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"Não existe cenário tranquilo para a democracia brasileira", diz analista sobre disputa entre Flávio e Lula

Às vésperas do segundo turno das eleições no Brasil, a direita afirma colher os resultados de anos de trabalho com jovens nas redes sociais, enquanto a esquerda é pressionada a ampliar espaço para novos representantes e a fazer o combate de ideias nas plataformas digitais.

6 out 2026 - 07h08
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Resumo
A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro projeta incertezas para a democracia: uma vitória da direita ameaça garantias constitucionais com forte apoio no Congresso, enquanto o petista enfrentará paralisia legislativa. Analistas apontam que a esquerda perdeu espaço para o individualismo e a atuação da direita nas redes sociais e templos. Diante do histórico difícil de viradas eleitorais, a esperança de Lula para o segundo turno reside em mobilizar os quase 40 milhões de eleitores ausentes ou nulos.

Raquel Miura, correpondente da RFI em Brasília

A votação em Paris ocorrerá no Espaço Vinci, localizado no número 25 da Rue des Jeûneurs, no 2º arrondissement da capital francesa.
A votação em Paris ocorrerá no Espaço Vinci, localizado no número 25 da Rue des Jeûneurs, no 2º arrondissement da capital francesa.
Foto: © Fernando Frazão/Agência Brasil / RFI

Se Flávio Bolsonaro (PL) vencer, terá muito poder para passar a "boiada" de projetos da direita, de meio ambiente a pauta de costumes, diante da força que o Partido Liberal e seus aliados mostraram na eleição, especialmente para o Legislativo, mas também nos governos estaduais.

Se Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sair vitorioso do pleito, terá muita dificuldade para tocar programas que dependam do Congresso, especialmente na indicação de autoridades que precisam do crivo do Senado. Ou seja, para observadores e analistas, qualquer projeção futura acerca do segundo turno traz incertezas e preocupações institucionais importantes.

"É de se esperar que Lula se torne incapaz, se reeleito, de indicar ministros para o Supremo Tribunal Federal. E ainda mais claro, se Flávio Bolsonaro ganhar, a tentativa da extrema direita de caminhar para uma destruição do arcabouço democrático, das garantias constitucionais. Então, não existe, no horizonte próximo, um cenário tranquilo para a democracia brasileira", avalia o cientista político Luis Felipe Miguel, professor da Universidade de Brasília.

Um dos desafios para a reeleição do petista, diz Miguel, é que o discurso em defesa de uma sociedade mais igualitária, justa e sustentável perdeu espaço para as conquistas individuais. Além disso, nem a praça pública nem o programa eleitoral são mais os locais de convencimento, mas sim templos religiosos e redes sociais, sendo que a esquerda não acompanhou tão bem esse movimento.

"O governo Lula teve problemas, mas ao mesmo tempo avançou em medidas altamente populares, como o fim da escala 6x1, que daria a um contingente gigantesco de trabalhadores mais um dia de descanso semanal sem redução de salário. E também a proibição das apostas online, uma medida que era desejada por uma maioria expressiva da população. E, ainda assim, ele não foi capaz de transformar isso em votos", disse o analista.

A fala de dois jovens deputados de Minas Gerais, um colégio eleitoral crucial na eleição, ajuda a entender os desafios de Lula e o desempenho de Flávio no primeiro turno.

Nikolas Ferreira (PL/MG) afirmou que houve um trabalho árduo nos últimos anos nas redes sociais, principalmente com os jovens, e a direita colhe agora os frutos: "Em 2021 eu perguntei para o Olavo (de Carvalho) o que precisávamos fazer. Ele disse 'trabalho de base'. E eu cravei isso no meu coração. De lá para cá, trabalhamos jovens no país todo. O Partido Liberal terá a maior bancada no Senado e teremos votos, finalmente, para o impeachment do Alexandre Moraes."

A também mineira Ana Elisa, que aos 21 anos conseguiu se eleger deputada federal pelo (PT/MG), afirmou que a esquerda precisa abrir mais espaço para novos nomes, a fim de que a juventude se veja representada em seus candidatos, e fazer o combate nas redes sociais.

"O que às vezes falta para a esquerda é ter tato com a realidade. Vai num ponto de ônibus, às seis horas da tarde, e vê se tem alguém que não está com a mão no telefone. E eu não estou dizendo que fazer um comício na rua não é importante. Eu estou te falando que se você não tiver presença nas redes sociais, o mundo pode estar ótimo, a economia pode estar ótima, o poder de compra pode estar ótimo. Mas se tiver alguém aqui na rede social falando que o mundo está uma b..., as pessoas vão acreditar", diz Ana Elisa. 

Até aqui, nenhuma eleição presidencial no Brasil teve o resultado do primeiro turno revertido na segunda etapa. Por isso apoiadores de Lula tentam manter a militância ativa enquanto a coordenação estuda mudanças na equipe responsável pela campanha.

"Não é uma diferença irrisória, mas não é uma diferença muito grande. Ela é, em tese, reversível. O problema é que as armas que o governo tinha ele já apresentou no primeiro turno e elas tiveram um efeito muito pequeno. Ao mesmo tempo, os inúmeros escândalos que envolvem o candidato Flávio Bolsonaro já são conhecidos e é difícil imaginar que algo mais grave possa surgir que leve pessoas a  desenvolver repulsa por ele", disse o professor da UnB.

"A esperança para a campanha do Lula é o grande contingente de quase 40 milhões de eleitores que não foram votar ou votaram em branco ou nulo", conclui o cientista político Luis Felipe Miguel.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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