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O que Romeu Zema disse em sabatina do Jornal Nacional com presidenciáveis

Candidato do Novo prometeu privatizar empresas estatais, classificar facções criminosas como organizações terroristas e anistiar condenados pelo 8 de janeiro de 2023. Sabatina foi a primeira das seis a serem realizadas pelo Jornal Nacional com presidenciáveis essa semana.

24 ago 2026 - 23h58
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Resumo
Em sabatina no Jornal Nacional, o presidenciável Romeu Zema (Novo) defendeu a privatização de estatais como a Petrobras e a reposição da inflação ao salário mínimo, condicionando aumentos reais à economia. Prometeu anistiar os condenados de janeiro de 2023 por considerar os julgamentos políticos e propôs classificar facções como grupos terroristas, inspirando-se no modelo de El Salvador. Zema também se manifestou contra a vacinação obrigatória e criticou tanto o governo Lula quanto Flávio Bolsonaro.
Zema durante convenção nacional do Partido Novo em julho; ex-governador de Minas foi o primeiro a ser sabatinado no Jornal Nacional
Zema durante convenção nacional do Partido Novo em julho; ex-governador de Minas foi o primeiro a ser sabatinado no Jornal Nacional
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Privatizar empresas estatais, classificar facções criminosas como organizações terroristas, anistiar condenados pela tentativa de golpe de Estado de janeiro de 2023 e manter o poder de compra do salário mínimo.

Essas foram os principais propostas apresentadas pelo ex-governador de Minas Gerais e candidato à Presidência da República, Romeu Zema (Novo), durante sua entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, nesta segunda-feira (24/08).

Zema foi o primeiro postulante à Presidência a participar da sabatina que será feita com outros cinco candidatos ao longo desta semana.

Ao todo, Zema teve 40 minutos para responder perguntas formuladas pela bancada do programa.

Além dele, está prevista a participação do ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD); Renan Santos (Missão); do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT); do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e do escritor Augusto Cury (Avante).

Foram convidados à sabatina os seis candidatos mais bem colocados na pesquisa divulgada pela Quaest no dia 14 de agosto.

A participação de Zema no programa acontece um dia depois de ele cancelar sua ida a um debate realizado pela Rede Bandeirantes de Televisão e pelo jornal O Estado de S. Paulo, no domingo (23/8). Zema havia confirmado sua participação no programa, mas recuou após a confirmação das ausências de Flávio Bolsonaro e Lula.

Sua ida ao Jornal Nacional era vista por apoiadores como uma das principais oportunidades de o candidato mineiro se lançar ao público nacional, uma vez que, pelas regras eleitorais, seu partido, o Novo, não terá direito a tempo no horário eleitoral gratuito de TV, que começa na semana que vem.

Confira abaixo os principais momentos da entrevista.

Salário mínimo e aposentadorias

Zema foi questionado sobre se manteria a atual política de valorização do salário mínimo, que prevê reajustes pela inflação do ano anterior e um percentual sobre o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de anos anteriores.

Em sua resposta, ele prometeu manter a reposição da inflação, mas condicionou a aplicação de ganho real à situação da economia nos próximos anos.

"Eu garanto que ninguém vai ter perda. Se tiver inflação, nós daremos toda a inflação", disse.

Na mesma resposta, Zema associou a possibilidade de aumentos reais à melhora das contas públicas e à redução dos juros.

"Se a economia estiver indo bem, se nós tivermos as contas equilibradas, sim [aplicação de ganho real]".

Em relação às aposentadorias, Zema afirmou que não pretende alterar imediatamente a idade mínima de aposentadoria.

Segundo ele, a mudança poderia acontecer no futuro, de acordo com o aumento da expectativa de vida da população.

"Por ora não [iremos mexer]. Nós vamos mexer à medida em que a expectativa de vida aumentar."

Zema disse ainda que uma de suas prioridades seria aumentar a formalização do mercado de trabalho.

"Eu quero simplificar as leis trabalhistas, criar um regime de trabalho por hora, como existe em todo país sério e desenvolvido. E com isso formalizar."

Zema também foi questionado sobre eventuais mudanças nas regras para trabalhadores rurais e sobre a possibilidade de estabelecer idade mínima para militares, mas ele não deu detalhes sobre suas propostas nessa área.

"Tudo isso vai depender do sucesso no ajuste das contas", afirmou.

Privatizações

Candidato do Novo à Presidência defendeu a privatização de estatais como a Petrobras
Candidato do Novo à Presidência defendeu a privatização de estatais como a Petrobras
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Autointitulado como um liberal na economia, Zema foi questionado pelos apresentadores sobre sua política de privatização de empresas estatais.

Ele foi indagado sobre o motivo de não ter conseguido privatizar a Cemig, estatal mineira do setor de energia, apesar de ter prometido privatizar todas as empresas públicas do Estado.

Zema defendeu a privatização de estatais federais como a Petrobras.

"Quem acompanhou o meu governo em Minas sabe que eu vendi, entre participações e empresas, 118 [empresas], inclusive algumas muito conhecidas aqui no Rio de Janeiro, onde eu estou, como a a Light [do setor de energia], a Helibras [aviação], na qual o Estado tinha participação, a Companhia Brasileira de Lítio (...) e mais recentemente, a Copasa [concessionária de saneamento básico]", disse.

O ex-governador justificou a dificuldade para conseguir aprovar a venda da Cemig.

"Nós tivemos um governador no passado que fez uma mudança na Constituição mineira, que fazia com que qualquer estatal que fosse ser vendida precisava de 3/5 de aprovação da Assembleia. E nós conseguimos esses 3/5 recentemente e vendemos a Copasa. Ficou faltando uma empresa", disse Zema.

Zema disse ainda que, apesar de não ter conseguido vender a estatal, sua gestão teria sido responsável pela suposta valorização da empresa.

"[Copasa e Cemig] valorizaram estrondosos 300% porque não teve roubalheira, não teve corrupção. Foi uma gestão profissional valorizando o patrimônio do mineiro. E eu vou fazer o mesmo no Brasil."

Anistia a condenados por tentativa de golpe

Em outro ponto da sua entrevista, Zema criticou a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento de pessoas condenadas por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado ocorrida no Brasil em janeiro de 2023.

Entre os condenados estão o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), acusado de ser líder do grupo que conduziu a tentativa.

Zema disse não acreditar que houve uma tentativa de golpe no Brasil.

"Não existe na história da humanidade uma tentativa de golpe ou um golpe de Estado que tenha sido um movimento de vandalismo, de depredação, como aquele que aconteceu em janeiro de 2023", disse.

Questionado sobre o assunto, Zema prometeu anistiar condenados ou transferir esses julgamentos para outras instâncias.

"Eu darei anistia, ou pelo menos, no mínimo, um tribunal que não seja político, um tribunal que seja judicial. Porque o que nós vemos no Brasil foi perseguição", afirmou o candidato.

Zema classificou os julgamentos feitos pelo STF sobre o caso como "nitidamente políticos".

"Na minha opinião, foi um julgamento nitidamente político. Vale lembrar que eu sou totalmente democrata. Fui eleito pela urna eletrônica. Confio na urna eletrônica, que poderia ser melhorada se tivesse [o voto] impresso. Mas confio. Agora, o que nós temos no Brasil hoje, [o que] nós estamos vendo, são tribunais que estão fazendo mais política do que propriamente justiça", disse Zema.

Zema prometeu anistiar condenados pelo 8 de janeiro de 2023 ou transferir esses julgamentos para outras instâncias
Zema prometeu anistiar condenados pelo 8 de janeiro de 2023 ou transferir esses julgamentos para outras instâncias
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Críticas à obrigatoriedade da vacinação

Em outro trecho da entrevista, Romeu Zema acenou para parte do eleitorado que é crítico à obrigatoriedade das vacinas.

Esse grupo, conhecido como "movimento antivacina", ganhou notoriedade durante a pandemia de Covid-19 sob o argumento de que a obrigatoriedade da vacinação fere a liberdade dos cidadãos.

Segundo o candidato, apesar de dizer que acredita na ciência, ele é contra punições a quem deixe de se vacinar ou de vacinar crianças.

"Acredito na ciência. Eu recomendei que as crianças tomassem. Agora eu não posso permitir que uma família ou uma criança sejam perseguidas porque alguém não tomou a vacina. Então eu tenho em mim essa questão de que ser obrigatório, de que transformar isso num crime não é o que pode acontecer em um país democrático".

A alternativa 'Bukele' e terrorismo

Zema também foi questionado sobre um dos pontos mais sensíveis para o eleitor, segundo pesquisas de intenção de voto: segurança pública.

O candidato defendeu que o Brasil adaptasse e adotasse algumas das medidas utilizadas pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele, contra o crime organizado.

Bukele assumiu o comando do país em 2019 e adotou uma série de medidas de segurança, como a construção de megapresídios, para combater a ação de facções criminosas em seu país.

Desde então, as taxas de violência caíram.

Em 2025, o país teve 1,3 homicídio por 100 mil habitantes, o menor índice das Américas, abaixo até mesmo de nações como EUA (4,0), Argentina (3,6) e Canadá (2,0).

