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Mulheres rejeitam mais a extrema direita e podem decidir o 2° turno no Brasil, diz pesquisador

Após um primeiro turno marcado pela vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Luiz Inácio Lula da Silva, o cientista político Josué Medeiros avalia que a extrema direita brasileira entrou em fase de consolidação e segue demonstrando força mesmo fora do governo. Em entrevista à RFI, ele afirma que o bolsonarismo se enraizou como movimento social, aponta as mulheres como grupo decisivo da disputa e vê no segundo turno um cenário ainda aberto, apesar da liderança inicial do candidato do PL.

13 out 2026 - 12h58
(atualizado às 13h30)
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Resumo
Segundo o cientista político Josué Medeiros, a liderança de Flávio Bolsonaro no primeiro turno consolida a extrema direita como um movimento social enraizado. Com abstenção estável e surpresa nas pesquisas, a disputa foi impactada pelo descontentamento com o governo Lula. O voto feminino, caracterizado por maior rejeição à extrema direita e perfil oscilante, desponta como o fator decisivo para o segundo turno, no qual a alta rejeição ao candidato do PL pode abrir caminho para uma virada petista.

Márcia Bechara, enviada especial da RFI ao Rio de Janeiro

Mulher indígena kambeba, Daniela Cruz Gomes, passa por verificação biométrica antes de votar na comunidade de São Sebastião, na zona rural de Manaus, no estado do Amazonas, em 4 de outubro de 2026.
Mulher indígena kambeba, Daniela Cruz Gomes, passa por verificação biométrica antes de votar na comunidade de São Sebastião, na zona rural de Manaus, no estado do Amazonas, em 4 de outubro de 2026.
Foto: AFP - MICHAEL DANTAS / RFI

A liderança de Flávio Bolsonaro no primeiro turno recolocou no centro do debate uma questão que ultrapassa o resultado imediato das urnas. Para o cientista político Josué Medeiros, da UFRJ, a eleição de 2026 consolidou a transformação do bolsonarismo em uma força social duradoura, capaz de manter vigor eleitoral mesmo fora do Palácio do Planalto. O fenômeno ajuda a explicar a surpresa das pesquisas, o peso do voto feminino e as incertezas que ainda cercam o segundo turno.

Uma força que atravessa eleições

A vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno não surpreendeu Josué Medeiros. Para o cientista político e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o desempenho do candidato do PL é mais um capítulo de uma trajetória iniciada há cerca de uma década e que atravessou mudanças de governo, derrotas, vitórias e sucessivas disputas eleitorais.

Na avaliação do pesquisador, a extrema direita brasileira alcançou um grau de estabilidade que já não permite tratá-la como fenômeno conjuntural. "A extrema direita no Brasil está consolidada", afirma. Segundo ele, esse processo começou a se organizar entre 2015 e 2016 e continuou crescendo nos anos seguintes.

Medeiros argumenta que parte da direita tradicional acreditou que seria capaz de canalizar esse sentimento político e mantê-lo sob controle. O resultado, porém, foi diferente. "A direita tradicional achou que poderia conter esse sentimento, poderia se aproveitar disso", observa. Desde então, acrescenta, o campo bolsonarista demonstrou força eleitoral nas eleições de 2018, 2020, 2022, 2024 e agora em 2026.

Há, segundo ele, um padrão recorrente nesse desempenho. "A gente brinca que o bolsonarismo é um time de chegada, é um time de reta final", diz. Trata-se, na sua leitura, de um eleitorado que costuma crescer nos momentos decisivos da campanha e que apresenta características sociais relativamente estáveis, com forte presença masculina e ligação expressiva com o agronegócio.

Mais que um partido, um movimento

Para Medeiros, compreender o bolsonarismo apenas como estrutura eleitoral ou partidária já não é suficiente para explicar sua permanência. Embora observe que esse campo político ainda não tenha criado uma legenda própria, ele enxerga um grau de enraizamento social e cultural que vai além das disputas institucionais. "Do ponto de vista cultural, do ponto de vista social, do enraizamento, é um movimento", afirma.

Essa característica ajuda a explicar por que parte significativa de seus apoiadores permanece fiel mesmo após anos de intensa polarização. Para os eleitores mais identificados com o movimento, diz o pesquisador, acontecimentos conjunturais tendem a ter pouca capacidade de alterar preferências.

Isso não significa, porém, que toda a disputa esteja cristalizada. Medeiros estima que exista uma parcela menor do eleitorado ainda sujeita a mudanças. "Você tem aí uns 10% do eleitorado que oscila", afirma. É nesse universo que, segundo ele, as campanhas concentram boa parte de seus esforços no segundo turno.

Questionado sobre análises segundo as quais Flávio Bolsonaro poderia explorar um discurso de ingovernabilidade caso Lula fosse reeleito, Medeiros demonstra ceticismo quanto ao potencial eleitoral dessa estratégia. Na sua avaliação, o argumento encontra mais ressonância em segmentos específicos do que entre os eleitores comuns. "Esse argumento é um argumento mais para o empresariado, para a elite jurídica", afirma. O eleitor médio, diz, dificilmente fará esse tipo de cálculo institucional ao decidir seu voto.

O cientista político enxerga inclusive uma possibilidade inversa. Segundo ele, a campanha petista pode transformar essa discussão em um ativo político ao destacar os possíveis efeitos de uma concentração de poder nas mãos do adversário. "Se o Flávio Bolsonaro ganhar, ele vai ter todos os instrumentos na mão para mudar as instituições brasileiras", argumenta.

Abstenção como 'nova normalidade'

O elevado número de ausências registrado no primeiro turno foi apontado por parte dos analistas como um dos elementos mais relevantes da eleição. Medeiros, porém, prefere uma interpretação mais cautelosa. Para ele, os dados não indicam necessariamente uma grande desmobilização do eleitorado brasileiro. O pesquisador lembra que a diferença em relação ao último pleito presidencial foi relativamente pequena. Segundo os números citados por ele, a abstenção passou de 20,95% em 2022 para 21,5% em 2026.

Por isso, sua conclusão é menos dramática do que parte das análises difundidas após a votação. "É mais uma nova normalidade eleitoral", resume.

O peso das mulheres

Se houve um grupo decisivo no primeiro turno, Medeiros acredita que ele já estava diante dos analistas desde a eleição anterior. "Quem foi decisivo para a eleição já tinha sido assim em 2022. São as mulheres", afirma.

Segundo ele, o recorte de gênero tornou-se uma das clivagens mais importantes para compreender o comportamento eleitoral contemporâneo, tanto no Brasil quanto em outras democracias. "As mulheres rejeitam mais a extrema direita, os homens aderem mais", resume. Na leitura do pesquisador, é justamente essa diferença que torna o eleitorado feminino particularmente relevante em disputas equilibradas. Mulheres seriam, segundo ele, mais pendulares e mais abertas a rever escolhas ao longo da campanha.

Ao tentar explicar a perda de aproximadamente 4 milhões de votos de Lula entre 2022 e 2026, Medeiros aponta essa hipótese como um caminho de investigação. Embora ressalte que os dados ainda precisarão ser consolidados pelo Tribunal Superior Eleitoral, ele considera possível que parte importante desse movimento tenha ocorrido justamente entre eleitoras. "Provavelmente a gente ainda vai ter que estudar os dados depois da eleição", ressalva. Ainda assim, afirma que as mulheres "podem ser um fio decisivo para o resultado do segundo turno".

Insatisfação com governo Lula

A liderança obtida por Flávio Bolsonaro também provocou uma revisão de expectativas construídas durante a campanha. Para Medeiros, o choque não atingiu apenas partidos e militantes de esquerda. "Não foi só o campo progressista. Os institutos de pesquisa não viram", afirma.

Segundo ele, praticamente todas as pesquisas indicavam um cenário de vantagem para Lula às vésperas da votação. Quando o resultado das urnas apresentou direção oposta, o impacto foi generalizado. Uma das explicações, afirma, está no voto útil concentrado nos momentos finais da campanha. Mas essa não seria a única variável em jogo.

O cientista político acredita que também houve um grau de insatisfação com o governo Lula que escapou à mensuração dos levantamentos eleitorais. "Por que o presidente Lula perdeu quatro milhões de votos em quatro anos? Isso é mais difícil de entender", observa. Na sua avaliação, parte da resposta passa justamente por esse sentimento de descontentamento.

Quando imagina como a disputa de 2026 poderá ser estudada daqui a uma década, Medeiros evita previsões definitivas e lembra que o significado histórico da eleição dependerá também do resultado do segundo turno. Ainda assim, identifica desde já alguns elementos marcantes.

"É uma eleição que a extrema direita mostra força estando fora do governo", afirma.

Outro aspecto que considera fundamental é o caráter anti-sistema da disputa. "Acho que esse elemento é muito importante", diz, apontando esse traço como uma das possíveis marcas históricas do pleito.

A aposta numa virada

O professor arrisca uma previsão: uma virada de Lula. Sua expectativa tem uma dimensão política explícita, ligada à "defesa da democracia", mas também se apoia em um cálculo eleitoral. Flávio Bolsonaro, afirma, enfrenta uma rejeição elevada, que tende a se tornar mais visível numa disputa direta entre dois candidatos.

Medeiros associa essa dinâmica a um padrão internacional, segundo o qual um segundo governo de extrema direita costuma ser pior do que o primeiro. A avaliação reforça sua preferência por uma vitória de Lula, mas não é o único elemento de sua projeção. Para ele, a concentração dos votos no segundo turno pode ampliar o peso da rejeição ao candidato do PL.

"Eu brinco que é uma final de campeonato, uma final de Copa do Mundo, e aí quem está com a maior rejeição tende a sair prejudicado e hoje a rejeição do Flávio Bolsonaro é maior", afirma.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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