Medo do retorno da ultradireita ao poder fomentou grande mobilização vermelha no Brasil
De idosos a indígenas, brasileiros de todo o canto se esforçaram para reduzir os votos nulos e o número de abstenções diante de uma direita que parecia imbatível nas redes sociais.
A mobilização popular contra a volta da ultradireita garantiu a virada histórica de Lula sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno, somando dez milhões de votos a mais ao petista. O engajamento nas ruas e nas redes sociais reverteu desvantagens em estados-chave. Diante da derrota, Flávio contestou o resultado e pediu a anulação do pleito devido à extensão do horário de votação, medida também solicitada por sua própria sigla. O TSE, contudo, assegurou a total lisura e segurança da eleição.
Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília
A derrota que permitiu a vitória. É praticamente unânime a avaliação entre apoiadores de Lula de que a dianteira de Flávio Bolsonaro no primeiro turno foi o gás que motivou a reação e sedimentou a virada histórica do petista.
Vários fatores ajudam a entender o resultado, mas foi a mobilização popular de quem viu avanços nas gestões progressistas e de quem, mesmo não sendo de esquerda, não queria o retorno do clã Bolsonaro ao poder, que garantiu a Lula dez milhões de votos a mais no segundo turno, na comparação com o primeiro.
Netos e filhos ajudando idosos, muitos em muletas e cadeiras de rodas, a chegar até a cabine de votação. Eleitores que fizeram mutirão de carona solidária para quem aguardava ônibus nas paradas de Salvador. Brasileiros que tiveram de pegar a estrada, o barco, o avião e cumprir a obrigação eleitoral. Imagens que correram as redes sociais, não só no Brasil, mas no mundo, exemplificam a grande mobilização vermelha.
"Quero saudar os jovens, as mulheres, os idosos. Os homens também. E dirigir uma palavra a você, presidente: meu profundo respeito porque o senhor, pela segunda vez, salvou a democracia brasileira", discursou o vice, Geraldo Alckmin.
Um dos destaques foi o Exército de Lula, comandado por André Janones, que arregimentou mais de dez milhões de pessoas nas redes sociais. Jovens antenados na internet que levaram a campanha para as ruas e disputaram a narrativa digital, campo em que a direita tinha mais domínio. Uma vitória que teve significado ainda maior pelos desafios externos, como destacou o próprio presidente reeleito.
"A gente teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro pelas plataformas digitais. E a gente vai ter que regulá-las. Não é possível que a gente não tenha consciência de que o crime no mundo digital deva ser punido como no mundo real", afirmou o presidente.
Lula ampliou a diferença em locais onde já tinha melhor desempenho, como o Nordeste, e assegurou a vitória em grandes centros de estados onde o bolsonarismo é mais forte, como nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. No estado de Minas Gerais, Lula reverteu o resultado e terminou à frente no segundo turno.
Flávio Bolsonaro
Pesquisas no meio da semana anterior à eleição apontavam empate numérico entre os dois candidatos. Já às vésperas da votação, dois grandes institutos mostravam Lula e Flávio dentro da margem de empate, porém com o nome do PL dois pontos percentuais à frente.
Além disso, outros fatores pesavam a favor do senador, como a distância entre a moradia e o local de votação, que era maior entre os eleitores de Lula. Muitos ao redor de Flávio já davam como certa a vitória e, não à toa, o resultado foi bem indigesto.
Flávio Bolsonaro tentou se vender como um candidato mais moderado que seu pai, Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe de Estado. Mas as primeiras palavras do senador do PL reforçaram o discurso da esquerda de que a luta era em defesa da democracia.
"É impossível reconhecer esse resultado. Vamos pedir a anulação dessas eleições", afirmou Flávio, que nem sequer agradeceu aos 59,8 milhões de eleitores que o apoiaram, mas incitou a população a contestar a vitória do adversário.
"O que aconteceu hoje não foi algo normal. Foi inaceitável. Eu não vou desistir do Brasil e espero que você, que está assistindo, também não desista", disse, ao lado de políticos como Nikolas Ferreira e Rogério Marinho.
A principal queixa de Flávio foi a ampliação do horário de votação, de 17h para 19h, decidida pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal. Um detalhe, porém, desidratou os protestos do candidato derrotado. É que os dois partidos, PT e PL, entraram com pedido para estender o horário. O partido de Lula endereçou o pedido ao STF e ao TSE, citando principalmente problemas no transporte de eleitores em cidades do Nordeste. A sigla de Flávio fez o pedido à Justiça Eleitoral, descrevendo as condições climáticas em estados como Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Nunes Marques, ao anunciar a vitória de Lula, reconheceu a lisura do processo: "Adotamos todas as providências que se fizeram necessárias. Não houve nenhuma alteração advinda da decisão eleitoral. Então, temos a absoluta segurança de todo o processo eleitoral", afirmou Marques.
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