Em 2015, quatro anos antes do início do governo Bukele, o país tinha 103 homicídios por 100 mil habitantes, o maior índice do mundo naquele ano e pior indicador já registrado no país.

Apesar disso, movimentos de defesa dos direitos humanos argumentam que algumas dessas medidas, como prisões indiscriminadas, violam direitos básicos dos cidadãos.

"Sou o único candidato que esteve lá em maio do ano passado para conhecer o avanço extraordinário que aquele país teve na redução de homicídios (...) O Brasil, há décadas, é o recordista mundial de homicídios. No ano passado, [foram] mais de 40.000 (...) É uma tragédia social, uma tragédia econômica (...) O que foi feito lá pode ser adaptado e servir ao Brasil. Eu vou levar segurança para os brasileiros", disse Zema.

Indagado sobre se concordava com medidas adotadas por El Salvador como prisões sem mandado judicial, redução de habeas corpus e dificuldade para investigados terem acesso a advogados, Zema disse ser contra, mas criticou o Poder Judiciário no Brasil, que classificou como "lerdo".

"Não concordo [com medidas de exceção]. Nós temos no Brasil um sistema judiciário robusto, só que extremamente caro e lerdo, que eu também quero reformar. No dia em que nós tivermos uma justiça ágil, uma justiça que julgue rápido, nós vamos ter condição de colocar bandido atrás da grade", disse.

Zema também prometeu que irá classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. O assunto ganhou os holofotes nos últimos meses depois que os Estados Unidos classificaram o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais.

Enquanto políticos de direita alinhados ao presidente Donald Trump elogiaram a medida, o presidente Lula criticou a designação. Seu governo argumenta que a classificação das facções brasileiras como terroristas poderia abrir brechas para ações militares norte-americanas em território nacional.

Quem é o candidato

Romeu Zema tem 61 anos de idade, é empresário e comandou, por dois mandatos consecutivos, o governo de Minas Gerais, seu Estado natal. Ele iniciou sua carreira política em 2018, quando disputou e venceu as eleições ao governo estadual pelo Novo, partido ao qual continua filiado.

Zema se classifica como um político de direita, conservador nos costumes e liberal na área econômica. Durante uma sabatina realizada no início do mês pelo grupo empresarial G4, Zema disse ser favorável à redução da maioridade penal e contra a flexibilização das regras relacionadas à prática do aborto.

Nas eleições de 2018 e 2022, ele declarou apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Nos últimos anos, tentou se afastar do título de "bolsonarista" e viabilizar sua candidatura, apesar do lançamento do nome do senador e filho do ex-presidente, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), à Presidência da República.

Durante o período de pré-campanha, Zema fez críticas a Flávio, especialmente relacionadas às ligações do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, que está preso e é suspeito de crimes financeiros.

Áudios divulgados nos últimos meses mostram que Flávio pediu pelo menos R$ 64 milhões a Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.

Flávio vem negando irregularidades, mas Zema criticou a proximidade entre ele e o banqueiro.

"Teria como eu aplaudir alguém que se aproxima do maior banqueiro bandido do Brasil? Eu acho que é difícil alguém querer aplaudir quem esteve, quem conviveu, com uma pessoa como ele", disse Zema durante uma entrevista em junho deste ano.

Zema, por outro lado, também é crítico ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que busca a reeleição.

Em postagens e entrevistas, ele atribui casos de corrupção ao governo Lula e diz que a responsabilidade pelo tarifaço imposto pelos Estados Unidos a produtos brasileiros seria resultado da atuação de Lula e do Ministério das Relações Exteriores.

"Eu espero é que o Brasil resolva essa questão independentemente de quem vier a solucionar isso. O que eu posso adiantar é que o governo Lula e o Itamaraty têm faltado com habilidade com relação à política externa", disse, em julho, durante uma entrevista realizada junto a lideranças femininas.

As pesquisas de intenção de voto mais recentes colocam Zema empatado com pelo menos outros dois candidatos, também de direita. Segundo a pesquisa divulgada na semana passada pelo instituto Datafolha, Zema aparece com 3% das intenções de voto no cenário de primeiro turno.

Como a margem de erro da pesquisa é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, ele aparece empatado com Renan Santos (Missão), que tem 4%, e Ronaldo Caiado (PSD), que tem 5%.

No cenário de segundo turno contra Lula, Zema aparece com 38% das intenções de voto, contra 48% do atual presidente.

De acordo com o agregador de pesquisas da BBC News Brasil, Zema está numericamente atrás de Lula, Flávio, Caiado, Renan Santos e Pablo Marçal (PRTB).

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