'Nunca tinha visto modelos apontarem uma área tão grande de risco': temporal que já deixou vítimas no RS agora ameaça Estado com enchentes
Inmet emitiu alerta vermelho para 699 municípios do Sul do país; Defesa Civil confirma morte, feridos e desaparecidos, enquanto rios Taquari, Caí e dos Sinos sobem na Serra Gaúcha.
Temporais com ventos acima de 100 km/h causaram ao menos duas mortes, deixaram três desaparecidos e afetaram mais de 527 mil pessoas em 146 municípios do Rio Grande do Sul. Milhares ficaram desalojados ou desabrigados, com Pelotas entre as cidades mais impactadas. Após os vendavais, o risco agora se concentra em enchentes e deslizamentos na Serra Gaúcha e bacias hidrográficas. Meteorologistas apontam a influência de um El Niño intenso no agravamento desses eventos climáticos extremos no Sul.
O Rio Grande do Sul amanheceu nesta terça-feira (22/09) contabilizando os estragos de um fim de semana de tempo severo e enfrentando agora o risco de enchentes e inundação (veja mais embaixo).
Depois de rajadas de vento acima de 100 km/h que atingiram o Estado — o pico do vendaval ocorreu na madrugada de segunda-feira (21/09) —, a Defesa Civil confirma, segundo balanço divulgado nesta terça pela manhã, duas mortes, três feridos e três pessoas desaparecidas, com danos relatados em 146 municípios e mais de 527 mil pessoas afetadas.
Em Pelotas — o município com mais gente afetada em todo o Estado, com mais de 336 mil pessoas atingidas —, um homem morreu ao colidir com um fio elétrico que atravessava a rua enquanto conduzia uma motocicleta.
Em Caxias do Sul, uma enxurrada arrastou um veículo com três ocupantes: uma criança de 4 anos, uma adolescente de 13 e uma mulher de 43 anos ficaram desaparecidas.
A Defesa Civil confirmou um óbito no município nesta terça-feira, mas o boletim oficial não especifica qual das vítimas foi localizada; três pessoas seguem sem paradeiro confirmado. Um outro desaparecido é um homem que sumiu enquanto limpava uma galeria pluvial na cidade — o mesmo município onde um ferido também foi registrado. O Corpo de Bombeiros segue as buscas.
Segundo o balanço da Defesa Civil estadual, 413 pessoas estão desabrigadas e 2.732 desalojadas em todo o Estado. Ao todo, foram contabilizadas 21 casas destruídas, 389 danificadas, 1.978 destelhadas e 110 alagadas, além de danos em 38 escolas, 17 estabelecimentos de saúde e outros 37 prédios públicos ou privados.
O aviso do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) que motivou o alerta vermelho, cobria 699 municípios do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, válido das 0h às 23h59 de segunda-feira, prevendo chuva superior a 60 mm por hora — o suficiente para sobrecarregar rapidamente galerias pluviais e causar alagamentos repentinos — ou acima de 100 mm em um dia, além de ventos acima de 100 km/h e queda de granizo.
Para a região metropolitana de Porto Alegre e para Caxias do Sul, o órgão detalhou risco de ventos de até 120 km/h e chuva de até 100 mm por hora.
Onde os estragos foram maiores
Depois de Pelotas, os municípios com mais gente afetada foram Santa Vitória do Palmar (30 mil pessoas, que chegou a ficar totalmente sem energia elétrica) e Viamão (mais de 15 mil pessoas, com 47 casas destelhadas). Já em termos de estrago material, o destaque negativo foi Nova Santa Rita, no Vale do Caí, onde 400 casas ficaram sem telhado — o maior número do Estado —, seguida por Rio Grande (250 casas destelhadas) e Eldorado do Sul, que teve 3 casas destruídas e 130 destelhadas.
O governador Eduardo Leite afirmou, em publicação nas redes sociais na noite de segunda-feira, ter determinado o envio de telhas para famílias de baixa renda que tiveram suas casas destelhadas, além de acionar a distribuidora de energia para priorizar o restabelecimento em hospitais e estações de tratamento de água.
Segundo ele, o fornecimento já havia sido normalizado até a noite em diversos pontos, incluindo Santa Vitória do Palmar. Operadoras de telefonia também foram acionadas para reparar torres e antenas de celular derrubadas pelo temporal em algumas cidades.
O novo eixo: risco de enchente na Serra Gaúcha
O aviso mais crítico, porém, mudou de eixo nesta terça-feira. Segundo a meteorologista Estael Sias, da MetSul, o cenário de vendaval generalizado já passou; o risco agora é hidrológico e geológico.
Chuva de 100 mm a 150 mm — próximo do que normalmente cai em todo o mês de setembro na região — atingiu a Serra Gaúcha e os Campos de Cima da Serra, área de altitude entre 600 e 1.000 metros onde nascem rios que já registram elevação rápida.
"A bacia do rio Taquari, o rio Caí já estão em rápida elevação, e também a bacia do rio dos Sinos", afirma Sias.
"Essas populações ribeirinhas têm de estar muito atentas aos comunicados das suas defesas civis, porque é um risco de inundação e de enchente nesses municípios e arredores."
Segundo a metereologista, a chuva deve continuar entre esta terça-feira e o início da quarta, o que eleva o risco de queda de barreiras e deslizamentos — "que já começaram a ocorrer". A partir daí, a previsão é de melhora.
O governador Eduardo Leite afirmou, na rede social X, que a Defesa Civil registrou cerca de 200 mm de chuva nas cabeceiras dos rios da bacia Taquari-Antas, provocando a rápida elevação do Rio Taquari. Segundo ele, projeções foram compartilhadas com prefeitos de municípios do Vale do Taquari — como Encantado, Estrela, Lajeado e Santa Tereza — para orientar a retirada preventiva de famílias de áreas de risco.
Por que alerta é sem precedentes
Em publicação no X (antigo Twitter) horas antes do pico do vendaval, Estael Sias resumiu a excepcionalidade do episódio: "Em mais de duas décadas de previsão de tempo, eu ainda não tinha previsto um cenário de alerta dessa magnitude para uma área tão grande."
Segundo a meteorologista, dois modelos numéricos de previsão de tempo de alta resolução — o europeu e o americano — apontaram, já desde a sexta-feira anterior, uma área de ventos acima de 100 km/h cobrindo a metade sul, o leste e partes do norte do Rio Grande do Sul.
"Nunca tinha visto [...] ambos os modelos indicarem uma área de vento acima e ao redor de 100 km/h para tantos municípios", diz. A previsão se manteve estável entre sexta e domingo e foi confirmada pelas rajadas registradas — a existência de microexplosões ou tornados em algumas áreas ainda está sendo avaliada.
Um alerta de tempo severo não é uma previsão certeira rua por rua — ele demarca uma área sob risco, não uma garantia de que todos os municípios dentro dela serão atingidos.
Segundo Sias, o Rio Grande do Sul não tem radar de vento, então os meteorologistas dependem de estações meteorológicas de superfície para confirmar rajadas — o que significa que boa parte dos ventos fortes que realmente ocorrem nunca chega a ser medida, simplesmente porque não passou em cima de uma estação.
Mesmo com essa limitação, ela estima que os alertas emitidos com 24 horas de antecedência acertam mais de 90% das vezes. Essa margem de confiança é diferente da usada nos avisos de mais longo prazo (5 a 10 dias), que servem só como um pré-aviso — a mobilização de fato, para a população se proteger, vem no alerta de 24 a 48 horas.
O mecanismo por trás do episódio
Para Sias, a sequência de eventos extremos no Sul do país — os tornados registrados no Paraná, a cheia do rio Iguaçu, as cheias em municípios de Santa Catarina e a situação do rio Uruguai na semana anterior — tem um denominador comum: o El Niño.
"Já estamos num nível de intensidade histórico com os dados atualizados nesta semana. É um El Niño intenso, mais intenso do que os que tivemos anteriormente, e que ainda está ganhando força — ele ainda não atingiu o seu máximo, que deverá ocorrer até dezembro", afirma.
A meteorologista Josélia Pegorim, da Climatempo, detalha o mecanismo que liga o fenômeno a esse tipo de episódio.
Segundo ela, o El Niño redireciona o jato de baixos níveis (a corrente de ar quente e úmido vinda da Amazônia) para o Paraguai, o sul do Brasil e o norte da Argentina.
Isso aumenta o contraste térmico na região, entre a massa de ar quente que predomina sobre o Brasil e o ar frio vindo da Argentina, o que facilita a formação de ciclones extratropicais na costa da Região Sul e favorece a ocorrência de tempo severo, incluindo a formação de supercélulas.
Pegorim faz, porém, uma ressalva importante: nem todo evento extremo do mês deve ser creditado diretamente ao El Niño.
Na primeira quinzena de setembro, seis frentes frias atingiram o centro-sul do Brasil em apenas 15 dias — um número muito acima do normal —, provocando chuvas de 200 mm a 300 mm no leste do Paraná, no sul e leste de São Paulo e no litoral sul do Rio de Janeiro, além de temperaturas anormalmente baixas: no dia 7 de setembro, a máxima no Rio de Janeiro foi de apenas 19°C, a menor do ano até então.
Segundo a especialista, a causa imediata desse episódio não foi o El Niño, e sim a fase negativa da Oscilação Antártica (AAO) — um padrão de ventos e pressão atmosférica que, quando enfraquece sobre a Antártida, facilita o avanço de frentes frias e massas de ar polar até o Brasil. A ligação com o El Niño, nesse caso, é indireta: estudos mostram que a fase negativa da AAO se torna mais frequente justamente em anos de El Niño, e ela tende a se intensificar com o fortalecimento do fenômeno ao longo da primavera.
Dois anos depois da tragédia de 2024
Questionada pela BBC News Brasil se o Estado está mais preparado para um evento como esse depois da tragédia de maio de 2024, que deixou 185 mortos e afetou mais de 2,4 milhões de pessoas em quase 480 municípios, Sias pondera que ainda não houve tempo hábil para uma revisão estrutural.
"O ano de 2024 foi praticamente inteiro de reconstrução e reparação. 2025 e agora 2026 já trazem outro El Niño", diz. Segundo ela, falta sobretudo estrutura humana — mais meteorologistas e hidrólogos dedicados ao monitoramento e à comunicação dos alertas.
"Ainda vejo a população perdida quando recebe um SMS, um alerta, não entendendo exatamente o que fazer com essa informação, para onde ir, qual a rota de fuga", afirma. Para ela, esses eventos extremos, independentemente de El Niño ou La Niña, já são "um novo normal".
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