

Carvalho lembra que o filme foi o pulo do gato que viabilizou a peça. A fita de Camus é resultado do fato de que Moraes havia vendido ao produtor Sacha Gordine (1910-1968) os direitos sobre seu texto — antes mesmo da encenação original, há 70 anos.

"Ele vendeu e usou o dinheiro para financiar a montagem teatral. Foi uma engenharia de projeto bastante sofisticada", analisa. "Ele usou os direitos de adaptação de uma obra que ainda não existia em cena e, com isso, pagou a produção. Hoje chamamos isso de pré-venda de direitos."

Chamada de Orfeu Negro, a película foi premiada em Cannes e ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro. Em 1999, o brasileiro Cacá Diegues rodou outro filme a partir da mesma obra — chamado apenas de Orfeu.

A peça foi reencenada em 2010, com direção de Aderbal Freire Filho (1941-2023).

BBC News Brasil BBC News Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização escrita da BBC News Brasil.
Compartilhar
TAGS

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra