Milei "brinca com fogo" ao atacar Lula, avaliam analistas
Ataques prejudicam sobretudo os argentinos, já que país de Milei depende mais do Brasil do que o oposto. lembram especialistas. Tensão entre presidentes, porém, não deve abalar vínculo das duas nações no longo prazo.A relação entre o presidente argentino, Javier Milei, um dos principais nomes da ultradireita mundial, e o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, um ícone da esquerda mundial, é marcada não só por diferenças ideológicas irreconciliáveis como também por dois anos e meio de polêmicas e atritos.
O episódio mais recente ocorreu no sábado passado (25/07), quando Milei, em solo brasileiro para participar do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República, chamou Lula de "presidiário" e "ladrão" num discurso inflamado e repleto de insultos, acusando-o ainda de dilapidar os cofres públicos do Brasil.
O governo brasileiro respondeu por meio de canais diplomáticos: convocou seu embaixador em Buenos Aires, Julio Bitelli, para consultas no domingo e intimou o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi.
Dependência argentina do Brasil
Especialistas nas relações entre os dois países concordam que as declarações de Milei são extremamente graves e lembram que o Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina e um de seus maiores investidores estrangeiros.
Justamente por causa dessa interdependência, uma escalada da crise poderia ter custos especialmente altos para a Argentina. "Tensionar a relação com o Brasil, dada a importância que ele tem para a Argentina e para a indústria argentina, é muito arriscado", afirma a cientista política argentina Dolores Gandulfo, da Universidade del Salvador (Usal).
A polêmica prejudica sobretudo os argentinos, diz o analista argentino Marcelo Brignoni, especialista em integração regional. "A necessidade que a Argentina tem de trabalhar com o Brasil é muito maior do que a necessidade que o Brasil tem da Argentina", afirma.
Segundo dados oficiais, o Brasil é o principal destino das exportações argentinas, respondendo por 12% do total, embora essa participação tenha caído três pontos percentuais no último ano, à medida que Estados Unidos e China cresceram como mercados de destino para os produtos argentinos.
"Milei está brincando com fogo ao desgastar desnecessariamente as relações políticas com um país com o qual a Argentina movimentou mais de 31 bilhões de dólares em 2025, registrando um déficit superior a 5,6 bilhões de dólares, o que demonstra que o Brasil não é um parceiro dispensável nem facilmente substituível", observou o consultor argentino Lisandro Mogliati, especialista em comércio exterior, à agência Efe.
Para Gandulfo, os gestos de confronto do governo Milei "deixam a Argentina numa situação de isolamento".
Intrinsicamente ligados
Os especialistas lembram, porém, que, ao longo das últimas décadas, as duas maiores economias da América do Sul construíram um vínculo complexo e estratégico que se tornou imprescindível para ambas e vai, portanto, muito além das afinidades ideológicas entre os seus governos.
"A relação é geográfica e estrutural e transcende os mandatos presidenciais de quatro ou cinco anos", observa a especialista Fernanda Agostinho, mestre em estudos latino-americanos pelo Instituto Ortega y Gasset, de Madri.
A cooperação econômica e empresarial entre os dois países é muito forte e importante. Um bom exemplo são as indústrias automobilísticas, que mantêm cadeias produtivas profundamente integradas. "Trata-se de uma possibilidade de diplomacia de soft power que pode tentar evitar que o conflito chegue a níveis mais graves", avalia Brignoni.
Especialistas avaliam que a relação ruim entre os presidentes não afetará significativamente os investimentos do Brasil na Argentina, que representam 6% do total, atrás dos investimentos dos Estados Unidos, da Holanda e da Espanha.
Desgastada, mas institucionalmente resistente
"A relação Argentina-Brasil é uma relação estratégica que deu origem ao Mercosul e se consolidou porque o Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina", diz Gandulfo.
O professor de geopolítica Vitor Stuart de Pieri, da Uerj, compartilha dessa opinião. "Eu a definiria como uma relação estruturalmente estratégica, institucionalmente resistente e politicamente desgastada", resume.
Embora não haja um rompimento político, De Pieri sustenta que a dimensão política dessa relação atravessa um dos momentos mais delicados desde a redemocratização.
Agostinho destaca que os atritos entre os presidentes não impedem o funcionamento dos canais institucionais. "Existe um claro desacoplamento entre a diplomacia presidencial e a diplomacia institucional ou técnica, que continua funcionando", afirma.
Na avaliação dela, a fase atual é de "pragmatismo frio e despersonalizado", em que o vínculo pessoal entre os presidentes contrasta com o trabalho cotidiano das instituições dos Estados.
Mercosul sob pressão
Mas a tensão bilateral não afeta apenas a relação entre os dois países - ela surge num momento em que o Mercosul busca fortalecer sua projeção internacional. Desde a criação do bloco, o avanço ora acelerou, ora estagnou, dependendo do grau de alinhamento político entre Buenos Aires e Brasília.
Segundo Mogliati, o embate entre Milei e Lula reflete dois modelos distintos para o Mercosul. Enquanto Milei se alinha à abordagem defendida pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, de reduzir o Mercosul, essencialmente, a uma zona de livre-comércio, concedendo aos países-membros maior autonomia para negociar com terceiros, Lula segue a tradição histórica da coesão latino-americana e concebe o Mercosul como um projeto mais profundo de integração produtiva, política e estratégica num mundo cada vez mais fragmentado, avalia o consultor.
De Pieri lembra que o Mercosul nasceu com uma ambição que ia muito além do comércio. "O Mercosul sempre foi muito mais do que um acordo comercial. Foi uma construção política destinada a transformar uma antiga rivalidade regional em cooperação institucional", afirma.
Ele ressalva que o peso de ambos os países na região impõe limites a qualquer estratégia de confronto. "Nenhum dos dois pode formular uma política sul-americana consistente ignorando o outro", afirma.
Para o especialista, "o cenário atual mais provável não é uma ruptura, mas uma espécie de guerra fria bilateral: pouco diálogo presidencial, retórica agressiva e preservação pragmática dos vínculos econômicos e burocráticos".
Afinal, "os presidentes podem melhorar ou deteriorar profundamente o clima político, mas não controlam toda a relação", diz.
Se internamente a má relação entre Lula e Milei não impede o bom funcionamento das relações econômicas e institucionais, no campo externo, porém, as diferenças entre os dois podem paralisar o Mercosul e enfraquecer seu poder de negociação internacional.
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